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A Um Canto da Arrumação

                       Esboçando
                         LXVII








Encontrei a um canto da arrumação
As quase esquecidas e empoeiradas malas
Que de novo voltarão a luzir inquietas
Prevendo ansiosas o frenesim da partida.
Irei uma vez mais sem destino
Pedindo ao astro bons e doirados ventos
Embarcarei no vapor dos meus fumos
Dando ao acaso a sorte de um qualquer rumo.
Ao sabor das vagas no mar do meu Bojador
Acalmarei a sede de aventura
Antevendo a ilha onde atracarei moribundo
Perdidas as contas às muitas brumas
Caídas nos alvores dos meus cansaços
E esfumadas nas manhãs altas do meu imaginário.
Velejarei erguendo as velas da vontade
Com a impetuosidade dos meus desejos insaciáveis
Rasgarei os panos crus dos imponderáveis
Aportando aliviado na ilusão vaga da minha fantasia.


Fundearei numa enseada de olhares translúcidos
Onde as águas azuis aclareiam os rostos
Nas finas areias da praia solitária
Amarei, como sempre quis ser amado
Um amor de entrega
Tornado paixão e dádiva
Os corpos suados pelo prazer desejado
Movendo-se ao compasso dos cânticos das aves
Numa floresta tropical em mim gerada.


Saborearei a carne dos frutos exóticos
Amadurecidos por um sol cálido e generoso
Com leites e méis de pólenes inigualáveis
Atenuarei as sedes do meu âmago rejubilado.
Repetirei,
Guloso de sensações outras
Nunca antes julgadas poderem ser experimentadas
Afastarei lianas entrelaçadas na folhagem
Abrindo caminho pela floresta do meu corpo
Prevista a minha vinda os animais acompanhar-me-ão
Com o louro gracejarei
Ao sagui oferecerei o ombro
À clareira aonde arribarei
Envolto pela surpresa nativa e ingénua dos risos
Bem aceite e recebido estou certo que serei.
Ficarei,
E no inverno ardente dos encantos
Humedecerei os lábios na nascente da igualdade
Elevando alto o grito de reconhecimento
Despertarei o vulcão das lavas da fraternidade
Reanimando em pétalas coloridas
Os rebentos das flores de todas as primaveras vividas.


Não presenciarei maldades
Talvez por inexistentes na ilha
A inveja, por ser desconhecida, nem sentimento banido é
Aprenderei a andar nu pelos caminhos das acções
Despido das máculas mesquinhas das regras legisladas
A proibição de ser infeliz
Norteando o princípio básico do comportamento.


Sentirei agitarem-se em mim
As natividades de todas as crenças
Pautando tolerante o respeito a cada uma delas
Em cada qual reconhecendo virtudes e defeitos
Não fora a perfeição
Uma imperfeição divina.


Compreenderei o mérito de Urales
E o demérito de quem lhe abafou os princípios
Mas herbicida algum terá o poder de mirrar as sementes
Que rebentarão pujantes a florir os meus ideais.


Pressentirei ter concluído uma aprendizagem
Deixarei recordações e levarei saudades
Nesta viagem empreendida no acaso
Colherei imprevistas e inesperadas lições
Concluindo que amando se aprende sempre mais
E no rochedo debruçado sobre o mar
De onde vim e onde em breve me irei embrenhar
Surpreendendo-me com a minha própria voz
Solene cantarei:



A ti exalto candura
Nobreza suprema do ser
Mar sereno de ternura
Dom sublime a proteger

Evoco-te com receio
De te estarem a perder
Ingrato quem no seu seio
Desdenha bem te receber

És semente da pureza
Fruto são a acarinhar
É natural com certeza

Que te queira idolatrar
Teu encanto e beleza
Sempre farei por venerar.


E eis que vinda das profundidades do mar
Uma morna névoa caleidoscópica e multicolor
Em si envolveu o rochedo
E com ela fui transportado
Num planar ligeiro e volátil
Ao ponto de confluência
De todas as origens passadas e a arribar.



Moisés Salgado
alestedoparaiso
Enviado por alestedoparaiso em 27/08/2006
Código do texto: T226266

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