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SERÁ QUE ELE VAI LIGAR?



Chuva na saída do trabalho, TPM mal resolvida, briga com o ex e discussão com o atual namorado. E para completar, um imbecil freia o carro de qualquer jeito na minha frente. Nem pensei duas vezes. Parei do lado, baixei o vidro do carona e berrei, sem dó nem piedade:
- Ô animal!
O animal em questão olhou calmamente para mim. Minhas pernas ficaram bambas. Lindo. Moreno. Deveria ser alto. Tirei esta conclusão pelo tamanho das mãos que seguravam o volante. Pensei: vou ouvir uma saraivada de palavrões agora. Esperei, ao mesmo tempo que minha mão direita procurava na bolsa um cartão de apresentação. Dane-se. Mesmo que ele me jogasse um monte de desaforos na cara, eu iria passar meu telefone pela janela. Azar.
Mas o “animal” me olhou por dez longos segundos, sem falar nada. NADA! E então, ignorando-me solenemente, arrancou o carro e partiu da minha vida. Consegui anotar mentalmente a placa do carro e a marca. Dali para frente, imaginei eu, faria uma busca por toda a cidade daquele espécime maravilhoso em extinção. E ele se sumiu pelas avenidas chuvosas, enquanto eu, na minha afobação, consegui afogar o carro bem no meio do trânsito.
Naquela noite não atendi aos telefonemas desesperados do Heitor e quando dormi, sonhei com o animal. Contei para minhas colegas e elas me deram toda a força do mundo. Vá à luta, mulher. Criei esperanças. Eu tinha certeza de que um dia o encontraria. Mesmo quando eu fiz as pazes com o Heitor, não perdi as esperanças. Onde quer que eu fosse, cinema, teatro, restaurantes, shopping... meus olhos vasculhavam por tudo. A imagem dele jamais saía da minha mente e por muitas vezes, o Heitor falava sozinho, num monólogo incessante. Pobre Heitor. Nem imaginava o quanto minha mente viajava atrás de outro homem. Sentia-me uma adolescente imbecil e febril. Nem tive coragem de contar para minha mãe, minha fiel confidente. Dizer o quê? Mãe, é o seguinte: me apaixonei por um cara que xinguei no trânsito. Foram só dez segundos, mas isto transformou minha vida. Dá para entender? Não dá? Pois é.
Cansei-me da busca exatos um mês depois. O cara havia sumido. Todos os carros iguais o dele não tinham a mesma placa. Portanto, o animal havia se escafedido do mapa. Vai que viajou com a mulher e os filhos? Sim, porque um animal daqueles não pode ficar sozinho. Possivelmente ele teria alguém para acasalar e infelizmente não era eu. Então desisti. Não por ele ser casado – não me importava de eu ser a outra nesta situação – mas porque eu não iria ficar a vida toda procurando um homem que só vi durante dez segundos na vida. Eu não. Decidi partir para outra, ou seja, aceitar o pedido de casamento do Heitor.
Eu estava no supermercado comprando alguma coisa para meu jantar com ele, o Heitor. Distraída, circulei por quase uma hora depois de já ter comprado tudo. Sentia-me a própria dona de casa e isto que nem havia casado ainda. E nem sabia se gostava disto ou não. Quando me cansei de ficar empurrando o carrinho, fui para um caixa. Havia alguém na minha frente, mas nem dei bola. Quando terminei de colocar a última mercadoria na esteira, foi que resolvi ver porque raios aquela fila não andava. Era o animal catando as moedas na carteira. Moreno, lindo, alto e com umas mãos…
Suei. As pernas fraquejaram. Ele não me viu. Procurei o meu cartão enlouquecidamente. O animal já estava pegando as sacolas quando eu o cutuquei no ombro.
- Oi, boa noite – cumprimentei, tentando manter a voz firme.
- Boa noite – respondeu ele, sem dar o menor sinal de que me conhecia.
- Eu… bem, eu… - gaguejei, respirei fundo e continuei – Chamei você de animal um dia destes no trânsito. Eu… ó meu cartão.
Ele me olhou por outros dez segundos. Enfim, o animal segurou meu cartão, conferiu meu nome e o guardou no bolso das calças. Disse:
- Está certo. Boa noite.
- Boa noite.
O animal saiu e eu nem tive mais coragem de encarar a moça do caixa. Cinco minutos depois, peguei minhas sacolas, com a esperança de que ele estivesse por ali. Mas não. O cara havia se escafedido de novo. Hoje fazem três dias que eu passei meu cartão para ele e até agora meu celular não tocou. Minhas colegas disseram que é assim mesmo, homem custa para ligar. É diferente de mulher, que liga correndo. Só sei que meu celular está ligado dia e noite. Será que ele vai me ligar?
Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 27/08/2006
Código do texto: T226432
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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 46 anos
573 textos (37919 leituras)
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Patrícia da Fonseca