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NEGÓCIO DE CIGANO


Robertão era uma pessoa doce e simples, amiga, desprevenida para o mal, isto é, sem nenhuma maldade. Se os males dependessem dele, de sua vontade, não haveria mal no mundo. Um tanto agoniado, melhor dizendo - apressado nas decisões. Queria tudo às pressas. E quando queria, queria. Era assim porque era assim e pronto. Ninguém o demovia de sua vontade, nada o fazia desistir de uma pretensão.
Gente do sertão de um tempo em que não havia estradas e por isso mesmo não se falava em veículo automotor. A boa montaria era como que a representação do homem de posses. E Robertão, que começara pobre e diligente, vindo de uma família de posses, melhorava de vida. Dotado de diligência, talvez possa dizer – de inteligência, crescia no trabalho e no capricho. Justo desejo de ter suas posses, seus bens, tirados do trabalho, do suor do trabalho. Sua montaria era, ainda, um burrinho miúdo e lento. De bom passo, é certo, andar macio. Mas lerdo – pouco andador é a palavra mais correta para o sertão. Contava os dias e o dinheiro para adquirir um cavalo de sela bonito, de boa raça, esquipador, desses dos quais as pessoas dizem de boca cheia – que animal de luxo!
Seu tio Pedro Altino possuía um belíssimo alazão, animal de puro sangue, mas que apresentava uma manqueira crônica. Nos primeiros passos, um quilômetro, dois, esquipava que era uma beleza. Logo começava a manquejar. Tentou tratar, levou a pessoas entendidas – de veterinário não se falava, nem se sabia desse nome, aliás. Ninguém descobria que defeito tinha o cavalo. Aparentava bom, sem qualquer sinal de doença. Encabulava. Sinal nenhum de lesão, machucadura, nada. Desenganou-se. Pô-lo à venda a baixo preço. E não escondia o defeito. É certo que não dizia que não havia cura. Poderia haver. Ele não tinha paciência para andar em busca de tratamento para o animal. Outro, que o tentasse. Se quisesse. O defeito estava aí, dito, mostrado.  Robertão conhecia o animal. Belo e imponente. Largos passos. Soube que o tio ia vendê-lo. E o procurou, ao tio. Disse-se candidato à compra. Era um sobrinho de muita estima, poderia dizer querido. O tio esclareceu:
- Meu sobrinho, esse cavalo não serve para você. Você merece ter um animal bonito, macio, de boa apresentação, andador e sem defeito, que não lhe deixe um dia ou dois no meio da estrada sem montaria.
Disse isso e esclareceu que o animal manquejava e não conseguira cura-lo. Acrescentou:
- Você sabe que seu tio gosta do que é bom, do melhor. E é por isso que lhe quer bem. Porque você tem essa mesma qualidade. E certamente, diligente como é, trabalhador, ativo, conseguirá vencer e ter recursos, possuir o melhor, ser dono de tudo que deseja. É assim que os homens de nossa família fazem. É um capricho. Se esse cavalo não serve para mim, não serve para você. Por isso é que vendo barato.  Deixe estar que vou encomendar dois animais de sela – para mim e para você, se você está disposto a adquirir um bom animal.
Robertão teimou. Queria aquele. Gostava do animal. Bonito, esquipador, vistoso... Ainda não tinha dinheiro para mais que o preço pedido por ele. Ia tentar cura-lo. Não curasse, passaria adiante.
- Bem, se é assim, se você quer tentar a cura...  Não diga que seu tio não avisou. Não está comprando gato por lebre. Estou vendendo é gato mesmo. O animal não é bom. Se você quer...
E lá foi Robertão com o animal. Tentou tudo que era remédio para manqueira. Óleo quente diariamente durante uma semana, massagens, tudo que lhe ensinavam. Nada de melhora. O cavalo manquejava sempre. Era andar dois quilômetros - puxava da perna dianteira esquerda. Não havia recurso. E quis vende-lo. Não achava preço nenhum. O animal era tão conhecido que não adiantava tentar uma desculpa.
Um dia um grupo de ciganos. Cigano tem má fama. Todo cigano vive de enganar as pessoas. Sai o grupo de lugar em lugar, tratando com gente desconhecida. Engana os tolos de um lugar. Passa a outro, vai enganar adiante. Para dizer com as palavras do vulgo, de certo modo exageradas para definir a sabedoria no negócio - cigano tem fama de ladrão. Onde anda é furtando alguém. Furtos leves, que não levam à cadeia, porque bem engendrados. O pato fica envergonhado da patota em que entrou e silencia. Ninguém gosta de passar por besta. Daí, que, quando alguém consegue enganar um cigano, conta isso como vitória e os amigos ficam felizes.
- Você hein? Conseguiu pegar o cigano. Danado. Se incomode não; ladrão que furta ladrão tem cem anos de perdão.
E é bem assim mesmo. Robertão sabia disso. Um dia um grupo de ciganos. Os amigos de gaiatice o incentivaram. Aí, Betão, tá na hora.Vende o teu bonito alazão aos ciganos.
Dito e feito. Os ciganos estavam na pracinha da cidade, negociando exatamente com animais, sua especialidade maior. Ele saiu calado, foi ao Sítio e veio montado no alazão. O animal esquipava largamente, pisada bonita, que era uma beleza. Mas puxava ligeiramente da perna dianteira esquerda. Os ciganos na praça puseram os olhos no animal. Uma beleza. Uma passada de causar inveja. Mas, a manqueira. Deixaram que o cavaleiro se aproximasse.
- Qué qui tem o cavalo, gajão? Tão bonito, passos largos... Tem alguma doença? Quer vender?
- Sei não. Apareceu com isso. Não tenho jeito. Já tentei de tudo.
O chefe dos ciganos disse:
- Deixa eu ver patrão, se tem alguma coisa. Pegou na perna que apresentava a manqueira. Olhou demoradamente. Lá no fundo do casco, escondido em posição tal que não dava para um neófito perceber, uma ponta de grampo de cerca. Pequenino, fino, quase imperceptível. O cigano manjou. E jogou o laço:
- É gajão. Também não vejo nada. Parece que tem alguma doença crônica. E renovou a pergunta: quer vender? A gente arrisca. Quem sabe, consegue curar. Se não curar, é prejuízo certo. Quer vender, diga o preço.
Robertão fez uma pedida alta.
- Ta doido, patrão? Assim o senhor quebra a gente. Isso é preço bem maior que o de um animal sadio. E fez uma proposta bem melhor do que seria encontrada na praça onde o animal era conhecido. Com aquele defeito, na verdade ninguém queria por preço nenhum. Foram e voltaram no ajuste comprador e vendedor. Pechinchando. Ajustaram-se. O cigano passou o cobre. Robertão só fez tirar a sela e pedir a um trabalhador que estava por perto, para deixá-la em sua casa. Embolsou o cobre e desejou boa sorte ao comprador.
Bem dois meses depois, o cigano, que já se despedira da cidade, reaparece e procura Robertão em casa. Quando este o avistou, foi logo berrando:
- Eu não desfaço negócio. Negócio é negócio e o feito é feito.
- Não, gajão, eu não vim desmanchar o negócio não senhor. Vim, convidar vossa senhoria para entrar em nosso grupo. O senhor será o nosso chefe.
Robertão não entrou no grupo. Nem poderia entrar, era só uma graça. Ficou-lhe entretanto a fama e o apelido: Robertão
cigano.
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João Justiniano
Enviado por João Justiniano em 04/07/2006
Código do texto: T187527

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Sobre o autor
João Justiniano
Salvador - Bahia - Brasil, 96 anos
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João Justiniano