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Oluparun

Era um negro, ou talvez um orixá, uma entidade que só em noites mais escuras trazia o teu assombro. Esse era o causo que se contava pelos lados daquelas terras. Entre as negras da senzala havia rumores a seu respeito, diziam ser Exu e as crianças ao ouvirem o canto, assustadas aconchegavam-se no colo de suas mães.

Na casa grande era montada a vigilância e em silêncio todos acomodavam-se em seus leitos. Era grande o temor por parte de todos. Negros ou brancos, todos o temiam.

Teu grito, uma espécie de uivo, diziam ser tão assustador que arrepiava e causava calafrio no negro mais destemido. Contava-se ainda, que na manhã seguinte à sua aparição, era certo encontrar restos de animais, quando não, o corpo de um homem (ou o que sobrava dele) dependurado numa árvore. Nada escapava de suas garras, nem mesmo mulheres e crianças.

Certa feita, apareceu por lá um tipo muito estranho, se dizendo pronto pra acabar com o tal "vodu", se bem que todos soubessem que o vodu e a aparição (lobisomem, diabo ou Exu, não se sabe) eram coisas que não se pegava facilmente.

Certo é que ao sair pra caçar o tal diabo, mesmo armado de "cabo a rabo" o sujeito jamais voltou. Segundo dizem, foi pego num só supapo, teve as pernas e braços arrancados e após abrir-lhe o ventre, o malvado o pendurou numa árvore. Embora nunca se tenha achado o corpo do caçador, é o que se tem ouvido e tido por verdadeiro desde o acontecido.

E foi assim por muito tempo, desde antes de meu bisavô ouvir do pai dele e contar pro meu avô que contou pro meu pai, que se ouve de uma assombração, que muitos juravam de pés juntos tê-la visto e que por um milagre de Ogum e São Sebastião não foram mortos. Media, segundo os "afortunados", uns trinta palmos e meio, tinha unhas grandes, máscara, pele negra e cabelos louros e compridos.

Não se sabe ao certo quem era ou o que era, se era homem ou espírito, certo mesmo é que se tratava de algo extremamente assustador, tão terrível e mortal a ponto de causar medo até mesmo ao diabo. O desalmado era tão temido que dificilmente se ouvia o seu nome, raro eram as vezes que em meio a cochixos, olhos assustados, ouvia-se nos lábios de uma negra, num misto de sussurro e assovio o nome de "Oluparum".
                                               
   
   
Rivelino Matos
Enviado por Rivelino Matos em 13/07/2006
Reeditado em 18/05/2011
Código do texto: T193306

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Sobre o autor
Rivelino Matos
Euclides da Cunha - Bahia - Brasil
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Rivelino Matos