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A periquita da vizinha

Olá, não sei se alguém daqui me conhece. Aliás, acho até melhor nem conhecer, mesmo porque até agora não consigo deixar de pensar na periquita da vizinha, que conheci na noite da última sexta-feira.
Pois é, depois de sair do trabalho, acabei indo dar uma voltas pela Cinelândia, sentei na mesa do Amarelinho, onde encontrei dois amigos bebericando alguns chopes. Sabe, não sou de beber muito, mas conversa vai, conversa vem, acabei exagerando um pouquinho. Pouquinho é modo de falar, pois acho até que passei da conta, pois avistei a Cremilda, a senhora sexagenária e nem um pouco atraente da minha seção de trabalho, e, confesso, confesso mesmo, fiquei de olhos gulosos em cima do seu corpinho de Sargento Garcia. Imagina, eu, que às vezes nem consigo mexer o ponteiro da balança, embrenhado no meio de tanta carne! Ali tem tanta carne que faz até gaúcho enjoar de churrasco! Pensando nisso, acho que vou virar vegetariano.
Mas por que estou falando da dona Cremilda, se o assunto é bem mais apetitoso? Puxa, resolvi desabafar com você, mas o meu desabafo é sobre a periquita da vizinha. Puxa, e que vizinha!!!
Lá pelas tantas, resolvi ir pra casa, ou melhor, meus amigos me colocaram dentro do ônibus, pois, segundo eles, eu poderia me arrepender das minhas investidas para cima da dona Cremilda. É nessas horas que a gente descobre os verdadeiros amigos. Já imaginou o bafafá na segunda-feira? "Ih, o Chiquinho se perdeu no meio da dona Cremilda!"
E lá fui atirado no 376, direto pra Pavuna. A minha primeira dificuldade foi tentar vencer os degraus. Puxa, me senti um alpinista escalando o Monte Everest! Mas consegui transpor os malditos degraus e, finalmente, me deparei com uma borboleta enorme à minha frente. Havia um cara sentado num banco alto, até achei que o cara estava flutuando, mas não, era o cobrador. E a tal borboleta gigante não era borboleta coisa alguma, mas a roleta do ônibus. Tentei achar o dinheiro da passagem, enfiei a mão em todos os bolsos, nem sabia que minhas calças havia tantos bolsos assim. Achei o dinheiro, passei-o para o cobrador, que ficou me olhando com cara de nem sei o quê. Então, ele me disse que eu podia passar, mas o difícil era isso mesmo. Eu mal conseguia ficar em pé, quanto mais passar por aquela maldita roleta. Mas o cobrador me deu uma mãozinha e, graças a ele, fui cambaleando até cair de joelhos no chão e com a cara no colo de ninguém mais, ninguém menos, do que da dona Cremilda.
_ Cê tá bem, Chiquinho?
Eu só olhei pra ela e nem sei se disse alguma coisa. Mas a dona Cremilda foi tão gentil, me deu a mão para me levantar e, então, me sentei ao seu lado.
A intervalos de não sei precisar, por causa dos solavancos do ônibus, dona Cremilda e eu éramos arremessados para o alto. Aliás, eu era arremessado, pois tirar a dona Cremilda é muito difícil. Como lhe disse, ela é um pouquinho gordinha. Tá, tá bom, estou sendo gentil com a dona Cremilda, pois ela é bem gorda, tamanho XG é pouco pra dona Cremilda.
Por essas coincidências do destino, a dona Cremilda mora na mesma rua que a minha. Sabe, é uma rua meio esburacada, mas cheia de gente de bem: tem o Armando do Pó, o Ratinho da Boca, o Genivaldo AR15... Ih, tem tanta gente que fico até com medo de deixar alguém de fora e, por isso mesmo, talvez possa achar ruim. Não moramos mais em favela, isso não existe mais aqui no Rio. Agora a gente mora na comunidade. Mas deixa isso pra lá, pois o que interessa mesmo é falar da periquita da vizinha.
Como estava falando, eu e a dona Cremilda moramos na mesma rua. Então, essa bondosa senhora sexagenária foi me carregando do ponto do ônibus até a minha casa. Ela até fez questão de preparar um café bem forte pra mim, depois quis me dar um banho gelado. Aliás, na minha casa só tem banho gelado, pois o chuveiro elétrico quebrou há dois meses. Então, a dona Cremilda foi tirando a minha roupa, tirando a minha roupa, tirando a minha roupa... Não vou fugir da verdade, não vou fingir que a dona Cremilda simplesmente me enfiou debaixo daquela água fria e me colocou pra dormir. Não isso não aconteceu mesmo!
Pois bem, a dona Cremilda tirou toda a minha roupa, inclusive a minha cueca de quase uma semana inteira, cheia de pingos de xixi, também outras manchas e, claro, a clássica marca de freada, fruto de um pastel que comi na terça-feira. Mas a dona Cremilda foi até bastante compreensiva, disse que iria lavar tudinho, que não era para eu me preocupar. Aliás, quem estava preocupado a essa altura era eu, que já estava com o mastro em posição de sentido. Dona Cremilda até fez um elogio sobre o meu "estado especial", disse que há muito tempo não via um homem nu e, pasmem, com a ferramenta pronta pra ser usada. Ela simplesmente foi me puxando pelo dito cujo até o chuveiro, que como lhe falei, só tem água fria, ou melhor, gelada. E como aqui no Rio tá fazendo um frio danado nesses dias, a água estava mais fria que situação de estuprador em presídio. Por causa disso, o "moleque" logo voltou à sua insignificância, todo encolhido, parecia até uma bolinha de gude numa luva de beisebol.
Depois do banho, dona Cremilda me levou pra cama, a minha cama, onde me enxugou com a própria língua. Ela parecia até um camelo bebendo água. E depois de tanta água, só mesmo uma boa privada pra descarregar tanto xixi. Pois foi isso mesmo que a dona Cremilda foi fazer. Do quarto dava pra ouvir a cachoeira que escorria do meio das pernas da dona Cremilda: Chuááááá!!!
Quando a dona Cremilda voltou ao quarto, eu estava olhando para o teto e jurando que nunca mais colocaria uma só gota de álcool na boca. Mas antes que eu pudesse me defender, a dona Cremilda apareceu com um copo d'água na mão. Eu perguntei se ela ainda estava com sede, mesmo depois de ter tomado toda a água do meu corpo. Aliás, pra que eu fui perguntar isso? Ela simplesmente meteu a mão na boca e retirou a sua dentadura e colocou no copo. Depois disse com os lábios trêmulos: "É que há muito tempo não brinco com um homem e, então, não quero machucar o seu "brinquedinho".
A Crê pode até não ser a mulher mais bonita da minha seção, mas com certeza é a com o maior poder de sucção que já senti.
Ah, já ia me esquecendo da periquita da vizinha. Você quer mesmo saber da periquita da vizinha? Olha, no dia seguinte, a Crê e eu acordamos e o copo estava no chão. A periquita da vizinha estava estirada ao lado do copo. Pois é, ela havia engolido alguns dentes da dentadura da Crê e, infelizmente, morreu. Coidadinha da periquita da vizinha, até hoje não consigo deixar de pensar nela.



 
Eduardo Martínez
Enviado por Eduardo Martínez em 10/08/2006
Código do texto: T213184
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Sobre o autor
Eduardo Martínez
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 49 anos
14 textos (1456 leituras)
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Eduardo Martínez