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Dona, cadê minha viola?

 O nome dele era Simplício. Simplício da Simplicidade. Homem erado, beirando os setenta. Pobre, magrelo e banguela, faltando os dentes da frente e só tendo as duas presas para, em forma de grampo, segurar o que entrasse boca adentro.

Simplício era cantador dos melhores. Bom de viola. Nas redondezas ninguém tirava uma folia melhor que ele. Folião de mão cheia fazia dessa sua arte, viola e folia, um meio de vida. Por isso é que vivia como um andarilho, de déu em déu, pr'aqui e pr'ali à procura de onde mostrar seus dotes.
Foi aí que dona Argentina, viuvona rica, proprietária duma baita fazenda, mandou chamar o Simplício pra ser o puxador da folia de Reis.

Na véspera chega ele lá. Paletozinho seca-poço encarnado numa mão e a velha viola debaixo do braço. Vai entrando de mansinho sem ver o Tufão. Cachorro vira-lata dos grandes, cheio de fome, de magreza, de berne, de sujeira e com as vistas fracas. Tufão, mal viu o paletó cor de carne, não pensou nem uma vez, já que cachorro não pensa. Deu um bote e... era uma vez um paletó encarnado! Simplício só ficou com um pedaço dele na mão.

Agoniado, pesaroso com o acontecido, nervoso com o atrevimento do vira-lata, acaba de chegar, falando de Simplício para Simplício: "tem nada não, despois duma curva sempre tem uma reta...". Conversa vai, conversa vem, fica no alpendre esperando a noite chegar e, junto com ela, os companheiros da folia. Raiva foi embora não.
Numa certa altura dos pequenos acontecimentos, tão comuns na vida de Simplício, ele ouve a fazendeira gritar pro filho:

- Mundico! Vai pegá caju pro gato!

Passa um tempo e a mesma lenga:

- Anda digero, minino! Cadê os caju do gato!

Simplício, muito calmamente pega o que sobrou do paletozinho, levanta do banquinho, chama dona Argentina e pede:

- Dona, me dê minha viola!

- Uai, sô Simplício, vai tocá arguma coisa pra gente?

- Vô nada! Vô é m'imbora!

Quem ouviu se assustou com a decisão do velho. E ele, já começando a se mandar, resolve dar uma explicação:

- Em lugá que cachorro come palitó e gato chupa caju, Simplício da Simplicidade véio num canta e nem toca! Inté!...

Eurico de Andrade
Enviado por Eurico de Andrade em 25/08/2006
Código do texto: T225083
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Sobre o autor
Eurico de Andrade
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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