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Festa do Padroeiro

Antes que o mal aconteça, eu vou pra casa.

 Montou no cavalo e o deixou ir. Ele sabia o caminho. Queria se desfazer, corpo, alma, pensamento, separar os seus muitos fragmentos de existência, se espalhar no espaço. Achou que podia dormir em cima do cavalo e deixou o corpo cair para frente, abraçando-se ao pescoço musculoso.

 De olhos fechados, sentiu o perfume misturando suor, capim mascado, cheiro de mato; cutucou com os dedos uns inchaços que só podiam ser carrapatos. Pobre animal: tinha que cuidar melhor, arrancar dali os sanguessugas miseráveis, aproveitadores das vidas dos outros. Tinha também que se cuidar melhor, fazer a barba, tomar banho, trocar de roupa, sempre, não apenas para a procissão de São Jorge.

“Cuidado com a ponte”, alertavam, sempre cai um peão bêbado da ponte, cai com cavalo e tudo, sempre tem um morto após a festa, peão bebo e cavalo inocente que confiou nos comandos do desorientado que estava no seu lombo, cavalo maria-vai-com-as-outras, que não sabe o que está fazendo, mas que não merece morrer. Um tombo e tanto, vinte metros até o Rio Paraíba, e depois, pedras para se bater com a cabeça, água, água para cacete, água suja e barrenta, água com lixo e esgoto, cheia dos côcos que você mesmo cagou ontem.

O cavalo sabia o caminho, deixa ele ir, balançando, o estômago é um mar revolto. Vomitou no pescoço do bicho, tem que cuidar, tem que limpar, o cheiro de mato do pelo se misturou com o azedo ruim de seus sucos.Tomara que possa achar o caminho, o cavalo sabe o caminho, ele sabe. Uma fome ardida no estômago, vomitou de novo, manchando o pescoço do cavalo dos dois lados, o bicho imperturbado, moveu de leve as orelhas, animal que agüenta chuva pesada nas costas sem se mover, como se nada estivesse acontecendo.

O cavalo sabe o caminho, se move no escuro, não tem farol, nem lanterna para iluminar as pedras e buracos. Mas ele sabe. Não era seu o cavalo, era de Eusébio, mas ele sabe.
Azar dos dois; mas não era seu cavalo, era o cavalo de Eusébio; pedira emprestado para impressionar, na grande cavalgada da festa de São Jorge. Maria, o seu amor distante, com o cavalo sim, achava-se capaz. Desfilaria garboso, depois iria atrás dela na praça, apearia e a convidaria para dançar, tomando a sua mão num cumprimento. Antevia a sensação gostosa da carne fresca e macia da pequenina mão em contato com a pele dura da sua palma de mão-macha, lanhada pelo couro cru da rédea. Estava arrumado e perfumado, vestido de cavaleiro, numa tarde gloriosa de preparativos, cavalhada, muitas almas prontas para marchar em honra de São Jorge, o padroeiro do lugar, de Juparanã, também para fazer figura, para fingir que estavam matando dragões, ou de partida para as cruzadas, “que ninguém podia com nós”, e na hora do sol poente invadir a cidade, o tropel dos cascos nas pedras, numa massa de carne vivente que se desloca, muitas bandeiras, lanças e pavilhões, muitos fogos de assustar cachorros, porque os bravos não se assustam com estouros vãos. Os cavalos são unos na cavalgada, avançam como se fossem um mar de pescoços, de ancas, de rabos que vai derramar a sua onda na praça, em frente da igreja, com o povo aplaudindo, mais uma vez cumprida a sina, porque fazemos nossa parte, assim como faz a Sua o Senhor.

Mas não era seu o cavalo, era de Eusébio. Pedira emprestado, um bicho tordilho enorme, que o transformava quase que em um menino, pela desproporção de tamanho, os pés metidos no estribo alto, pequeno homúnculo sobre a montanha de carne forrada no pelo gris encardido de poeira. E quem disse que era marchador? Trotador sem-vergonha, metia a pata com força nas pedras da rua, arrancando faíscas que não se via durante o dia, a ferradura batendo chapada e jogava o seu traseiro para cima, como sacola de carnes sangrentas e doídas.

 Não é assim, grita Eusébio, tens que pular junto com ele, não deixa ele te jogar para cima! Firmou-se nos estribos para se antecipar aos trancos. Logo estaria com as pernas doendo de tanto exercício, maldição, cavalo não é poltrona pra gente se refestelar e ver televisão, relaxado. Cavalo é cavalo de pau, duro, pé duro, ficar quase de pé apoiado nos estribos, pulando junto com ele, os músculos retesados o tempo todo sem descanso, até que as coxas estejam esfoladas por dentro, sem tempo de caçar os pequeninos pontos de micuins que migraram para pegar o sangue humano bom.

Apeou, amarrou o cavalo e foi para a praça procurar Maria.
E agora o cavalinho, com o seu porte bom, ia ficar amarrado no poste, junto com muitos outros, esperando o fim da festa, capim nenhum, milho nenhum, açúcar nenhum, carrapatos lhes sugando o sangue. Curvou-se todo para coçar a barriga, esbarrou no companheiro, e a fila inteira se agitou, olhares aparvalhados de cavalo, e a égua do Eusébio que também estava ali, encarou o tordilho com os olhos úmidos de amor e o tranqüilizou.

Correu as barracas de churrasco, espetinhos de bambu assando sobre o braseiro, cheiro bom de coisa comunal. Viu Maria encostada em um balcão, conversando com as amigas. Aproximou-se, e sem coragem para falar, ficou do seu lado, olhando a penugem dourada do seu braço, os cabelos amarrados em coque, a orelha bem feita. A música estava tocando, mas ninguém se animava a dançar. As amigas arrulhavam como pombas catando milho. Falavam mal de todos eles, falsos peões de vacaria inexistente, falsos cavaleiros de São Jorge enfrentando falsos dragões, falavam mal do lugar, vilazinha entediante de longas tardes de domingo modorrentas, a enorme praça vazia, os cães sonolentos levantavam só para se coçar, falavam mal da festa, sonhavam com uma praça em Paris, ou Nova Iorque, a enorme árvore de natal se acendendo, um frio de cortar as carnes, e casacos luxuosos de peles sintéticas fabricados em Taiwan.

- Vamos dançar?

Silêncio no meio do barulho. As amigas estacaram, com a boca abeta da surpresa amarrada na garganta. Respeitoso e silencioso, como se a reverenciasse, tomou a sua mão e a conduziu para um quadrilátero cimentado onde dois casais dançavam. O contato da mãozinha, quente e bom como imaginara, o antevisto prazer sonolento de seu perfume e do calor irradiado de seu corpo. Era assim que o amor acontecia?

Pé duro de cavaleiro misterioso, não falou uma única palavra, concentrado com a responsabilidade de dançar; com a tão sonhada, a tão querida; sentia os joelhos duros, o roçar dos panos nas carnes esfoladas do atrito com o cavalo, mas era como se nem sentisse, compenetrado no importante momento, no estar acontecendo, no viver como se não estivesse nem vendo. Pé duro, corpo duro, não saiam palavras, falar pra quê quando o amor fala mais alto? Ela sabia, ela entenderia.

As amigas riam quando os olhares se encontravam em cada rodada da dança; tropeções e pisões, desencontros e esbarrões. Roçava sem querer em seu biquinho de peito e quase pedia desculpas, não era a sua intenção.
 
Quanto tempo agüentaria? – pensou a moça. Dançar por educação? Fez de conta que estava em Nova Iorque, a praça e a enorme árvore de natal iluminada, carnaval fora de hora, carnaval no gelo, ali, sim, estava preparada para tudo, não tinha medo de lavar pratos ou banheiros, de fazer faxina ou ser garçonete, se soubesse que poderia, depois ter aulas no Actor’s Studio, revelar-se, explodir rumo ao futuro. Agora, dançando com um peão que não era peão, continha-se. É preciso ter educação.

Pediu licença, estava cansada, e, também sem uma única palavra saiu do quadrilátero cimentado. Chega, vamos embora ver televisão, depois voltamos quando esses chatos tiverem ido embora.

Isto é o que se pode fazer, sair sem esparramo entre os casais bailando, andar de costas para não esbarrar, virar o corpo, como numa luta de boxe, esquivar-se, ir para o canto, clinchar. Não haverá nada nessa noite, nada que possa lembrar com orgulho.

 Iria, como tantos outros em busca de emoções. Primeiro, e muito rapidamente, tomar dois dedos de pinga na barraca dos Gomes, o que esteve evitando a tarde toda para não ficar com o bafo de boca na hora de falar com a moça.

 Agora podia, dois dedos e muito mais, uma mão inteira, uma braçada, uma vara, muitas onças e pintas, e hectos, e gigas e megas. De início, dois dedos, para arder na barriga e aquecer os peitos, doidinha a cachacinha de terreiro, com travo de fedegoso, espírito saltitante das matas, que dá uns pulinhos e depois abre a tampa do gênio ruim que mora dentro do corpo de macho rejeitado, espírito pesado que puxa pra baixo, e emperra a língua e escolhe as melhores palavras para ofender o mundo; cheiro de demônio que todos sentem menos você. Depois, olhar novamente a pista de dança, qualquer uma serve, qualquer moça, alta baixa, magra, gorda, com dentes ou desdentada.Bebeu com vagar, experimentado, capim-limão, melissa, um pouco de pimenta do reino, para esquentar ainda mais. Comeu duas rodelas de linguiça de porco.

Agora sim, bem mais à vontade, catou a moça para dançar, a primeira que estava livre no caminho. Foi até a quadra, puxando a moça pela mão e encaixou-se entre os casais; ficou se movimentando, nem ritmo, nem passos, nem nada, que ninguém estava policiando a dança. Quando a música parou, voltou à barraca e bebeu mais uma. Ofereceu para a moça, dois dedinhos, para começar:
- Beba que é bom, viu, gostou?
- Nossa, esquenta demais!

Pediu cerveja gelada, para refrescar. Bafo, nem se preocupar, agora estavam empatados, ele e a moça, os dois com o bafo que ninguém mais sente, iguais, no bafo e nas intenções, dançar, só dançar e não se preocupar com o amanhã.
- Viu mulher chique, perfumada de lavanda, vestido branco rodado, de gaze ou organdi, gosto é de mulher que enfrenta os perigos, assim como você.

A pobrezinha sorriu, faltando um dente da frente, devia ter fugido correndo dali, do lado do brutamontes, que nem vaqueiro era, fantasiado de peão, o cavalão esperando amarrado no poste.

- Meu cavalo está bem ali, vou te levar comigo para dar umas voltas!
-Quero não, seu, prefiro ficar dançando.
-Dançar é só a introdução, é só para nos conhecermos, para saber se nos damos bem, então, já sabemos, nos damos bem, nos gostamos, não precisamos mais de dançar, vamos dar uma volta por aí.

 A moça não sorriu mais, fechou a cara. Puxou-a novamente para a pista, dançou mais um pouco, acompanhando a música com os olhos fechados, via Maria, sozinha, no quadrilátero, rodopiando uma valsa, com o seu vestido enfunado, aberto como um balão que a levava às alturas. A moça fechou também os olhos, via um cavalo grande, com ela na sela, ele a pé, puxando as rédeas, num campo florido com uma casinha ao fundo. Depois, dentro da casa escura, em cima da cama, com ele bufando em seu pescoço. Mais um intervalo e mais uma cachaça.

Cuidado com a ponte. Sempre cai um cavaleiro, de noite, todos os anos, depois da festa, um bêbado cai com cavalo e tudo. É a ponte rodo-ferroviária, a pista cabe um só carro, do lado a linha do trem, que quando passa faz um barulho dos diabos. É uma ponte de quase trezentos metros; topar com um carro no sentido oposto é a pior coisa que pode existir. Alguém tem que dar marcha à ré, porque não passam dois carros. É uma ponte em curva, não dá para ver o outro lado. Começar a travessia é jogar com a sorte. Tem que buzinar e piscar os faróis para avisar o outro lado, alguém tem que esperar a pista ficar livre. E cavalo não tem faróis; muito menos buzina. Tem só o tropel dos cascos no asfalto. E faíscas que aparecem de noite.

Então larga a menina, a Dorinha, que se embebedou e está dormindo no banco da praça.Cutucou com a ponta dos dedos, ela mostrou a falha nos dentes da frente.
- Bebe mais uma Dorinha, a saideira;
- Quero não, seo, estou zonza demais - via o campo florido, a casinha ao fundo, o cavalo a carregando, vestida de vestido comprido branco de casamento.
- Larga, gritou Euzébio, deixa ela aí mesmo pros urubus.Vamos pra casa de dona Neném, que a festa é lá.
- E o caminho, qual o caminho?
Eusébio riu.
- O cavalo sabe o caminho, está cansado de ir.

Um grupo da mais de quinze, à cavalo, partiu e se embrenhou na noite. O tropel desfez-se rapidamente; nem deu tempo de correr, montar no cavalo para acompanhar. Quando viu, estava trotando no meio do escuro, sem mesmo divisar as próprias mãos. Não via o cavalo; o sentia debaixo de si; o cavalo sabe o caminho? Bebia de uma garrafa de pinga, um gole a cada três passadas. As feridas esfoladas de suas coxas voltaram a arder e a noite era sem fim. Passou um carro, jogando um facho forte de luz; deitou-se no pescoço do cavalo; vomitou uma, duas vezes.

Quando chegou na ponte, estava abraçado ao pescoço do cavalo, achando que poderia dormir porque o cavalo sabia o caminho. E o cavalo não sabia de nada. Mas parou na boca da ponte, desconfiado. Levantou a cabeça para ver onde estava, já chegamos?  Reconheceu a ponte e lembrou dos avisos. Umas luzes brilhavam na água que adivinhava lá embaixo, deslizando de encontro às pedras, seria fundo?

O cavalo parou, não entrou na ponte. Levantou a cabeça para ver a pista molhada, rebrilhando as luzes de um poste do outro lado. Então, o cavalo sabe o caminho? Não é pela ponte? Olhou em torno e não enxergou trilha, portão, cancela, lugar nenhum que pudesse ir. Agora voltar e indagar o caminho da casa de dona Neném. Mas para trás a escuridão era, também, absoluta. Sentiu a cabeça tonta de olhar pra trás. Depois, chegar lá com o cavalo todo vomitado, vergonha e gozação garantida para o resto de sua vida, história contada todos os anos na festa, lembra dele, bêbado, procurando a casa das putas, com o cavalo vomitado? Isso é que é ejaculação precoce!

Vamos, cavalinho, vamos direto pra casa, antes que algo de mal aconteça. Entraram na ponte, a passo lento, ele voltou a deitar no cavalo. O barulho das patas do cavalo ecoava pelas beiradas da ponte; com a cabeça baixa, viu as faíscas que as ferraduras soltavam a cada passo.

De repente, uma luz forte bateu em seu rosto; um carro vinha no sentido oposto, vinha acelerado, desembestado, até topar com o cavalo a sua frente. Freou, com ruído, deslizando pela pista, não havia como para-lo, enquanto o cavalo empinou relinchando. O mal estava feito. Em fração de segundo, viu-se pulando com o cavalo a amurada da ponte, rasgando o espaço escuro, para mergulhar no rio fundo, os corpos inchados aparecendo na foz do rio, em Campos.

O carro parou atravessado, a pista bloqueada. Lá dentro um grupo animado ria de fazer gosto.
- Olha o peão burro, deve ter se borrado todo. Aqui não é estrada de cavalo, é de automóvel!

Desceu do cavalo, apalpou suas juntas, olhou com cuidado para ver se havia manchas de sangue ou ferimentos, aproveitando a luz do farol. Sentiu o coração  batendo rápido e forte, como se quisesse sair o peito. Segurou as rédeas e contornou, com cuidado, o automóvel, guiando o animal pelo espaço de pista apertado que sobrou. Viu-se andando a pé, de volta pra casa, atravessando os trezentos metros de ponte, puxando o cavalo pela rédea, ele não sabia o caminho, o ruído dos cascos lentos ecoando pela estrutura da ponte, até a cabeceira, onde o caminho era de terra e os passos se abafavam em farfalhos quase inaudíveis.

Sentia-se melhor após o susto, a adrenalina correndo nas veias como um poderoso antídoto para o álcool.
De um quadrado de luz, no meio do breu da noite, julgou ouvir a risada forte de Eusébio. Alguns passos naquela direção revelaram as ancas da sua égua cheirosa. Encostou o cavalo vomitado junto dela, o branco do seu olho rebrilhando no escuro, fica aí, cavalinho burro, junto da tua amiguinha, nenhum torrão de açúcar, nenhum capim, as grandes barrigas arqueadas tangenciaram, se roçando em aconchego. E depois, a lua tirando brilho daquele pelo, o sereno caindo sobre o suor. Festa de homem é assim mesmo, música, perfume, ar abafado e cheio de fumaça, mulheres sentadas em poltronas de braços puídos, um pano que algum dia já fora grená.
- Mas, moço você está branco como vela de defunto!
Tirou o chapéu e sua fantasia de caubói começou a se desfazer. Era um simples mané de rabo esfolado, desses que vomita em ônibus nas curvas da serra e no lombo de cavalo.
-  Chegou tarde, mané, onde é que estavas?
-Quase que fui eu, o peão que caiu no rio esse ano. Mais um pouquinho e era eu. Mais uns centímetros, mais uns milímetros e o carro me pegava, ali no raio da ponte estreita...O teu cavalo quase que pulou a amurada, quando viu que não tinha pra onde correr. Senti o ventinho frio que vinha do fundo do rio bem na minha cara.

Estavam rindo, estavam rindo pra caramba. As mulheres também, ainda que sem entender o motivo de tanta graça.
- Então, tu que ias ganhar o Oscar esse ano! Aí, garoto, passa uns tempos no Rio de Janeiro, e volta para morrer afogado!
- E daí, devia ter morrido.

 Devia ter pulado, um salto só e depois dormir tranqüilo. Era o carro de quem? Um fusca velho, com um farol apagado, cheio de meninas de família. Azul? Escuro, talvez azul.
- É o carro do velho Habib. O neto dele deve ter saído na moita, para se cartar com as meninas, um garoto magricela, com um buço fino.
- Ele mesmo. O próprio.

Lembrava do garoto ainda criança, jogando bola na rua, bem diferente de seu quase assassino: isso aqui é estrada para carro, falara com voz grossa.
- Melhor esquecer, Mane. Toma um copo de cerveja.

O amargor da boca, com o amargo da cerveja, com o amargo de amar, com o amargo de viver, e com um tira-gosto, como uma rodela de salaminho, que tem também um travo de amargo, acaba por descer rumo a um estômago ardido.

Melhor assim. O cavalinho estava lá fora, já molhado de sereno. Mas cavalo não sente frio. Fica parado debaixo de chuva, como se nada estivesse acontecendo. De raio tem medo. Mas chuva, não. Sua égua do coração do lado. Suas barrigas se tocavam, se esquentavam, e ela ficava se mexendo devagar, como se estivesse se relando. Vai ver, estava. Ou então, era um incômodo do couro da sela, ou do freio na boca. Ou estava se coçando. Imóvel, o cavalo oferecia a sua resistência passiva para a égua aproveitar. Coce à vontade, meu bem. Arrepiava com o quentinho bom que vinha dela.

Melhor assim, dormir com uma mulher que nem conheço. Depois, pago e vou embora, sem complicações ou choradeiras. Muito melhor, aquela moreninha está muito bom.
Então foram, um quarto sem janelas, nos fundos da casa, colcha de estampado azul. Despiram-se em silencio, de costas um para o outro, e se enfiaram sob os lençóis. Um quebra-luz pequeno na cabeceira da cama mal iluminava os rostos. Pela primeira vez se olharam.
 - Como é o seu nome?
-  Maria; e o seu?
- Zé Antônio. Prazer.
 Ficaram em silêncio, até que Zé Antônio disse: Boa noite, Maria. Alguns minutos depois, Maria segurou a sua mão, escutando-o ressoar, enquanto despedia-se em pensamento: boa-noite.

 E Eusébio, coitado, foi o vencedor daquela noite, o peão que caiu no rio. Saiu às três da manhã, montado na égua. Mal conseguia se suster. Chegou na ponte e deu de cara com o fusca azul que vinha voltando. A égua, esperta, fez meia volta e galopou para escapar do carro.
 E foi nessa virada rápida que o corpo pesado de Eusébio se desprendeu da sela e mergulhou vinte e tantos metros nas águas frias do Paraíba, mas morrer não morreu no primeiro momento, deu uma barrigada na água e encalhou numa prainha. Olhou para a ponte, sem entender em que estranho mundo penetrara; e a égua, num galope saltitante, soube encontrar, facilmente, o caminho de volta  ao calor da barriga arqueada do tordilho.
Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 07/08/2006
Reeditado em 26/05/2008
Código do texto: T211395

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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Jacques Levin