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Bembem padece de amor

O Raimundo barbeiro estava indo à falência. A machaiada de Tabuí fizera da sua barbearia – a “Façume de Barba e Parume de Cabelo” - ponto de encontro predileto, onde se ficava sabendo de tudo. Quem tava ficando rico ou pobre, quem gostava de quem, quem apanhou de quem, quem tava saindo com quem... e o Raimundo brabo com a falta da freguesia que refugava, de tanto falatório. Freguês que se aventurasse ali, mal saia, a ficha tava completa e era assunto por uma semana. Até que um dia o barbeiro resolve espantar o azar. Zequinha Bembem, o açougueiro simplório, o mais conversador de todos, contador de papo, inventor de histórias, metido a brabo e a paquerador,  era quem mais divertia a turma da barbearia. Raimundo acha de aprontar com o Bembem para ver se espalhava aquela homaiada da sua barbearia e a freguesia voltava. Escreveu bilhete com letrinha delicada, caprichando na língua pátria. "Zequinha, tô pachonada por ocê. Sou sua fãn ocurta. Quero marcá incontro. Guarda segredo." E colocou o bilhete debaixo da porta do açougue, tarde da noite, para não correr o risco de ser visto.

No dia seguinte, mal o Raimundo abre a barbearia, lá vem o Zequinha Bembem correndo, eufórico.

- Remundo, óia só! Ela tá paixonada por mim, sô!

E Raimundo leu o bilhete que ele mesmo escrevera, mostrando espanto.

-  Mas ocê não tá guardano o segredo que ela pediu, ô Bembem!

-  Só tô contano procê, Remundo!

-  Óia, é bom ocê não contá para mais ninguém não, sô! Cê num conhece aquele ditado que diz que quem tiver segredo, não conte pra mulher casada, pois ela conta pro marido e ele pro seu camarada? Segredo tem perna curta, home! Ainda bem, Bembem, que sou homem de pouca fala! E quem será ela?

-  Sei não... pode sê a...

E Bembem teceu uma longa lista das possíveis pretendentes. De solteiras donzelas a casadas que jogavam água fora da bacia, até a beatas convictas e juramentadas.

-  Ah, Remundo! É dessa vez que eu disincravo, sô! Vai s'imbora, solidão!...

Bembem passou o dia inquieto, rindo a toa, doido para enfronhar conversa de amor. Como ninguém deu trela, ele se calou. E Raimundo, só de butuca, querendo ver até quando o homem guardava segredo. Antes de ir para casa, comecinho da noite, escreve outro bilhete, novamente com letrinha delicada "Beimbeim, meu amor. Quero mim revelá procê amanhã de noite ao beco do Mijo 9 in ponto. Se eu demorá um poco, mim espera. Vái sozinho. De camisa branca pra mode eu vê ocê  no iscuro. Nem paletó, nem blusa e nem xapéu. Oia o segredo viu? Sua amada". Deixa o bilhete debaixo da porta do açougue e vai pra casa esconder-se do frio entre as colchas e coxas da patroa.

De manhãzinha, lá vem o Bembem correndo de novo, emocionado e sem fala, escondendo papelzinho rosa no bolso.

-  Remundo, ela me escreveu de novo, sô!

-  Ih, é? Dexovê!

-  Na-na-ni-na-não! Desta veiz não! Vô guardá segredo. É pedido dela.

-  Deixa de sê bobo, sô! Cumpoco cê tá pensando que eu quero passá ocê pra trás?

-  Né isso não, Remundo! Amanhã eu conto procê, tudo, no seu tintim, viu? Ah!... Esta noite vai acontecê coisas!... - suspirou ele, revirando o zoinho.

Raimundo viu o amigo pra lá de emocionado. Os olhos brilhando, a respiração ofegante e ele não parava um instante sequer, saltitante feito tiziu.

Bembem, naquele dia, não abriu o açougue e nem matou vaca. Ficou zanzando pela rua, ruminando seu segredo, vendo passarinho verde, doido pra contar para alguém, mas, segurando a catraca, em respeito ao pedido da amada desconhecida.

À noite, a “Façume de Barba e Parume de Cabelo” funcionou até bem mais tarde. O Raimundo, pedindo boca de siri, contou pra mais de uns quinze a história do Bembem. E todo mundo ficou sabendo o que iria acontecer.

Um pouquinho antes das nove, tá a turma toda abafada, dentro da barbearia, tiritando de frio, cada um mais encapotado que o outro, esperando Bembem passar. Para chegar ao beco do Mijo, aquele era o único caminho. Cinco pras nove, um avisa lá vem o home! Bembem vem, em manga de camisa branca, banho tomado, perfumado e barba feita, olhando desconfiado para a porta da barbearia, de onde saia luz e bafo de macho. Assim que vai passando, encolhido pelo frio e para não ser visto, alguém grita lá de dentro ô Bembem, ondé cocê vai, sô? Vamo chegá, home! O açougueiro, pego de surpresa, treme nas bases, sente batedeira, perde o tesão incontido e começa a suar frio.

-  Tá com frio não, Bembem?

-  Vô ali! Tô não! - responde o moço às duas perguntas de uma vez.

-  Vem cá, Bembem! Vamo tomá uma pra esquentar o peito, home! - insiste o outro.

-  Depois em venho, tá? Larga deu! Dexeu em paz!

E isala no mundo, ganhando a escuridão do beco do Mijo.

Nessa hora, o Raimundo barbeiro entra em ação. Pega sua bicicleta velha, de nome magrela, bastante escangalhada, e sai também em direção ao beco do Mijo. Passa pelo Bembem e finge não conhecê-lo. Dá uns cinco minutos de prazo e volta. Repete a ida e a vinda mais umas duas vezes, enquanto o Bembem se espreme entre um muro e um poste de luz sem luz, imaginando que não seria visto e nem reconhecido pelo barbeiro. Praguejava pros seus botões, querendo saber o que o Raimundo fazia por ali, àquela hora da noite. E, emocionado, espera, espera, espera... tremendo de frio. Até que, da emoção, após mais de uma hora, passa à raiva e resolve ir embora. O povo, estranhamente, - Bembem achou -, naquele frio, continuava na barbearia. Puto da vida, resolve pular dois muros do quintal do Alfredão, correndo risco de mordida de cachorro, para não ser mais visto por aquele bando de vagabundos. Passa no seu açougue, já quase 11 da noite para procurar sinal da amada. E acha. Papelzinho cheiroso, cor de rosa, com letrinha delicada, dizia:
"Meu bem. Me perdoa gostozão. Num deu pra mim falá cocê. Si ocê num sabe, sou muié casada e o tarado do Remundo barbero tá disconfiado e aresorveu dá em riba deu e a siguieu fazeno preposta bissena de sequisso. Como num quero ficá malafamada, adeus".

Bembem não esperou pelo dia seguinte. Saiu de si e deixou, no coração, lugar para homem brabo. Pegou faca de sangrar vaca e foi pra barbearia. A turma, incentivada pelo Raimundo, esperava.

-  Cadê aquele disgraçado do Remundo? Remundo!... Traidô!

 Vem cá fora procê vê o quequié bão pa tosse! Cê tá dano inriba dela, né, fedaputa?!...

Entrou em campo a turma do deixa disso e foram segurar o Zequinha Bembem. Começaram os empurra-empurras e os sopapos. E uns passaram a descontar nos outros as mágoas de antigamente, as fofocas mal ditas e as falas bem ditas, dando e levando bordoada. Cada um por si e Deus por todos. O fuzuê foi feio, em plena rua, beirando a meia-noite. Na refrega, alguém sumiu com a faca do açougueiro, desapareceram a peruca do alfaiate Cirilo e a dentadura do Laerte.  Quando chegou o Divino soldado, o Toim Zaroio procurava, tateando o chão, os seus óculos fundo de garrafa e ninguém entendeu porque o Mané Falafina, o qualira da cidade, mais conhecido como arame liso, perdeu a calça e tava sentado no colo do Xinco Mangüara num cantinho mais escuro. Com o Divino, tudo acalmou, quando, franzino e baixinho, ele teve que gritar, dando pulinhos e tiros pro alto para impor sua vontade.

-  Cês num tão veno a otoridade aqui não, ô? Pára cuisso, cambada de fedaputa!

Ao ouvir os tiros e sentir cheiro de autoridade, cada um foi saindo de fininho pra caçar seu canto, fugindo de ver o sol nascer quadrado. E Raimundo, o único que não tomou parte da confusão no meio da rua, fechou sua barbearia em paz, enquanto os da turma, alguns de olho inchado, boca sangrando e cuspindo dente, ficaram de nariz torcido e de mal uns com os outros. Era o que Raimundo queria para atrair de novo a freguesia.
Eurico de Andrade
Enviado por Eurico de Andrade em 25/08/2006
Código do texto: T225080
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Eurico de Andrade
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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