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A sopa de Nhá Dúrcia

A sopa de Nhá Dúrcia



    Nhá Dúrcia estava no terceiro "casamento", e pelo visto não estava nada contente com o novo companheiro. O homem, que se chamava Florêncio, não queria saber de trabalhar. Ela, muito trabalhadeira, era chamada também para ser parteira, fazendo o parto de muitas mulheres da região. Era famosa pela destreza com a enxada, sempre cultivando bela horta. Cuidava de uma vaquinha magra, que muito pouco leite dava. Ela, enfim, era muito dinâmica. Ele, era uma vadio de dar embrulho no estômago. E por falar em estômago, comida ele nunca levava para casa. Ao invés disso, passava o dia bebendo pinga nos botecos, e quando chegava a hora de ir para casa, catava uns nós-de-pinheiro que encontrava pelo caminho, colocava num saco de juta, e era o que o fazia e levava para casa. Todo dia, era assim. Nhá Dúrcia, ficou doente. A vaquinha morreu. As galinhas foram todas comidas. A horta acabou. A comida acabou. E Florêncio, continuava na mesma vidinha. Levantava pelas oito e meia, saía para a vila em vêz de ir para a roça. Bebia durante o dia, juntava os nós-de-pinheiro, chegava em casa e queria jantar: - Ô Dúrcia cadê a sopa, mulher, tô com fome... E, ela que se virasse, que desse um jeito de arranjar a comida pro Florêncio. Mas ela não aguentava mais, tanta vergonha, tanta humilhação. A vizinhança toda sabia da vida dos dois, e tinham muito dó dela, mas dele queriam distância. Assim, de dia os vizinhos levavam alimentos para ela, leite fresco, queijo, bolachas, pães, frutas, doces. Todos amavam a velhinha Nhá Dúrcia, que além de muito prestativa e trabalhadeira, era parteira, benzedeira, uma "mãe-dos-anjos", e muito boa prosa.
    Certa noite, Florêncio descarregou mais uma carga de nós-de-pinheiro, entrou, pediu comida, reclamou que estava cansado, que tinha fome... Nhá Dúrcia, bem fortinha que estava, bem alimentada pelos vizinhos que a queriam bem, levantou-se da cama, foi até a cozinha, colocou mais lenha (nó-de-pinheiro) no fogo, arrumou a mesa, com um prato fundo, pra sopa. Florêncio vendo aquilo animou-se, e cuspindo gotas de pinga, arregalou os olhos para o grande caldeirão em cima da chapa quente. - Êta, pelo visto temos sopa, hoje, hein Dúrciazinha? Ela, balançou a cabeça positivamente e sem cerimônia nenhuma, destampou a panela. No prato de Florêncio, serviu um enorme nó-de-pinheiro bem cozido. Ele assustado reclamou. Ela continuou no ritual, intocável. - Essa é a sopa, a farinha tá aqui... e entregou-lhe uma travessa de cinzas de nó-de-pinheiro...
NENINHA ROCHA
Enviado por NENINHA ROCHA em 06/07/2006
Reeditado em 09/08/2006
Código do texto: T188968
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Sobre a autora
NENINHA ROCHA
Guarapuava - Paraná - Brasil, 56 anos
310 textos (10915 leituras)
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NENINHA ROCHA