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Grito Interior

                          Grito Interior







Quando o tempo me enferruja os gonzos do raciocínio
E resto quedo de músculos e nervos presos
Refugiado no morno conforto do vazio emocional
Que bem que me sabe este vago cerebral
Em que rompo as regras encenadas dos protocolos
Troçando intimamente,tábua rasa feita dos compromissos
sociais
Encerrado na minha carapaça rija de tartaruga arisca e
emproada.


O que me vem de dentro e de mim se abre ao exterior
É uma insignificância de toda a energia que me ferve nas entranhas
Sou uma bomba-relógio retardada para o nunca
É bom que assim seja, não fosse o mundo ferir-se
Com todos os meus estilhaços de imprevisíveis emoções.


Vou brindar o meu comportamento com prendas de demência
Confundindo quem suspeite raiar eu a irreverência
Tão anormais são a gravata e o fato
Passeando-se entre a fortuna e a carência
Que a mim me parece isso ser uma suína indecência.


Façam o vosso jogo, senhores!
Apostas suspensas para a jogada imediata
A roda vai parar na vida interior desbaratada
Deixe ficar o relógio, as peúgas, não se esqueça também
da cigarreira de prata
Tome lá um pontapé no traseiro rumo ao bairro social de lata
Consuma em suma! A ambição é elástica
Facilitamos-lhe a vida inovando a comunidade plástica
O número da sua alma é já pertença da nossa listagem
Satisfaça todas as suas fantasias com dividendos nós   facilitamos-lhe a massa
Rio à gargalhada achando sublime a palhaçada
Afinal até as ceroulas já tenho empenhadas
Desde que não me confisquem as partes baixas
Que me são úteis e fazem falta para as necessidades
Podem até levar o penico e a prenda malcheirosa lá deixada
Não me olhem desconfiados desse lado do balcão da vida
Para  apresentar em meu abono só tenho pedaços de ilusões
perdidas
Duvido que lhes sirvam salvo a rédea do asno que me ficou
de recordação
Abatida a besta e extinta a  linha de produção.


Não há rua nem passeios onde os meus passos se adaptem
O palco do meu sapateado ruiu antes de iniciado o
espectáculo
Defraudadas as expectativas acha-se o público vigarizado
Mas é a mim que doem as  vésperas das actuações sempre e
imprevisivelmente adiadas.


Concordo plenamente ó Mestre!
Não ser nada é estar um passo à frente de ser tudo
Se o corpo dói é possível que o sistema nervoso tenha
amuado ou esteja de humores
Vou anestesiá-lo até cair trôpego dos vapores
Afinal para que merda servem os valores
Sei de alguns sujeitos a dispensas e a troca de favores.


Não me venham com dias não ou talvez sim
Para mim tudo é incerto e até duvido de que se eu não fosse
assim
O  meu eu obrigar-me-ia a tornar-me forçosamente assim
Querem que concorde convosco? Pois discordo!
O facto de ser do contra estimula-me a irreverência
A libertinagem pula-me no corpo
Aos porcos atiro os princípios
Que se danem os moralismos e os defensores dos bons
costumes como vícios.


Também eu um dia quis ser cão
E negaram-me sê-lo de verdade nesta encarnação
Fui burro a dada altura sem querer e por obrigação
Nem sempre pude ser o que quis
Os deuses ressonavam a todos os requerimentos que fiz
E a divina providência torceu-me sempre o nariz.


Para que me valem as certezas das incertezas do eu?
Existo volátil no nevoeiro do pensamento
Tudo ao meu redor é um cenário do sonoro dos tempos
modernos
Antes fosse eu um negativo imaginário no sonho dos Irmãos
Lumière


Sim, também sei disso
Também eu mergulhei em águas mansas de celeste cor
E nadei acompanhado por sereias deslumbrantes de
sorridentes
Ficando elas nos seus mares, acenando-me, enquanto eu me
afastava chegado à costa
Acenares sazonais,
Acenares breves
A pautarem sempre as minhas incursões pelos oceanos das paixões.


Não, não e uma vez mais não!
Sou doido no meu próprio manicómio
Fiquem-se com os vossos valores
Com as vossas sábias conclusões científicas comprovadas
E deixem-me ficar a mim enleado e intrigado nas minhas
seguras imprecisões


Já disse e repito!
Basta de me dizerem basta
Basta de me apontarem o dedo
Como se houvessem caminhos definidos
Eu conheço o finito e o desconhecido
Provenho, tal como a matéria e tudo e o infinito
Da poeira cósmica universal
Sou como tudo e todos uma partícula da essência da noite
original.


Moisés Salgado
alestedoparaiso
Enviado por alestedoparaiso em 26/08/2006
Código do texto: T225531

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