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A jararaca da sogra

Esta aconteceu logo após a chamada Revolução de 64. Do Praxedes e de uma turma de uns oito companheiros, - porque falavam mal do governo -, o prefeito disse que eram comunistas e comunistas  ficaram. Estavam marcados para, a qualquer hora, serem presos pelos milicos que chegariam de Belzonte. Isalaram. Cada um tomou chá de sumiço. Uns viajaram, outros foram pro mato, outros... o certo é que ninguém ficou em casa. Menos o Praxedes, que não tinha pra onde ir. Solução era arranjar doença. Inventou dor de barriga e caiu de cama. Ficava debaixo do cobertor, atento a qualquer barulho vindo de fora, suando em bicas e gemendo, para manter as aparências.

- Se estrepou, neguinho!... - cantarolava, em ritmo de samba, toda alegre, dona Zulmira, enquanto passava pano molhado no piso da sala.

O que o Praxedes não podia esperar era a traição da sogra que, até que enfim, arranjara oportunidade de vingança. Antipatia mútua. O genro sempre tratara dona Zulmira na base de jararaca pra lá, cascavel pra cá. Expulsara-a de casa várias vezes, obedecido em nenhuma delas, proibia-a de ir à porta da rua, regateava comida pra velha... em resumo, viviam em guerra os dois. Pois bem. Chegou a hora de dona Zulmira ir à forra. Foi pra porta da rua cumprimentar todo passante, saber das novidades e apreciar o movimento, doida para ver chegar bando de milicos na sua porta. Como não chegavam, gritou pra vizinha de frente:

- Ô dona Nair, dona Nair Terezinha! É verdade que tão prendeno gente?

- Tão, sá! Tudo quanto é comunista dizem que tão levando pra cadeia...

Praxedes, cuja janela do quarto dava pra rua, ficou mais sobressaltado com a informação. Começou a tremer debaixo do cobertor e a barriga passou a doer de verdade, abrindo precisão de ir ao banheiro correndinho. Com os ouvidos de butuca pra cima e o tiroteio saindo pra baixo, no vaso.

- Mas, óia, dona Nair, será que já prendero muitos?

- Ouvi dizê que bem uns cinco já tão lá na cadeia, sá!

- Mas a senhora sabe que ainda falta gente preles prendê, né?

- Farta quem, dona Zulmira? Sei não!...

- Aqui em casa mesmo tem um fingino doença, - mó qui com nó na tripa - , que é o maió comunista da cidade...

Dona Zulmira disse a última frase gritando, como se quisesse ser ouvida por toda a rua. O Praxedes, lá no banheiro, já com cólica na barriga e ânsia de vômito, teve calafrio na espinha ao sentir a flechada da velha. Cortou ao meio sua precisão e correu pra cama, ainda lambuzado. Tremia tanto... mas, de lá, tafuiado embaixo dos cobertores, respirando catinga de um pum desobediente, arranjou coragem de abrir uma frestinha para respirar ar fresco e gritar pra velha:

- Cê inda me paga, jararaca! Deixe as coisas acarmá quiocê vai vê o quequié bão pa tosse, viu?!...
Eurico de Andrade
Enviado por Eurico de Andrade em 14/08/2006
Código do texto: T216434
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Sobre o autor
Eurico de Andrade
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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Eurico de Andrade