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MINUTO DE SILÊNCIO

Quando Marco Aurélio entrou no velho templo não imaginava a surpresa que o esperava. Em vez de um rito religioso, um rito fúnebre. Sim. Um respeitado homem da comunidade havia falecido na semana anterior e agora, após o reencontro de todos no ambiente do templo, o líder religioso propunha à comunidade presente fazer-se um minuto de silêncio em memória do morto.

Marco Aurélio era leigo nestas homenagens. Sabia ele o que significava “fazer um minuto de silêncio em memória de alguém?” Mas, como diz o ditado, quem estava na chuva era para se molhar. Não fora ele mesmo quem entrara ali livremente? Não fora ele quem desejara, por conta própria, estar no templo para orações? Que agüentasse agora as conseqüências de ter escolhido o dia errado, a hora errada, o local errado...

Tão logo o líder solicitou o tal minuto de silêncio, ele pronto obedeceu procurando observar o comportamento dos demais fiéis para não cometer nenhuma gafe. A sua total inexperiência para o ato e a sua expressa inadequação para a cerimônia o fez passar pelos mais longos sessenta segundos de sua vida. Passo agora a registrar o que foram esses segundos, procurando tentar ser fiel à desastrosa experiência de Marco Aurélio na homenagem a um morto que sequer ele conhecera quando em vida.

Os primeiros cinco segundos gastou tentando adivinhar se era para ficar de olhos fechados ou não. Olhou para um lado; para o outro. Viu gente silente. Gente de olhos fechados. Gente consultando o relógio de pulso. Criança tirando meleca do nariz e escondendo o resultado debaixo do banco da igreja. Gente cabisbaixa. Gente contrita e gente sorridente. Ficara em dúvida e desconfiara que não era só ele que não entendia o valor de tal homenagem póstuma. Pensou consigo mesmo: “ainda bem que o morto não está vendo isso!”

Os dez segundos seguintes investiu na tentativa de tentar compreender para que servia, e o que se faz, quando se está homenageando um morto com um minuto de silêncio. Pensou, queimou pestanas, coçou o couro cabeludo que cismava em querer ganhar seu lugar ao sol, embora o ambiente estivesse intensamente sombrio, mas não conseguiu chegar à conclusão alguma. Nem o público presente naquele instante o ajudava a desvendar este mistério.

Os próximos quinze segundos se constituíram em uma tortura intensa para Marco Aurélio. Supôs que deveria, quando se faz silêncio em homenagem a um morto, fazer algumas preces. Mas, como assim? Deveria fazer silêncio ou fazer preces? O minuto era de silêncio, mas o que significa silenciar-se por alguém? Não seria mais útil se fazer preces? Mas, se o tal minuto de silêncio destinava-se a fazer preces, para quem eram estas preces? Ou melhor, por quem, já que todas as preces deveriam ser para Deus como aprendera desde a sua infância. E aqui estava a dúvida que motivava a sua tortura momentânea. As preces eram em favor do morto? Mas ele já não estava morto? De que adiantariam tais preces? Será que ele poderia voltar a viver? Marco Aurélio estava confuso. Desde Lázaro e do próprio Cristo, ele não sabia de notícia alguma de que algum morto tivesse revivido. E se as preces não eram para o morto, mas para os vivos? Quais? O templo estava superlotado. Muitos familiares, amigos, e fiéis acotovelavam-se no templo. Deveria ele escolher a alguém por quem fazer suas orações? A dúvida o atormentava e por conta dela passaram-se não só estes quinze segundos, mas, também, outros dez que não deveriam, originalmente, ser contabilizados nesta sigla.

Marco Aurélio fez outra tentativa. Conseguir fazer orações e preces não alcançaria. Até porque suas emoções estavam muito conturbadas e faltava o mínimo de concentração necessária para se balbuciar quaisquer palavras que fossem para o Criador. Optou em fazer a tentativa de ouvir o silêncio. Sim, se o minuto era de silêncio que ele se calasse externa e internamente, na busca de ouvir o silêncio. O silêncio deveria ser mais forte nele naquele momento do que qualquer outra iniciativa. Mas, sua geração era do barulho! A poluição sonora marcara a existência de todos os seus contemporâneos. Como ouviria ele o silêncio? Não fora educado para isso!

Estava a ponto de desistir, quando conseguiu engatilhar uma concentração mínima e perceber que o silêncio possui seus barulhos próprios. Não existe silêncio absoluto. No silêncio ouvia as vozes das batidas do seu coração descompassado e também as dos circundantes; as pulsações; as respirações; os soluços; as tosses; os espirros; os zumbidos das moscas. E nesta vã tentativa de buscar o silêncio a todo custo, gastou mais dez preciosos segundos, e via expirar o prazo para prestar uma homenagem a um morto que ele desconhecia, mas que lhe parecia cobrar sua parcela de reconhecimento. Marco Aurélio quedava-se atormentado, ladeado por outros seres desconcertados...

Deixe estar que mais duas questões atropelavam os interesses do moço naquela tarde malsã. A primeira, era uma questão técnica: “Havia alguém cronometrando o tempo?” Marco Aurélio estava a se perguntar uma coisa louca: “Quantos segundos ou minutos tem um minuto de silêncio?” Já havia assistido a partidas de futebol pela televisão em que tais homenagens não duravam 45 segundos e até duravam mais, um minuto e meio, a depender do homenageado e se o mesmo tivesse sido significativo na vida do árbitro da partida. Ou seja, ele acabara de descobrir que um minuto de silêncio poderia não ser real. Dependia do estado emocional, da contrição, das situações do momento que poderiam proporcionar ou não a efetiva ambientação para prolongamento ou encurtamento da homenagem.

A segunda era pragmática. Do lado de Marco Aurélio havia um impiedoso moleque, menino de seus sete para oito anos que azucrinava a sua mãe com traquinagens infantis, incomodando a todos e atormentando a vida da mãe que lhe passava boas refregas. Mas as repreensões da bondosa senhora não surtiam efeito algum. Desde quando entrara no templo, o moço – e fora exatamente no momento em que o líder religioso anunciava o tal minuto de silêncio – debatia-se na luta inglória de prestar atenção num silêncio que não vinha nunca e esquecer a existência de tal menino travesso a seu lado.

Agora, quando estava para se encerrar o tempo regulamentar do minuto de silêncio, Marco Aurélio se deixava dominar por um sentimento de culpa atroz, visto que o tempo passara, estava por esgotar-se, e ele ainda não conseguira homenagear morto algum. Parecia que de onde estava o morto olhava para ele e lhe perguntava: “E aí?! Dá pra ser?!” Foi por isso que ele preferira ficar a maior parte do tempo de olhos fechados, pois, era só abri-los e descobrir olhos enormes na abóbada da Igreja, na sacristia, entre os bancos, pelos circundantes; acompanhando-o, mirando-o repressoramente, cobrando dele uma homenagem que ele não sabia nem conseguia prestar. E foi com esta angústia final que se passaram mais nove segundos de seu pretendido minuto de silêncio.

Cinqüenta e nove segundos cravados. Estava para se esgotar o tempo. Marco Aurélio agora suava em bicas. Embora o tempo estivesse fresco, a sudorese tomava conta de seu corpo expansivo, dando um jeito de incomodá-lo ainda mais, acrescentando angústia a angústia; aflição a aflição; tormento a tormento. E ele ali, em pé, pois o tal minuto de silêncio deveria ser vivenciado com toda a congregação em pé, reverenciando, silenciando-se, atormentando-se sem descobrir qualquer utilidade para tão prolongado minuto da sua vida.

Até que um fato novo ocorreu neste segundo final. Este tempo restante foi o momento mais silencioso de toda a homenagem. Talvez por todos já terem controlado suas angústias interiores, os barulhos infernais que a insegurança provoca, as inquietações desestabilizantes provocadoras de desordens, o fato é que a passagem do tempo serviu de ensino para aquela gente toda no aprendizado do controle das suas emoções, e tal qual um aparelho de som de última geração, na busca da sintonia fina que pudesse irmanar todos os presentes, houve um silêncio real. Foi exatamente nesta hora em que o silêncio era quase que total, para usar uma linguagem mais própria, um silêncio sepulcral, que este fato novo, hilário, veio a acontecer. O peralta moleque que atazavana a vida da mãe, arremeteu, apontando para uma velhinha do banco da frente, a seguinte lustrosa observação:

- Ih, ela peidou!

E falando ainda mais alto e de forma descontrolada:

- Ela peidou! A velhinha peidou! A velhinha peidou!

A observação jocoza do moleque ecoou pela catedral silente e o menino ria de se escangalhar enquanto sua mãe tentava desesperadamente tapar-lhe a boca, mas ele se desvencilhava com esperteza.

E parecia que o silêncio se multiplicara naqueles momentos anteriores, de modo que o silêncio do ambiente fez suas observações risíveis reverberaram pelo entorno do salão e o inusitado ocorreu. Foi uma risalhada geral, um gargalhar destrambelhado, em que todos prorromperam em risos gostosos e soltos, quebrando a solenidade e encerrando o silêncio e a homenagem de uma forma totalmente inesperada.

O padre ficou atônito, boquiaberto, sem ter como reagir, mas ao que parece, finalmente, a tal pretendida homenagem para o morto aconteceu, porque lá do outro lado, onde ele estava, Seu Ângelo Arminiano, o tal morto, mais conhecido como Benfeitor, sorriu timidamente, bateu umas palmas e demonstrou estar satisfeito com a homenagem. Desde então, descobriu-se que o riso, quando não se tem palavras, é mais gratificante que o silêncio...
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 07/08/2006
Reeditado em 08/08/2006
Código do texto: T210907
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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