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AGUA ARDENTE

Água   Ardente

“Más companhias estragam os hábitos bons”, dizia minha mãe em tom de conselho.
Até hoje ouço o eco dessa frase e percebo que ela tinha razão.
Tudo começou quando ainda era menino:
Estava com uma “baita” dor de dente e alguém me aconselhou a tomar um copo de pinga para acalmar a “dita cuja”.
Não me lembro como, mas, de repente, estava com um copo cheio na mão. Virei o conteúdo como se fosse água, só que a tal queimou se fosse fogo. Daí a pouco, o mundo girava ao meu redor ...ou era eu ao redor dele?
Fui para a cama e  “apaguei”. Quando acordei, o estômago “embrulhava” e jogava tudo para fora. A cabeça doía, eu suava frio ... O pior era que a dor “doía mais”.
Naquele tempo, o remédio eficaz era o boticão ... e sendo assim, o danado não doeu mais, mas deixou um buraco no seu lugar.
Foi a minha primeira vez.
A Segunda vez que bebi foi por causa do segundo dente a doer.
Era uma verdadeira “panela”, expressão usada na época.
O conselho foi:  “põe pinga na boca, tombe a cabeça e dê uma bochechada. Novamente, não sei como, um copo estava na minha mão. O cheiro não era agradável, mas o conselho parecia ser e, sendo assim, dei um trago. Tombei a cabeça e comecei a bochechar”.
Aí, desacostumado com a coisa, distraí e engoli tudo.
Extraí o danado e outra “panela” ficou no
A terceira vez foi por causa do ... terceiro dente a doer!
Eu não sabia qual deles doía, mas não iria tomar mais pinga por causa da dor.
Como estava chovendo,  fui para  a venda do Inhô. A dor não parava e o pior de tudo era que piorava.
O conselho dessa vez foi:  “apare as mãos que eu vou despejar um pouco de pinga. Aí você respira tudo pelo nariz. “Qualquer coisa é melhor que a dor”, pensei com meus dentes e agi conforme a sugestão.
Que sufoco! Fiquei literalmente sufocado.
Lágrimas de álcool saíram pelos olhos arregalados, a tosse  fazia o peito arder e o ar sumiu dos meus pulmões.
A coisa foi feia mas a dor se foi.
Porém, esta experiência não deve fazer parte do curso de odontologia e nem da vida de ninguém.
A quarta vez que bebi foi à força, provando que eu ainda tinha força de vontade.
Estávamos numa pescaria em Gesteira, lugar famoso na região pela pinga que produz e Jair aproveitou e comprou um litro
Como os peixes não estavam cooperando,  entramos no rio para refrescar o esqueleto.
Então tomaram um gole para “tirar a friagem” e me passaram o litro para que eu desse “um bico”. Como rejeitei, Roberto me segurou e disse: - na boca ou na roupa! Aí o “espírito de porco” se  apossou de todos e dois deles me seguraram pelos braços e Jair pôs o litro na minha boca.
“ Boca fechada não entra mosquito”, lembrei-me do ditado e acrescentei: “e nem pinga”.
Porém, como “não há força contra a resistência”, me fizeram cócegas e quando abri a boca, a “da roça” escorreu pelos meus lábios e pela goela abaixo.
Dessa vez não foi tão desagradável, pois foi por farra e não por dor.
A Quinta vez, já adolescente,  alguém me disse que eu estava com xistosa e  me receitou: - ponha folhas de eucalipto dentro de um litro de pinga e enterre p litro no barro durante sete dias. Depois beba uma colher todos os dias, pela manhã, em jejum.
Até hoje eu nunca vi uma receita médica com esse teor e nem sei se é ou não eficaz.
Na verdade, eu nem sabia se tinha mesmo a tal “xistosa”.
Com a quinta, obrigatoriamente, vieram tantas outras. A “turma” ia revelando as novas descobertas: cachacola, porradinha, cu-de-burro, traçado, rabo-de-galo, pinga com mel, com coco, com pitanga, com sassafrás, com jatobá, com carqueja, com raiz disso e raiz daquilo.
Até Festival da Cachaça inventaram!

Hoje “bebo socialmente”, mesmo estando sozinho.
Há gente que bebe porque está triste, está alegre, desesperado, bebe para esquecer, porque molhou porque ta frio, ta nervoso,e por tantos outros motivos.
Mas todo mundo bebe mesmo porque é líquido. Motivos não faltam. Até os viciados têm um motivo: são viciados.
Todo mundo ri dos tombos que levo... mas ninguém vê as pingas que tomo...
Eu, se quer saber, não tenho motivos.Bebo por causa das companhias que tenho.
Maus hábitos estragam as boas companhias!
Waltinho
Enviado por Waltinho em 28/07/2006
Código do texto: T203736
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Sobre o autor
Waltinho
Sabará - Minas Gerais - Brasil, 64 anos
16 textos (903 leituras)
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