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De Maníaco e de Louco...

 Na pacata Santa Maria do Tabuí, onde nada acontecia, um dos seus habitantes resolveu virar maníaco. Mas não um maniacozinho qualquer não. Era maníaco de matar. Matar na base do cacete. Sua tara era contra os bêbados da cidade. Bêbado tretou, relou, tava no pau. Maníaco metia a paulada e esperava prazeroso a careta do quase defunto para dar risada. Mas tudo na moita, debaixo dum quieto. Crime perfeito.

Primeiro bêbado apagado, o maníaco encafuou-o no porão escuro da igreja do Padre Anacleto, que ficava bem perto do rio Sorongo. O segundo, mesma coisa, um dia depois. O terceiro também.

Foi aí que os bêbados da cidade, em reunião de sindicato, após descobrirem o sumiço dos três colegas, confabularam, confabularam e resolveram maneirar a mão dando um tempo à cachaça. A partir daquele dia Tabuí não tinha mais bêbado. Ninguém nem agüentava mais o cheiro da canjebrina. Davam até vômito se vissem, mesmo que fosse de longe, um litro da Providência, a preferida de todos.

Enquanto isso, o maníaco lá do começo da história, já com três defuntos armazenados, estava meio preocupado, - maníaco também tem suas preocupações -, sem saber o que fazer com tanto presunto. Mas como ele só era maníaco e não era bobo, arranjou solução fácil, fácil. Chamou Dejalma. O doido da cidade.

- Dejalma, tem uns bêbados ali. Vamo carregá eles e jogá no rio pra curarem a bebedeira?!... Vamo que depois te dô uns trocado!

Dejalma foi. Plena madrugada pegou os defuntos, cada qual mais fedido que o outro e pinchou tudo no rio.
 
Pensando que a brincadeira continuava, voltou a procurar outro bêbado, mas não achou mais nenhum. Ficou embaixo da escada da igreja esperando aparecer o home que prometera os trocados, conforme o combinado. Mas o maníaco tinha, bem misturadas numa lata, urina e fezes. Lá do alto da escada despejou toda aquela gororoba na cabeça do doido do Dejalma. Este, apavorado com a fedentina, caiu no mundo, sem nem olhar de onde vinha aquela chuva mais que de repente.

Quando a cidade achou os corpos dos três bêbados boiando no rio, foi um bafafá danado. Quem-foi, quem-não-foi, meu-Deus-do-céu e por aí adiante.

O delegado, sem nenhuma testemunha, não sabia a quem apelar. Até que a boataria chegou no ouvido do Dejalma.

- Sô delega! Otro dia eu pinchei treis bebo no rio pr'ês tomá banho!...

O maluco terminou a frase com uma risadona, daquelas de doido varrido. E o delegado, querendo mais informações, passa a especular o Dejalma de tudo quanto é forma, com todo tipo de questionamento. Até que perguntou:

- Que dia foi isso Dejalma?

O nosso simpático doido pensou, pensou, deu mais umas gaitadas, mas só conseguiu se lembrar de uma coisa. E simplesmente respondeu:

-  Foi naquele dia que choveu merda!
Eurico de Andrade
Enviado por Eurico de Andrade em 24/08/2006
Código do texto: T224258
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Sobre o autor
Eurico de Andrade
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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