Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto
TIRO NA BUNDA

Meu pai e Sô Joaquim eram amicíssimos. Assim, de um levar o outro em casa e não saber como voltar sozinho. Boemia, seresta, festa de São João, velório... tudo isso era com eles mesmos. Primeiros a chegarem, últimos a irem embora. Porém, num particular, quis o destino que Sô Joaquim não acompanhasse o meu pai. Era nas caçadas. Ele não compreendia aquele negócio de meu pai sair num dia levando espingarda, lanterna, mochila e mais uma porção de mutrecas e só voltar no outro dia, na maioria das vezes, sem nada ter caçado. Sô Joaquim fazia as contas com um toco de lápis e tentava provar pro meu pai que, na caçada, ele gastava mais dinheiro do que o necessário para comprar dois quilos de boa carne no açougue do Sô Luiz. Meu pai, que por pura conveniência de seus limites científicos não gostava de entrar nesses embates matemáticos, tentava fazer compreender ao Sô Joaquim que o prazer da caçada valia por dois bois do açougue. E a coisa teria ficado neste pé, não fosse a desditosa pretensão de meu pai em levar o companheiro em pelo menos uma de suas caçadas.

- Se ocê fô numa caçadinha comigo e ixprimentá a emoção de matar um jacu na frutera, nunca mais cê vai querê sabê de ôtra coisa.

O Sô Joaquim ficava escutando aquilo com aquela cara de jacu, mas não se decidia pela caçada. Assim sucediam-se os dias nos quais o meu pai ia para a caçada e chamava o amigo à janela, convidando-o a ir com ele e ouvindo sempre a mesma negativa.

- Cê tá é doido, vô não!

Foi num agosto, quando os ipês estão floridos e constituem verdadeiros poleiros de jacus, que meu pai resolveu jogar sua última cartada. E tanto insistiu com o amigo, que entre um gole e outro de cachaça acabaram por acertar uma caçada para o outro dia.

Foi uma luta levantar o Sô Joaquim às três da manhã, único horário possível de se achar os jacus na frureira. Ele levantou resmungando, apanhou a espingarda que meu pai houvera arrumado emprestada com Sô Geraldo Silva e lá se foram. 

No caminho, meu pai ia explicando para calouro, as normas básicas da caçada de jacu:  enquanto se espera os bichos chegarem na fruteira, não se pode fumar, nada de conversar, ter o cuidado de não ficar sobre folhas secas
para não fazer barulho, etc. No mais, era só esperar atrás da moita para não ser visto, finalizou meu pai. Sô Joaquim ia atrás do meu pai bocejando e  profetizando:

- Esse trem não presta! Eu não vou gostar dessa bosta de caçada!

Aí meu pai falava das compensações, do entusiasmo de se ver o tombo do jacu... até que chegaram na fruteira que o meu pai escolhera cuidadosamente para impressionar o principiante. E lá chegando, ocuparam lugar próximo um ao outro, segundo meu pai, para uma eventual necessidade de orientação na hora "H".

Tudo indicava que aquele seria o "dia do caçador". Não demorou dez minutos e mais de uma dezena de jacus pontilharam de negro o universo amarelo do ipê.

Meu pai, evidentemente, deixou ao Sô Joaquim a oportunidade de atirar. Entretanto, o dito cujo não se deixou tocar por este ato de elegância e permaneceu imóvel como se tudo que estivesse acontecendo nada tivesse a ver com ele. Diante disso, meu pai, mesmo correndo o risco de espantar os jacus, fez um "psssssiu" levemente sussurrado e quando o Sô Joaquim alçou as sobrancelhas como a perguntar: "O que que ocê qué" ? - meu pai apontou para a jacusada em cima da árvore e sussurrou mais baixo ainda:

- Atira!!!

Como o Sô Joaquim continuasse imóvel, ele repetiu:

- ô Joaquim, atira!

Foi aí que se deu a tragédia. O Sô Joaquim, que já estava pra lá de mal humorado com aquele empreendimento, respondeu em alto e bom som:

- Que merda! Ocê também nun tá com a espingarda aí? Atira ocê, bosta!

É claro que depois desse delicado diálogo, nenhum jacu, pelo menos em cima da fruteira, não ficou para compensar a viagem. Na volta para casa, meu pai vinha na frente, pisando duro, sem falar uma só palavra, enquanto Sô Joaquim vinha trás, assobiando algumas de suas modinhas preferidas.
Nem houve despedida no portão da casa do amigo.

No outro dia, à tarde, meu pai saiu novamente pra caçada e, ao passar pela casa do companheiro, lá estva ele na janela, com aquela cara mais lambida do mundo. Ao ver o meu pai, ensaiou uma voz de deboche e lá de cima perguntou:

- Ei Ismael, lá vai caçar?

Meu pai, que ainda tava tiririca da vida com o amigo, nem se deu ao trabalho de olhar pro lado. Continuou caminhando e respondeu no mesmo tom de voz:

- Lá vô, mais se ocê vié atrás de mim, te soco um tiro na bunda!



silasol
Enviado por silasol em 15/07/2006
Reeditado em 27/07/2006
Código do texto: T194851

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (CITE O NOME DO AUTOR E LINK PARA A OBRA ORIGINAL). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
silasol
Sabará - Minas Gerais - Brasil, 65 anos
653 textos (73344 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 09/12/16 13:38)
silasol