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Dona Vanilda namora na praia






Dona Vanilda namora na praia. A frase escrita a giz no casco de uma canoa emborcada, na areia, deixou o marido, o seu Viana, lívido e com o coração sobressaltado. Apagou, às pressas, os dizeres com as mãos, certificando-se de que as pessoas na praia não estivessem atentas à sua aflição. Porém, o mal estava feito; se alguém tivesse percebido, um só, adicionado ao ignóbil ser que escrevera, além dos amantes, Vanilda e um desconhecido, haveria um total de quatro pessoas que teriam conhecimento de sua vergonha. Isto é, cinco, contando com ele.

Podia ver a notícia se espalhando, até que não pudesse mais sair à rua. O seu rosto ardia de vergonha. Amaldiçoou o dia em que teve a idéia de alugar um apartamento na ilha do Governador, na praia da Guanabara, para o veraneio. Parecia  uma boa idéia; Vanilda poderia ficar à vontade, e se animar em pouco, tomando banho de mar sem grandes deslocamentos, do subúrbio onde moravam até as praias da moda, com o corpo cheio de areia e o sal doendo na pele. Ali era só descer um lance de escada, atravessar a rua e chegar à praia, enquanto ele iria trabalhar, todos os dias, retornando à noite, um percurso bem menor até o centro da cidade do que da sua casa em Realengo.

A ilha era, ainda, um lugar aprazível, como uma cidade do interior; poucos carros transitavam por ali; havia a ilha de Luz del Fuego, uma colônia de nudismo, que ficava a quinze minutos de lancha, e uma ilhota, bem em frente à praia, que conservava uma floresta tropical esplendorosa, onde o cineasta Humberto Mauro havia filmado “O Descobrimento do Brasil”. Ainda se podiam fisgar badejos e ver cavalos do mar deslizando nas águas calmas e limpas da baía. Agora, tudo o que se vê da ilhota é um chão de barro vermelho, e enormes tanques redondos de uma empresa de petróleo. A ex-vedete do teatro rebolado e nudista, Luz del Fuego, parece, foi morta a facadas por um empregado, não se sabe se apaixonado, ou devido a dívidas trabalhistas, há mais de trinta anos. E badejo só se encontra na peixaria, vinte reais o quilo. Cavalo marinho, só em fotografia.

E agora isso; Dona Vanilda namora na praia. Não podia acreditar que ela o estava traindo; estavam casados há três anos e ela sempre demonstrou um amor francamente correspondido, em carinhos, atenções e palavras. Apesar de mais velho, trazia já alguns fios brancos nos cabelos e bigode, Viana estava no auge, com cerca de trinta e cinco anos.

Preferira assim, casar-se após os trinta anos, com a vida organizada e cheio de experiência, capaz de oferecer à família nascente segurança e equilíbrio, mas, ainda, com muito vigor físico. Encontrou Vanilda aos dezenove anos, filha de pacata família de classe média do subúrbio, morena de feições delicadas e voz doce, e, após um noivado breve, com poucas palavras e muitos carinhos, casaram-se e viveram três anos de intenso amor.

Bem, mas esses pequenos detalhes familiares não interessam a ninguém. O fato é que a Vanildinha, filhinha de mamãe e papai, estava se aproveitando da sua boa fé de marido, que só queria para ela muita felicidade, estava fazendo a alegria de um malandro qualquer da praia. Um ou muitos? Viana só faltou espumar de ódio. Ah, se pegasse os dois... era tragédia na certa, capaz de encher as manchetes dos jornais por semanas.

No dia seguinte, saiu normalmente para trabalhar; levou o seu Buick para a praia do Ribeira e estacionou; aguardou no carro dando tempo de que as lojas abrissem e o sol esquentasse. Comprou calção, blusa, uma alpargata roda, chapéu e óculos escuros, trocou de roupa no banheiro de um bar, guardou o terno na mala do carro e pegou um bonde de volta, onde esperava flagrar Vanilda e o amante na praia em frente ao edifício onde moravam. Foi andando, sem pressa, até o fim da praia e não viu ninguém. Era cedo demais e a praia estava deserta. Percorreu, mais uma vez, todo o caminho, desde a praça até a pedra no final da praia encimada por uma estátua de onça. Na terceira passagem defronte ao seu edifício, viu Vanilda se encaminhando para a praia; levava uma bolsa de palha de onde retirou uma toalha que estendeu na areia e se deitou de barriga para baixo. A praia já estava bem mais cheia, e Viana manteve uma distância segura para vigia-la sem risco de ser reconhecido. Mas foi descoberto por um moleque que passou com um balde cheio de siris: “Bom dia, seu Viana, quer comprar uns siris? Dona Vanilda está bem ali em frente, não a achou?”

Naquela noite, Viana demorou a dormir; sentia o rosto arder de calor e os mosquitos zumbindo pelo quarto; repassou os acontecimentos do dia; ficara vigiando todo o dia e ninguém se acercou de Vanilda. Agora, no escuro do quarto, sentia a sua presença ali ao lado, sem coragem de se aproximar, de esbarrar com as pernas, de se virar para ela num abraço... Escutava a sua respiração ritmada quando sentiu que ela estava se levantando; depois uma lufada de vento percorreu o quarto. Esperou uns cinco minutos, acendeu o quebra-luz e pode se certificar que Vanilda não estava em casa, havia saído sorrateiramente. Viana, desarmado de sua raiva, e sem coragem de segui-la desabou num choro baixo. Suas lágrimas escorriam, no escuro, sem que ninguém testemunhasse; então era verdade, Ela saíra para encontra-lo. Sentia-se fraco, incapaz de esboçar qualquer reação. Tudo bem, a amava, não tinha o direito de colocar obstáculos à sua felicidade. A trataria bem, melhor do que nunca para reconquista-la. Alinhavou argumentos para manter-se calmo. Após uma hora, sentiu novamente o vento correspondendo à porta aberta, e o leve balanço da cama, ela estava de volta. Viana fingiu que estava dormindo. Podia sentir um cheiro de mar vindo do seu corpo.

Naquela semana, a cerimônia se repetiu todos as noites. Até que Viana não agüentou mais; levantou-se, também sem fazer barulho, cinco minutos após a saída dela, e desceu. Na praia escura não a viu. Cruzou com o moleque dos siris que o cumprimentou. Atravessou a rua e desceu para a areia. Não a viu em lugar algum. Sentou-se e encarou as luzes no horizonte. O vento batia de frente, refrescando o ardor do rosto que não mais o havia abandonado nos últimos dias. Cadê Vanilda? Deveria estar enroscada com alguém, atrás de uma árvore; ou subiu para algum apartamento...Divisou ‘a esquerda uma brasinha de cigarro; levantou-se e se encaminhou até lá. Esperava dar o flagrante e acabar com tudo... Mas encontrou Vanilda só.
Ela se assustou com a sua aproximação no escuro. Levou um tempo para reconhece-lo. Tentou esconder o cigarro:
- Vanilda, desde quando você fuma?
- Não conseguia dormir, Viana. Está muito calor. Fumo não, é só uma pitadinha para distrair.
- Pode fumar a vontade, Vanilda; tenho visto você descer todas as noites.
- Muito calor, se eu pudesse dormia aqui na praia; ficava nua igual à Luz del Fuego...
- Então fica, não tem ninguém na praia, só o rapaz que foi armar o puçá dos siris...  Mas ele já passou há dez minutos...

Dona Vanilda não se fez de rogada, tirou a roupa e fez com ela um pequeno travesseiro. Viana pode, então, sentir, no escuro, o seu corpo macio. Ela viu acontecer o seu sonho mais secreto, amar com o barulho do mar, a visão das estrelas e muito vento para refrescar.

Passaram todo o verão na praia. Quando saía, de manhã, para ir trabalhar, Viana, apesar de estar de banho tomado, achava uns grãos de areia dentro das orelhas; passava pela canoa emborcada e via, todos os dias a inscrição alertando de que dona Vanilda namorava na praia. Chegava de mansinho por trás dos três ou quatro pessoas paradas diante da canoa; a inscrição, com os ênes invertidos deixava claro que o seu autor era um ignorante; ou uma criança. Viana já havia desistido de apagar a inscrição. Dizia com orgulho: “Namora sim, mas namora é comigo”. Riu alto e se dirigiu para o Buick. Pensou em parar no bar para comprar um maço de cigarros para que o seu amor não tivesse que passar pelo vexame de ter que entrar num pé sujo fedido e sair dali mal falada....
 
Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 11/08/2006
Reeditado em 12/08/2006
Código do texto: T214173

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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