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CONCURSO DE CANTADAS


Leandro deu um salto e levou às mãos à cabeça:

- Santo Deus! Era tudo o que eu queria...

Ninguém entendeu nada, mas sua irmã tratou logo de explicar:

- Ele está desempregado. Está "matando cachorro a grito". Louco para encontrar um bico qualquer...

- E o que isso tem a ver com a reação dele?

- Você não ouviu o anúncio?

- Que anúncio?

Beth, a irmã de Leandro, explicou para sua amiga Bia o que acabara de acontecer. A Rádio Sucesso AM, da cidade de Ferruginha, no Rio Grande do Norte, acabara de rodar um comercial, promovendo um "Concurso de Cantadas".

Naquela altura, Leandro já estava defronte ao computador, espalhando as primeiras letrinhas na tela, nesta sua tentativa frenética de produzir algo que lhe desse algum recurso.

Enquanto subiam as escadarias do sótão da casa, para chegar ao quarto secreto de Leandro, Beth continuou explicando para Bia que já tinha uns cinco meses que Leandro vivia agitado com o prolongamento do seu desemprego. Ele estava disposto a fazer qualquer biscate, podia ser uma ocupação simples, desde que lhe garantisse uns trocados.

Assim que chegaram ao quarto de bagunças de Leandro, onde estava seu micro-computador ligado à Internet, as meninas puderam ler as três primeiras criações do rapaz:

"Seus olhos são como o mar,
deixa eu neles navegar?"

E riram de sua ingenuidade; do misto de romantismo com infantilidade desta sua cantada. Em seguida leram, as duas, em voz alta, a segunda criação, sem dar tempo a Leandro de absorver os risos provocados pela primeira.

"Quanto mais te olho,
mais te devoro."

Se a primeira havia provocado risos, esta segunda promoveu uma intensa gargalhada, já que elas estavam embaladas pela leitura em voz alta da segunda cantada.

A proposta da Rádio era proporcionar uma renovação no repertório de cantadas masculinas para conquistar as meninas. Para o locutor Jean LucBoy muitas cantadas eram insossas e não mais produziam qualquer efeito sobre as moças. Ele não sabia se as cantadas tinham ficado manjadas ou se as garotas haviam ficado mais espertas. Daí a razão de ser do Concurso. Queria renovar as cantadas, e alavancar à audiência de seu programa.

- Meninas, o vencedor do Concurso ganha uma passagem para Nova Iorque, com estadia em hotel de luxo para cinco dias, despesas pagas, direito a acompanhante e ajuda de mil dólares para compras.

- Não acredito! Tudo isso?

- Sim. Por que, você acha que fiquei animado?

- Se você ganhar me leva?

- Ah, não! Eu que quero ir...

Beth retrucou o interesse da amiga, alegando prioridades de irmã. Mas Bia não se fez de rogada.

- Eu crio a cantada.

- Só podem participar homens!

- Eu crio e você inscreve no seu nome.

- Mas não precisa! Olha a terceira. O que vocês acham?

Os três deram uma pausa na acirrada disputa por um prêmio que era só sonho maluco e silenciaram-se na leitura absorta da terceira cantada criada por Leandro, que aparecia em letras garrafais vermelhas, na tela do micro:

"Oi, gatinha! Faz miau
baixinho para o seu gatão?!"

Bia olhou para Beth que olhou para Bia e ambas voltaram-se desoladas para Leandro. Bia, porém, foi quem tomou a iniciativa de falar:

- Querido! Para ser sincera com você, sem querer lhe desanimar, você vai ter que melhorar em muito sua criatividade se quiser começar a pensar em participar deste Concurso.

- Mano, a Bia tem razão. O negócio aí ta fraco. Se não der uma sacudida criativa em seu cérebro, acho que vai ficar difícil sequer sonhar com este Concurso. Aliás, como é que você pretende fazer dinheiro com isso?

Leandro coçou a cabeça, pensativo, e respondeu:

- Já que estamos lidando com franqueza, vou abrir o jogo com vocês. O que vocês leram aí é só o ponta-pé inicial. Estou esquentando. Daqui a pouco surgirão umas idéias melhores. E digo para vocês: vou ganhar este concurso!

- Ah, vai?! - Interromperam as duas quase que falando ao mesmo tempo.

- Sim, vou! Vou ganhar e não faz parte dos meus planos levar nenhuma das duas comigo.

- Fala sério!

- É verdade! Não levo mesmo. A menos que vocês consigam o dinheiro para reembolsar a parte do acompanhante. Como vocês também estão "durebas", sem chances.

- Ah! Quer dizer que é assim que você pretende levantar a grana para sair do sufoco?

- É isso mesmo! São mil dólares em espécie e mais uns dois mil relativos aos custos do acompanhante que pretendo negociar.

- E você acha que consegue fácil alguém para ir com você?

- Claro! Tem sempre alguém querendo ir para lá. Obviamente que eu vou, pois o Concurso não permite que se transfira a passagem e a estadia do vencedor. Agora, que ninguém fique sabendo desse meu plano. Certo?

Leandro terminou a sua fala e olhou grave para as duas, como que querendo cumplicidade delas.

- Mas, não vai saber mesmo! - Interrompeu a Beth - Você não vai ganhar merda nenhuma! - E pegando na mão de Bia disse-lhe:

- Vamos embora daqui! Deixa este retardado viajar na maionese.

As meninas foram embora com risos e estardalhaços e Leandro ainda gritou a tempo delas ouvirem:

- Vou ganhar sim! Vocês vão ver...

Em seguida, retornou ao seu pensar, buscando concentrar-se na criação das famigeradas cantadas que poderiam abrir-lhe não só as portas do dinheiro, mas também da fama, já que haveria toda uma promoção de mídia em cima do vencedor.

Leandro nunca foi bom galanteador. Jovem bem apessoado era ajudado por um porte físico agradável, estatura avantajada e rosto simpático. Quase sempre eram as meninas que se aproximavam, lançavam seu encanto, flertavam, e só lhe restava dar o bote. Ao menos isso ele tinha que fazer.

Passou o resto da noite bolando cantadas as mais diversas, desde as irônicas, sarcásticas, até as românticas e sensuais. Estava realmente animado com a possibilidade de faturar esta premiação.

Os dias se passavam. A Rádio já estava propagando a marca de mil cantadas inscritas. Seriam selecionadas as dez melhores para veiculação no Programa de Jean LucBoy, uma a cada dia, no mês seguinte. O prazo de inscrição se encerraria em cinco dias.

Leandro já havia bolado mais de trinta cantadas. Olhava as suas criações de trás para frente, de frente para trás, cada frase, cada expressão, mas não estava satisfeito. Além disso, algumas cantadas desclassificadas já estavam sendo transmitidas a título de gozação pela Rádio e o nível o desagradara muito, até porque se assemelhavam bastantes às que ele próprio compusera.

Até que na pressão do prazo que se esgotava, e depois de tanto gastar a mufunfa na perseguição da criação de uma cantada que pudesse disputar as primeiras colocações, aconteceu a que mais lhe agradara:

"A comida estava muito boa.
Tem sobremesa de noite?"

Leandro sabia da limitação da cantada, pois se aplicava somente ao contexto de restaurantes e similares. Além disso, exigia que atendentes, balconistas, garçons e serviçais fossem do sexo feminino. Resolveu arriscar. Sua criatividade não ia mais além do que isso.

Faria um teste no almoço daquele dia. Queria ver a eficácia da cantada. Se percebesse que a repercussão tinha sido boa, então faria a inscrição da mesma. O prazo de inscrição estava expirando. Faltavam apenas três dias. Naquela segunda-feira acabou de almoçar no self-service da esquina e resolveu jogar um mole sobre a garota que o serviu à mesa:

"A comida estava muito boa.
Tem sobremesa de noite?"

A menina olhou para ele com ar sonso, deu de ombros e seguindo a sua tarefa rotineira de limpar a mesa, respondeu com indiferença:

- Hoje, excepcionalmente, estaremos abrindo para o jantar. Está acontecendo um evento na cidade e, nesta semana, por conta disso, vamos oferecer o jantar.

Leandro engoliu em seco e, como quem sofre o impacto da frustração apenas respondeu:

- Ok! Vou retornar logo mais.

O tempo estava passando. No dia seguinte, o rapaz foi a um restaurante de luxo, com o serviço à la carte, onde se refestelou no saboreio de deliciosas guloseimas. Após a refeição, dirigindo-se à caixa, aplicou novamente sua cantada:

"A comida estava muito boa.
Tem sobremesa de noite?"

A jovem olhou para ele com ar de safadinha e ele chegou a se animar com o que poderia resultar desta abordagem, mas, encarando-o respondeu com firmeza:

- O serviço da noite é o mesmo da manhã!

"O que isso queria dizer?" A interrogação apareceu inquieta no rosto franzido de Leandro que ficou tentando entender qual tinha sido a intenção da moça com o uso de palavras tão dúbias. Preferiu não arriscar. Havia um policiamento constante das patrulhas do "politicamente correto" e ele não queria dar margem para suspeitas quanto às suas reais intenções. Optou pelo entendimento literal de que o restaurante de fato funcionava 24 horas.

O tempo estava passando e Leandro cada vez mais pressuroso. Era o último dia para inscrição da sua cantada. Leandro saíra ansioso de casa naquela manhã. Antes de colocar em prática o terceiro teste previsto, o rapaz pegou o envelope adredemente preparado, lacrou o ofício interno com seus dados e a cantada escolhida. Passou nos escritórios da Rádio e protocolou sua inscrição.

Se queria realmente concorrer, e ter a chance de colocar a mão na grana oferecida, tinha que se inscrever. Desse certo ou não, o princípio da vitória é fazer tudo que tem que ser feito para alcançá-la. Mesmo que este tudo fuja das cartilhas oficiais das iniciativas que alcançam êxito. Não há vitória sem transpiração. Não há sucesso sem esforço. Esperar que toda menininha loirinha bonitinha se torne uma Xuxa ou uma Angélica e que cada garotinho pobre do Brasil se faça um dos Ronaldinhos é ensinar ao país o caminho da preguiça. Não freqüentar os bancos escolares e chegar à presidência é resultante de um cruzamento de dados e fatos que só se repete de quinhentos em quinhentos anos. E os primeiros já se passaram. E para o próximo, você não estará vivo.

Leandro ficou a se questionar se estava querendo vencer na vida de forma fácil, encurtando caminhos. Mas, concluiu que não. Não jogava em loteria nem apostava em cavalos. Nunca tinha participado de bingos. Somente estava desempregado! Era fruto do iníquo sistema neoliberal que arrasara o emprego no país nos últimos dezesseis anos. Sofria a injustiça de ter nascido de família pobre, num tempo de desemprego em ascensão.

Depois de protocolar sua inscrição na Rádio Sucesso AM, cujas antenas estavam instaladas na pequena Ferruginha, foi para a praça central da cidade, vender cartões telefônicos e amealhar alguns trocados que pudessem lhe garantir o almoço. Precisava de mais um almoço, somente mais um, para fazer o último teste que precisava para a sua cantada. Após saborear a comida simples da Pensão da Tia Anastácia, abordou a atendente do balcão de refrigerantes:

"A comida estava muito boa.
Tem sobremesa de noite?"

A menina olhou para ele e respondeu evasiva:

- Somente à noite! É quando oferecemos uma refeição mais requintada.

Novamente Leandro se viu diante de uma resposta um tanto quanto dúbia. Que refeição requintada era essa da noite? A moça ou o prato? A atendente ou o que era servido na bandeja daquele restaurante? Um gosto amargo e travado foi sentido por ele. Sentia mais uma vez e, dessa, de uma forma que se apresentava definitiva, que sua cantada não tivera condições de passar no teste das ruas. Mas, a sorte estava lançada. Sua inscrição estava feita e agora era aguardar o prazo previsto para o início da revelação das dez classificadas.

Chegou o primeiro dia. Anunciada a primeira classificada no "Concurso de Cantadas", já se percebia o sucesso da iniciativa. A semana passou. Oito classificadas já haviam sido proclamadas. Como as inscrições acorreram de todas as partes do Brasil, houve um acréscimo na lotação dos hotéis naquela semana, maior circulação de pessoas e incremento nas vendas do comércio local. Além disso, a audiência da Rádio foi alavancada a incríveis 80%, com share de 100% no horário noturno, quando eram declinadas as vencedoras.

Leandro já estava conformado com a possibilidade de não classificação. Faltavam apenas duas cantadas. As oito classificadas eram provenientes de outros estados. Ferruginha ainda não havia sido contemplada com a classificação de um de seus anônimos cidadãos. Até nisso, Leandro se sentia conformado. Mas, nada impediria o sucesso do evento. A cidade e a região viveram dias de intenso frenesi com o Concurso. Houve uma mobilização geral da população em torno do evento, cada qual procurando levar a sua vantagem pessoal.

Era um sábado. Leandro resolvera parar no self-service da esquina para um lanche rápido. Lá viu a linda loirinha que o encantara na última vez que ali estivera. E, após o lanche, foi tomado de uma surpresa indescritível quando ela, se aproximando dele, disse:

- A sobremesa é doce e saborosa. Dependendo, ela pode derreter por você, mas, seguramente, vai adoçar a sua vida...

Leandro escancarou um largo sorriso para a moça e o seu coração se encheu de um suave contentamento interior. As palavras da moça denunciavam que a sua cantada tinha surtido o efeito desejado. Ela lembrara da cantada, como também lembrara de sua pessoa. Isto mostra que não existe cantada independente de quem a faça. Cantada nenhuma caminha sozinha; precisa de um enunciante. Cantada boa é aquela que sai da boca de um bom rapaz. Cantada que funciona é aquela cujo enunciador possui elegância, esbanja charme, exerce atrativos vários sobre a pessoa alvo de sua veneração.

O ego de Leandro inflou-se naquele momento. Não só a sua cantada funcionara, como ele exercera certa atração sobre a moça que tomara a iniciativa por si mesma de abordá-lo e insinuar-se. Após sorrir amistosamente e voltar-se para a jovem de forma acolhedora, Leandro iluminou-se e tomou coragem para dizer-lhe:

- Acho que conheço estas palavras tão lindas que acabei de ouvi-la pronunciar...

- Sim. Elas deixaram marcas em mim e me fizeram sempre lembrar de você e ansiar reencontrá-lo.

- Fico lisonjeado. Prazer em conhecê-la. Meu nome é Leandro.

- Prazer meu. Sou a Soraya.

- Estou entendendo que você me dá a chance de um encontro, é isso?

- Mas é claro, bobinho. É o que mais quero!

- Você está acompanhando o "Concurso de Cantadas" da Sucesso AM?

- Sim. Está muito legal.

- Sabia que inscrevi esta cantada neste Concurso?

- Sério?

- Sim. Fiz um teste com ela e pensei que não funcionaria. Já até estava resignado com o fracasso, mas, agora, você me dá esperanças...

Leandro aguardou Soraya deixar seu expediente de trabalho e saiu com ela para um passeio. No caminho ouviram a proclamação da nona classificada no Concurso. Estavam felizes. Especialmente Leandro que percebia estar acontecendo uma reviravolta em sua vida. A reviravolta da esperança. A reviravolta da alegria. Um coração alegre faz com que o rosto fique mais bonito. Leandro estava assim. Evidenciando uma alegria e uma paz contagiante.

Depois de todos estes últimos acontecimentos, Leandro foi para casa descansar; e dormiu um sono leve, despreocupado. Descansou serenamente, como de há muito não acontecia. Seu espírito estava apaziguado. Não havia inquietações desnecessárias. Nenhuma sombra de angústia a lhe atormentar. Nada de ansiedade pelo dia de amanhã. O encontro com Soraya, desanuviara todas as inquietações do coração de Leandro. Ainda desempregado, mas com um outro ânimo. O rapaz estava tomado de uma leveza sustentável. Seu ser estava sustentado, agora, pela leveza do encontro com a alegria, com a paz de espírito e com o amor que a descoberta de Soraya lhe proporcionara.

Dia seguinte, um domingo! Leandro acordou leve e caminhou assobiando para o banheiro, com o propósito de tomar uma ducha fria. Estava em paz. Sentia-se encorajado para prosseguir em suas lutas e essa força interior foi provocada pelo encontro com aquela jovem. As conversas do dia anterior com a moça foram muito interessantes. O rapaz percebera que havia afinidades entre eles e que seus mundos se cruzavam. Leandro estava nas nuvens. Nunca uma garota havia mexido com suas emoções como Soraya o fizera. Em tão pouco tempo a jovem lhe abrira perspectivas sonhadoras que ele nem sequer imaginava.

A vida de Leandro naquele domingo de renovação deu uma guinada repentina que o enchia de esperanças. De um desempregado macambúzio e sorumbático, Leandro se fizera um esperançoso feliz e encorajado. Gastou a manhã de domingo respondendo a alguns e-mails que recebera. Três deles eram chamadas de empresas de São Paulo e do Rio de Janeiro, convidando-o a comparecer. Leandro ficou em estado de graça. Os currículos que encaminhara estavam dando o retorno esperado. O rapaz confirmou comparecimento nos dias aprazados. Para seu gáudio as datas não eram conflitantes.

À tarde, encontrou-se com Soraya e levou-a à casa de seus familiares. Estava feliz e esta sua felicidade o levava a compartilhar com os entes queridos a sua razão de ser. Soraya conquistara-lhe o coração e a alma. O moço estava vivendo um êxtase afetivo-emocional. Fora amor à primeira vista e o jeito e graciosidade de Soraya lhe cativaram sobremaneira. Seus parentes gostaram da moça. Ele também foi conhecer os pais dela. Houve uma identificação gratuita entre eles. Embora um pouco tímido, Leandro era espirituoso e sabia ser agradável diante das pessoas. Os pais de Soraya logo se identificaram com ele. Sua simplicidade e veracidade passaram informações positivas que cativaram os pais dela.

Quando estavam para sair, Dona Jurema, a mãe de Soraya, lhes abordou dizendo:

- Olha, aguardo vocês mais tarde para um lanche.

Leandro olhou para Soraya e confirmaram com esta troca de olhares a intenção positiva de retornar para o lanche.

- Ok. - Respondeu Leandro. - Pode aguardar a gente!

Dona Jurema queria agradar o futuro genro. Preparar uma rodada de pizzas era o mínimo que ela imaginou que poderia fazer para também recepcionar com carinho a chegada do moço à sua família. O casal saiu para namorar. Passaram o restante de tarde na praça central da cidade, namorando. Vê-los ali, naquele momento tão sublime e romântico, era perceber que enquanto houvesse amor haveria esperança para este mundo.

Quando o marcador do relógio ultrapassou às 20 horas, entenderam que estava na hora de voltar para casa. Caminharam apressados pelo calçadão da avenida, a tempo de ouvirem na pastelaria chinesa da esquina, o rádio anunciar a última classificada do Concurso de Cantadas. Estavam tão absortos com a descoberta um do outro que até se esqueceram de que naquele dia seria proclamada a última classificada. O coração de Leandro quase parou quando ouviu o locutor Jean LucBoy anunciar:

- E como última classificada, representando com qualidade nosso município, a cantada de Leandro Correia das Flores:

"A comida estava muito boa.
Tem sobremesa de noite?"

Pego assim de surpresa, Leandro não sabia o que fazer de tanta euforia. Havia ali muitas pessoas que o conheciam e todos pararam para cumprimentá-lo. Após uns vinte minutos falando com as pessoas sobre esta sua vitória, e já cansado daquele assédio repentino, Leandro segurou firmemente a mão de Soraya e propôs a ela saírem correndo para retornar à sua casa. Não encontrou outro jeito de escapar e assim pode chegar, mesmo que exausto, à casa da moça.

Lá não foi diferente. A vizinhança já havia tomado conhecimento da classificação da cantada de Leandro. Até sua irmã e a colega Bia, ficaram sabendo e acorreram à casa de Soraya. A mãe da moça já estava angustiada, pois as pizzas estavam há muito tempo prontas para irem ao forno.

Leandro estava em estado de graça. Leve como uma pluma. Feliz como pinto no lixo. Saboreava divertidamente a classificação de sua cantada entre as dez primeiras de mais de quinze mil inscrições de todo o Brasil. Ele, que estava desesperançado da vida, agora via as coisas mudarem de rumo de uma forma inesperada.

A festa na casa da futura sogra foi uma bagunça. Todos se divertiam euforicamente, comemorando o feito de Leandro que via seu destino começar a mudar em tão pouco espaço de tempo. Agora, era esperar o fim de semana seguinte. Dali a sete dias, seria conhecido o grande vencedor, que faria jus aos prêmios para os quais Leandro e os outros nove estavam de olho grande.

Chegou o momento da grande final! O Centro de Artes da cidade foi palco de uma efervescente programação que atraiu gente de todo o país. Na plataforma da festa, num canto reservado e devidamente ornamentado, os dez finalistas se perfilavam sorridentes no aguardo do julgamento que seria feito por um competente corpo de jurados escolhidos a dedo entre os representantes da cultura, das artes e do show business da cidade.

A festa contou com a concorrência de cantores de nível como Leonardo e Vanessa Camargo. Nunca a pequena Ferruginha viu tanta movimentação como naquele fim de semana. Quando foi anunciado o grande vencedor, Leandro não se conteve. As lágrimas rolaram soltas de seus olhos e o jovem foi ovacionado delirantemente pela platéia que se acotovelava no teatro, torcendo pelo seu representante. A irmã de Leandro estava boquiaberta. Sua amiga idem. Nunca poderiam imaginar que a aventura começada naquele dia desastrado, de frustração e desespero, teria um final tão feliz.

Todos queriam entender como Leandro conseguira tal feito. Sua irmã e a amiga descrente, principalmente. Leandro ficou sabendo dos detalhes de bastidores e passados os momentos da euforia pôde relatar os acontecimentos para elas:

- Os organizadores não queriam que a finalíssima ficasse sem um representante da cidade. Dentre os inscritos, a cantada que mais tinha chances de fazer bonito era a minha. Daí eles me selecionaram.

- Sim, mas daí você ser o vencedor há uma grande distância...

- Pois é! A intenção deles era ter um representante, só que, como vocês viram, cada cantada deveria ser defendida pelo seu autor. Aí foi a minha vez de dar conta do recado e eu não preciso falar mais nada porque vocês estavam lá e presenciaram tudo...

Sim, elas e boa parcela da juventude de Ferruginha viram. Leandro não era um bom escritor. Muito menos um inventor de cantadas mirabolantes, irresistíveis, ou coisas do gênero. Isto estava mais do que provado. Mas, Leandro era um cara simpático, bonachão, de bom convívio, agradável à vista e de fácil lidar. Não era difícil se achegar a ele e logo conquistar sua amizade, pois ele possuía um carisma próprio que emanava de si naturalmente.

Ficou provado também, que cantada que funciona não é aquela bem urdida, bem tramada, bem elaborada. Quando muito, alcançará um “oooohhh” de satisfação por parte de quem lhe seja alvo. Cantada que funciona é aquela que tem emissor forte, pleno, cujo poder reside na capacidade de sedução, de embriaguez com o tom de voz, os gestos estudados, o olhar fatal, os lábios bem articulados, os ombros empertigados, o jeito irresistível que Leandro possuía. E quando foi defender sua cantada perante a platéia que lotava o teatro e ante a banca de jurados que aguardava seu desempenho, ele soube segurar a peteca e fazê-lo com maestria.

Foi aplaudido de pé pelos presentes, coisa que os velhinhos inscritos com as outras cantadas não conseguiram. Além do mais, num insight do momento, Leandro chamou ao palanque sua namorada que ali estava, e fez uma dobradinha com ela na defesa de sua cantada, apresentando para todos, o resultado de seu poder de sedução. Diante dos fatos não há argumentos. A não ser os que corroboram os próprios fatos. E Leandro sagrou-se o grande vencedor com aclamação popular.

O final da história vocês já sabem. Nada de vender o bilhete do acompanhante. Leandro marcou casamento com Soraya para o fim de semana seguinte e, aproveitando as benesses do seu grande feito viajou em lua de mel com a esposa para Nova Iorque, disposto a, quando retornasse, desembarcar com a cara e a coragem em São Paulo para o novo emprego que conseguira.

Conta-se, em terras paulistanas, que Leandro e Soraya estão vivendo muito bem, com um bom emprego, mas que, nos fins de semana, não deixam de assistir a programas de auditório de Sílvio Santos, ao vivo, pois ele pretende encontrar o todo-poderoso dono do SBT para passar-lhe uma cantada e conseguir um programa de auditório dominical em que irá ensinar: “A Arte de Dar Cantadas e Ser Feliz!”
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 04/08/2006
Código do texto: T208972
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Sobre o autor
Alex Guima
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Alex Guima