Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O rio não está para peixe

Um pouco adiante da várzea esquerda daquele rio, já adentrando na mata, Genário sentado sobre os calcanhares, amolava uma faca. Resmungava baixinho coisas que, de onde eu estava, não pude ouvir. Estação ruim aquela, em que os pássaros quase não voam, do verde da folha só sobra a estria vergada, de resto marrom. A manhã nascera rosada, agora já quase em seu fim, não mais. Dia seco de céu muito azul.

Colocando a faca na bainha levantou-se ligeiro, jogou a sacola nas costas e se dirigiu ao barquinho muito surrado. Genário era homem já velho, de barba crescida escondendo as feições rudes de seu rosto; olhos grandes e redondos, olhos atentos. As mãos já apresentavam a gastura disforme de longos anos de pescaria: calo sobre calo. Pescador o era “desde piá” como costumava dizer, e orgulhava-se do ofício, o mesmo do pai e do avô. Vida de histórias que os dedos não mais podiam contar, mas nem todas eram histórias de pescador.

O Sol a pino esquentava sua cabeleira e logo meteu o chapéu na cabeça; já no centro do rio jogou sua rede e pôs-se a, pacientemente, esperar o rebuliço dos peixes. Assim ficou, por uma, duas, três, e na quarta hora e meia desistiu.

Na margem, agora transportava suas ferramentas, sua gastura, olhar comprido e peixe algum; com os pés atolados na lama, descansou as mãos na cintura. Olhou a vastidão. O vento resfria, mas parece que o dia não transpira, sempre a mesma visão. Sem muito alarde, vinha se aproximando um homem, cuja aparência nada diferia de Genário: roupa suja e cabelo emaranhado. Veio ao seu encontro e o saudou. Genário tirou o chapéu em cumprimento. Prosearam rosto rente a rosto, baixo, discreto. Pude ouvir algo: “sujeito mole de corrida, sem faca ou pistola, deve para mim e mais uma dúzia; merece o merecido pois, além disso é ladrão de mulher, cá no meio do mato, quase o catei erguendo a barra de saia da minha dona, que vinha fazer oferenda no dia do Santo” dizia o homem, “Ah! Não tarda a ver a casa do demônio, diabo safado” disse com raiva Genário que, recebendo uma boa quantia, agradeceu ao homem que já sumia na mata.

Não hesitou em despender mais algumas horas, na beira do rio, para trabalhar em sua faca. O fez muito sério e compenetrado, sem pressa, como uma arte bela, que não vê tempo nem motivo para se findar. Já noitinha julgou boa hora aquela de ir embora. Com a cesta vazia e a cabeça cheia, foi-se. E foi no burburinho de fim de dia na vila, que Genário, recostado na parede de uma loja fechada viu sair do boteco, Tião. Jogou a ponta do cigarro fora e sabendo o caminho que o infeliz percorreria, segui-o até a ruela mais afastada do movimento habitual.

Tião cambaleava embriagado. Resmungava, ria, e certa hora, de tanto rir, agachou no chão tossindo feio. Ele estava coberto por uma sujeira grossa de terra molhada que seca no corpo, e achando pouco, ainda no chão, bebeu mais da garrafa que carregava, lambuzando a barba crespa. Levantou, apontou o dedo pro alto e ia proferir alguma frase vazia quando Genário o chamou. Prontamente virou-se para responder ao chamado, mas já estavam bem próximos um do outro e em um segundo sentiu a faca cravar-lhe certeira o coração. Arregalou muito os olhos, tanto que Genário pensou que iriam saltar. Mas não. O homem sucumbiu, desmontando sobre os joelhos. O vendo ali, agarrado aos seus pés, com a cara na terra, deu um chute a fim de encará-lo. O homem não mais podia gritar. Mais oito facadas, rasgando pele a todo canto do corpo. Às vezes sorria, posto que o barulho da faca contra a pele lembrava Genário o ato de descamar peixes, isso o deixava com uma ponta de distração, de prazer.

Mas Tião tinha “sangue ruim”, pensava. “Muito ruim”.

Por isso saiu sacudindo as mãos encharcadas e nem fechou os olhos do defunto.  

Numa sacada pequena que dava pra essa ruela, duas prostitutas assistiram ao fato. Uma mui aterrorizada e a outra, já habituada, que a abraçou, consolando:

- Essa é a atividade secundária de Genário, e, se o rio não estiver para peixe, primária.


Laís Mussarra
Enviado por Laís Mussarra em 03/08/2006
Reeditado em 08/05/2007
Código do texto: T208317
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Laís Mussarra
Estados Unidos, 29 anos
139 textos (8285 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 16:51)
Laís Mussarra