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O TREM

Era dia 17 de julho, aniversário da cidade de Sabará, e na programação constava uma "noite de seresta" com a cantora Angela Maria, que seria na Praça Santa Rita. Ainda molecote e morando em Pompéu, minhas chances de ver um evento daquela natureza eram de duas em um milhão. Não havia qualquer tipo de transporte para se chegar á cidade e, para voltar, somente o "noturno", trem de passageiros da Central do Brasil, que subia às onze da noite. Daí, ver de perto uma cantora que eu só ouvia pelo rádio, era tão somente um sonho.

Por volta das seis da tarde do dia marcado para a seresta, quando entrei na cozinha, meu pai estava sentado num banquinho sobre o fogão a lenha, contando os seus "cobres", nome que ele dava ao dinheiro. Acabou decontar, voltou com o pequeno maço de notas pro bolso e anunciou:

- Maria, eu vô na seresta, hoje!

- Pois eu num vô nesse trem, nem que me pague!
Apenas para não deixar a conversa de minha mãe dependurada no silêncio que se fez, emendei:

- Ô pai, o senhor bem que podia me levar!

Meu pai ficou em silêncio por alguns instantes como se nem tivesse ouvido, depois respondeu:

- Se qué i, pede sua mãe pra te arrumá!

Não podia ser verdade. Eu teria ouvido bem? Fiquei com medo de refazer a pregunta e quebrar o encanto daquela possibilidade. E foi o meu pai que voltou a falar:

- se vai, vai arrumá logo que já tô é saindo!

Mamãe rezou uma meia dúzia de argumentos para eu desistir, mas na verdade, não ouvi uma só palavra do que ela disse e em dez minutos, eu e meu pai descíamos à beira linha rumo á cidade.

Chegamos à praça por volta de oito horas da noite. A seresta seria às dez. Enquanto isso, fomos ao bar da esquina, onde meu pai pediu uma cerveja pra ele e um  guaraná e um sanduiche de salame pra mim. Era o máximo! O ir e vir das pessoas, as luzes...e eu ali. Talvez fosse o único menino da minha idade sentado á mesa do bar. Eu já pensava em eleger aquela como a noite mais feliz de minha vida, quando lá fora um corre-corre me chamou a atenção. Arregalei os olhos e não acreditei. Estava chovendo! Aquela chuvinha fina, pirracenta, sem força, sem pressa... depois foi aumentando, aumentando e, daí a pouco soube-se que não haveria mais a seresta. Saímos a pé debaixo daquela droga de chuva e fomos para a Praça da Matriz, de onde mei pai me arrastou para um dos botecos. Lá, encontrou-se com um tal Joaquim sei lá das quantas,  e começaram com seus casos de caçada entre uma e outras cachacinhas.

Após a morte de vários tatus, pacas, veados, quatis, capivara, perdizes, pombas e similares, em encenações que mereciam um roteiro cinematógtráfico, num tiroteio que não tinha fim, mei pai despediu-se da turma, tomou a quinta "saideira" e fomos pra estação esperar o trem.

Enquanto o trem não chegava, sô Ismael ia dizendo ser um desaforo a gente sair do Pompéu,  tomar chuva e não ver "merda de seresta nenhuma". Aí veio á sua mente privilegiada a sensacional decisão:

- Qué sabê? Eu num vô pagá passage daqui ali, nem...

- Mas pai, e o chefe? se não tiver passagem ele cobra multa.

- Uai, dô ele duas passage véia!

Dizendo isso, ele apanhou duas passagens velhas, já picotadas, no chão da estação e enfiou no bolso de dentro do paletó.. Fiquei pasmo! Se eu bem conhecia o velho ele ia mesmo, dar aquelas passagens pro chefe.

O trem parou, entramos e nos acomodamos. Meu coração não cabia dentro do peito. E na hora em que o chefe chegasse? Na verdade era pouco mais de quatro minutos de viagem, mas e daí? Tinha que pagar! estávamos passando por sobre um viaduto quando o chefe entrou no nosso vagão. Vinha virando-se de um   lado para o outro dos bancos enquanto gritava:
Passagem por favor, passagem por favor...

Tentei falar com o velho. Ele mandou eu calar a boca!

- nem um pio! sentenciou.


Pensei que iria desmaiar. O chefe chegou onde estávamos.

- Passagem, por favor!

Meu pai, para o meu espanto, fingia dormir,  roncando em alto e mau  som.

-  Passagem, meu senhor! Exclamou o chefe já balançando o meu pai pelos ombros.

O velho resmungou, tossiu três vezes, abriu primeiro o olho esquerdo, depois o direito, voltou a tossir e balbuciou:

_ Ham? heim? O que?

_ A passagem meu senhor.

Balançando a cabeça de um lado para o outro, parecendo estar mais bêbado do que na realidade estava, meu pai fingiu procurar as passagens duas vezes em cada bolso interno e externo do paletó e já diante da irritação do chefe, tirou de um deles as duas passagens velhas e entregou-lhe.

_ Ah,  tá aqui, as danada!

_ O chefe pegou as passagens e foi logo esclamando:

_ O senhor deve estar brincando! estas passagens são velhas.

_ Que mi importa me lá? Seus chefe é que me vendeu lá na estação.

_ Olha, pra onde o senhor tá indo?

_ Pra Santa Bárbara.

Enquanto eu tremia de medo, meu continuava discutindo com o Chefe, o trem surpreendioa o silêncio das primeiras casas do Pompéu, enfileiradas à margem do rio.

_ Olha, meu senhor, eu vou ter que chamar o comandante de viagem,  o senhor não pode viajar com estas passagens.

_  Que me importa? Chama quem ocê quisé!

O Chefe, fulo de raiva, dirigiu-se ao vagão de comando, exatamente quando o trem chiava os freios na pequena paradinha do pompéu. Papai arrastou-me vagão afora e pulamos do trem. Eram quinze segundos de parada. mal o trem parou, já foi apitando e colocando-se novamente em movimento. Apeamos sem pagar.

Sô Ismael, lançando o olhar para o vagão de comando, gritou com entusiasmo de vencedor.

_ Alá, cambada de bocó! Cobra de mim, cobra...

Não deu quatro passos! Escorregou e caiu esparramdo numa poça de lama. Um tombo e tanto! Levantou-se, bateu com as mãos no fundilhos enlameados da calça e gritou novamente, virando-se para o trem que já sumia na curva a mais de cem metros:

_ Vai rogá praga na sua mãe, capeta dos inferno!







silasol
Enviado por silasol em 18/07/2006
Reeditado em 12/10/2006
Código do texto: T196383

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Sobre o autor
silasol
Sabará - Minas Gerais - Brasil, 65 anos
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