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            O Camponês Sofrido


Debaixo do sol escaldante do meio dia, escorrendo o suor pelo rosto,a camisa grudada ao corpo, assoviando uma melodia, o trabalhador com sua enxada ao ombro, encaminha-se pra a sombra de um refrescante juazeiro, onde sentando-se ao chão, perto da moita onde está a cabaça d’água, despeja um gole do líquido barrento na caneca de folha de zinco para saciar a sede. Toma mais um gole, como se quisesse se fartar da falta de alimento. Riscando o chão com um pau, pensa na situação pela qual está passando junto à sua família. Em casa não há mais quase nada para saciar a fome da filharada. O restinho de feijão guardado na lata grande de querosene está cheínho de gorgulhos. A farinha está quase no fim, talvez não chegue ao final da semana. A última cuia de oito de milho está sendo consumida pelo povo e pelos bichos (galinhas e um porquinho). O querosene para o candeeiro acabou-se. À noite é preciso acender uma fogueira de garranchos, no monturo, para clarear a casa antes da hora de dormir. Graças a Deus a lua cheia está chegando para clarear melhor as noites escuras como breu.

Dói no peito ouvir a filha pedir um corte de chita para fazer um vestido com o qual deseja ir a reza da vizinha, bonita como as outras de sua idade. O pai diz:

-Tenha paciência , minha gente. Eu não sei cuma arresolvê tudo isso. A cuipa num é minha, foi a seca qui deixou nóis desse jeito.

A mãe com os olhos fundos de passar precisão, olha para a menina maior, comendo o subejo da menor e, pensa: Meu Deus, até quando nóis agüenta essa situação. Mande chuva pá nóis ter comida cum fartura! Eu sei qui nóis cuma pecadô num merece nada, mais tenha compaixão das criança inucente e dos bicho bruto!

No oitão da casa, em cima do jirau, as panelas de barro, as cuia, a gamela de lavar os terém tá tudo emboicado. Parece aduvinhá o destino dos seur dono, dali pá frente. Mar Deus é grande e num farta a aquém premete, A chuva ta já chegano pá tirá nóis desta misera.

As derradeira cabeça de galinha nóis leva ameiã pá rua. Num dá pa ficá cuns bicho in casa. Os ovo é um adjutoro tanto pa vendê cuma pa mistura dos minino piqueno, mar nóis num tem dicumê pa elis nem pos bixin e elis vão sê nossa salvação até a chuva chegá.
A gente si servi cum qui têm e os bixin piqueno num agüenta fica sem cumê.

A chuva chega finalmente, o homem se reanima, acha forças, não sei aonde, pega a enxada e as sementes e com ajuda da esposa e dos filhos planta sua roça, limpa, colhe os grãos, come a vontade, e armazena no paiol o
necessário para o consumo do ano. Só depois vende parte da produção para as mais variadas necessidades (roupas, calçados, tudo enfim que é deixado em segundo plano). Antes, porém é tirado e guardado o quinhão reservado ao Sagrado Coração de Jesus, o Padroeiro, para ser dado em oferta pro leilão do Padre Pedro, na noite de novena que antecede a missa solene.

Satisfeito compra roupas e calcados para a família inteira comparecer às nove noites de novena, à missa solene e a procissão de encerramento da festa.

Deus é grande e bom. O nosso padroeiro é misericordioso e o Padre Pedro até hoje vive intercedendo por seu povo junto ao Pai cantando o bendito da chuva que aqui na terra é cantado pelo padre Dermival e paroquianos fiéis quando se sentem ameaçados pela seca.

BENDITO DA CHUVA


Por vossa Paixão Sagrada
Pelos mistérios da Cruz
Compadecei-vos de nós
Dai-nos chuva meu Jesus

Meu Jesus aos vossos pés
A miséria nos conduz
Pelo sangue derramado
Dai-nos chuva meu Jesus

Meu Jesus Crucificado
Pelas três horas na cruz
Pelo sangue de amargura
Dai-nos chuva meu Jesus

Pelos cravos que cravaram
Vossos pés e mãos na Cruz
Pelas vossas cinco chagas
Dai-nos chuva meu Jesus

Pela coroa de espinhos
Que coroaram Meu bom Jesus
Tende compaixão de nós
Dai-nos chuva meu Jesus

Por vossa mãe lacrimosa
Que vos viu morrer na cruz
Por ela nos vos pedimos
Dai-nos chuva meu Jesus

Perdoaste a Madalena
E também ao bom ladrão
Dai-nos chuva meu Jesus
Alcançai-nos o perdão

Vos fazeis girar as nuvens
Que nelas água conduz
Derramai-as sobre a terra
Dai-nos chuva meu Jesus

Pela morte que sofreste
Nos braços da Santa Cruz
Dai-nos um feliz inverno
Para sempre amém Jesus


Obs: Desconheço o compositor do "Bendito".


Com som em :
http://www.marineusantana.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=188195
marineusa
Enviado por marineusa em 05/07/2006
Reeditado em 08/10/2007
Código do texto: T188195

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Sobre a autora
marineusa
Brejo Santo - Ceará - Brasil, 71 anos
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