Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

A MULA DO CIGANO

Lá pelos anos 60 chegou em nossa pequena cidade uma trempa de ciganos. Homens, mulheres, crianças, cachorros, cavalos, muitos cavalos e burros.

Ergueram acampamento, barracas vistosas, coloridas, enormes....

Viviam duas ou tres famílias em cada uma delas.

Eles viviam do negócio de compra e venda de ouro e sobretudo de animais.

Tinham cavalos e mulas, éguas e burros, protros e
potrancas.....

Animais velozes, marchadores, passo picado, trotões, andadores....

Esguios, altos, fortes, atarracados, musculosos...

Negros, pampas, castanhos, alazões, tordilhos, pedrezes, rozios, libunos, brancos....

Todos ficavam a admirar a qualidade e postura dos animais, o andar, a cor impecável...

Naquela época 90% dos serviços eram realizados por tração animal.

Burro e mula para o engenho, para girar a olaria, passar chapa, puxar carroça...

Cavalos e éguas para pastoreio, para charrete, para transporte, para laser e para as corridas de domingo de manhã, nas raias da vida, mesmo já tendo sido proibido tal uso, mas era ainda, tradição.

Tonho era um aficcionado por cavalos, tinha uns bons, mais se julgava o maior entendedor de toda a região e possuidor dos melhores animais. Só tenho campeões, dizia.

Logo ele se encantou com uma mula preta, da cor do véu da morte.

Era tão negra que chegava ofuscar os olhos ao brilhar ao sol....

Não tinha um só defeito e nem um só fio de outra cor, os cascos parelhos, orelhas eretas, crinas perfeitas, rabo em prumo .... e para somar tanta coisa, era marchadeira...

A mula marchadeira era o sonho de qualquer pessoa da época.

Tonho se vislumbrou.

Decidiu comprar a mula.

Todos na cidade o aconselharam a pensar melhor, esperimentar a mula, diziam que cigano não era gente muito confiável, mas em vão, ele estava determinado.

O preço pedido pelo cigano era astronômico, ele não sabia como satisfazer seu capricho.

Ora, cigano é gente especialista na arte de comerciar, e como quem não quer nada, ele pediu uma oferta ao Tonho.

Tudo que Tonho falava, o cigano rejeitava.

Vendo que Tonho já estava "no laço" o cigano quis ver o que Tonho tinha em sua propriedade.

Na tardinha, Tonho chega todo entusiasmado montando a mulona e apeia frente ao boteco de sempre e perguntado qual o negócio, responde que enganou o cigano...

Havia dado um porco manco, um garrote magro , dois de seus cavalos, daqueles "pisados " e uns trocados para o cigano tomar umas pingas.

Naquela noite houve churrasco no acampamento dos ciganos e música...muita música. Muita dança, muito achego, muito amasso, mé, muito mé ( cachaça ). No outro dia não havia nem rastros dos ciganos.

Semanas depois Tonho chega no boteco com cara de poucos amigos e montado numa velha mula carijó.

Perguntado, responde:

Essa é aquela mulona que comprei do cigano. É que ontem choveu e escorreu a tinta!


GDaun
Enviado por GDaun em 19/08/2006
Reeditado em 01/10/2006
Código do texto: T219945

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor e o link para obra original). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
GDaun
Lupércio - São Paulo - Brasil, 72 anos
653 textos (43012 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 08/12/16 20:16)
GDaun