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O sorriso



Era uma viagem simples. Seria simples se não fosse de ônibus. No “lombo de um animal” daria mais certo,  não fosse tão demorada. No ônibus, era só entrar e o estômago começava a “embrulhar”. Por isso, sentava-se sempre à janela e botava a cara para fora. Mesmo assim, o  “santo limão” ia sendo cheirado no percurso.
Seu irmão Nonô, brincalhão e gozador tentava puxar assunto, contava piada, sorria, mas tudo era em vão.
O alívio vinha depois que o ônibus deixava o cheiro de fumaça da cidade, e com mais velocidade, o ar circulava com sobra e era puxado pelos pulmões.
De vez em quando sorria, murmurava algo, inclinava os ouvidos e colocava de novo o nariz para fora da janela.
Se o cheiro do limão ficava fraco, uma casquinha era tirada com a unha e levada ao nariz.
E a viagem “ia indo”.
Uma hora e meia após a partida o ônibus parou.
Estavam fazendo uns reparos nos estragos causados pela forte chuva que caíra. Péssimo sinal.
Nonô enfiou a mão na mochila, tirou um sanduíche, uma lata de refrigerante e ofereceu ao irmão. O “não” foi só com um gesto de cabeça. Ou foram os solavancos do veículo já em movimento que fizeram a cabeça sacudir? Mas, se o corpo todo sacudia, então ... o estômago ia junto, causando um suor frio que brotava dos poros.
O “santo limão” e o vento fresco já não faziam o milagre esperado.
A boca parecia um poço de água azeda.
Não tinha mais jeito: tinha que “dispor” daquele bucho indisposto e pré- disposto a sacaneá-lo.
Enfiou, então, a cabeça para fora e dispôs de tudo que tinha nele. O que não tinha também queria sair.
Nonô o olhava com pena, mas o que fazer?
Foi aí que percebeu que o irmão puxou a campainha com toda força, fazendo o ônibus parar bruscamente.
Observou o irmão descer e ficou sem entender nada; não tinham como destino aquele lugar ermo.
- Espere, gritou ele para o motorista que dava partida no veículo. – Meu irmão desceu e não é aqui o nosso destino.
Bem à frente, ou melhor, lá atrás, respirando com dificuldades, observou o mano procurando algo à beira da estrada. Chegando bem perto, percebeu que ele tinha encontrado o que procurava e limpava o objeto na camisa. Viu-o colocar a “coisa” na boca e mostrar UM SORRISO de satisfação.
E o irmão, também mostrando a dentadura num sorriso grande, disse-lhe: - Vamos, o ônibus ta esperando!

Waltinho
Enviado por Waltinho em 25/07/2006
Código do texto: T201404
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Sobre o autor
Waltinho
Sabará - Minas Gerais - Brasil, 64 anos
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