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O retorno do sací

O saci apareceu quando eu estava sem sono, e saí para fumar um cigarrinho ao pé do velho pé de goiaba.

Era noite escura e ventosa, e o saci surgiu do nada, de um buraco no meio do chão aonde as folhas voavam em redemunho. E disse:

“ Dos homes, ocê nem é o meu perferido. Mas ocê que está acordado. E é contigo que eu vou falar”.

E ele me contou todos os mistérios da vida em sua língua arrevezada. Fiquei o tempo todinho fingindo entender, mas entender, não entendi não.

Vi o saci. Ele é do jeito que todo o mundo diz que ele é. Ficou mamulengando umas prosas engraçadas, como se fosse uma criatura muito esperta, cheia de ciência. Mas, coitado, ele é só um saci. Um sacizinho!

E eu disse para ele: “meior ce vortá pro buraco donde ce saiu, que meu cigarrinho já ta acabando”. E fui dormir.

Quando entrei em casa a mulher que estava na cama dando mamar pro neném, disse:
- Nossa como você demorou!
Contei pra ela o meu encontro com o saci, e ela não acreditou. Nem eu. Parecia que eu estava sonhando, tonto, vendo estrelas, ouvidos zumbindo, parecia que o saci tinha jogado encanto em cima de mim.

Noite seguinte, foi a mesma coisa. Sapo coaxando na boca de cobra, grilos cantando em um único som, vento ruim redemunhando. E o saci apareceu de novo. Senti os joelhos batendo, de medo dele. Estava escuro e eu acho que o vi, ele saindo do meio do mato, vi o seu capuz, o pito na boca que adivinhei, não vi ele muito bem porque faltava lua. Depois acho que adormeci um pouco, agarrado na goiabeira, a última coisa que me lembro foi de ter visto uma cobra enorme se arrastando junto ‘a casa, pensei que era uma cobra, mas podia ser também uma corda que esqueci por ali. Acordei já na cama. A mulher estava dormindo, o neném com um sorriso nos lábios.

Depois, nas noites seguintes, várias vezes, acordei no meio da mata. Parece que saía da cama dormindo e saía de casa, andando sem rumo, até acordar em algum canto. Acordei no meio do charco, acordei no curral, acordei na estrada, acordei na casa do vizinho, parecia que estava enfeitiçado. Isso não era possível, era coisa do saci. Afinal, porque ele me queria fora de casa?

Depois de dois meses desse inferno, a mulher comentou: nosso neném está emagrecendo, é engraçado porque mama a noite inteira...

Fiquei intrigado com essa revelação. Como é que o neném mama e não engorda? Isso só podia ser coisa do saci...
Então, de noite, armei arapuca pra pegar saci. Conhecia a história de pegar os sacis com uma peneira, sabia que seu poder provem do capuz, e que ele adora fumo picado para botar no seu pitinho que não sei se é de barro ou de sabugo de milho. Amarrei um punhado de fumo num galho alto da goiabeira. E fiquei entocado.

E não deu outra. Nessa mesma noite o saci veio atrás do fumo. Ele adora fumar, e não sabe que pode morrer de câncer. Veio e se esticou todo pra pegar o fumo. Não conseguiu porque é um moleque baixinho.

Corri e o agarrei pela barriga, rolamos embolados no chão, tomei o seu capuz, e ele virou uma criancinha assustada, chegou a choramingar!

-Agora conta, saci fio das unhas, qual é a sacanagem que você está fazendo, porque o meu garoto está esmagrecendo?!

E ele nada.

- Conta, moleque safado, conta porque senão vou arrancar a sua outra perninha!

E agarrei a perninha com força, e a torci com entusiasmo.

E ele chorou. Foi aí que ele chorou. Parecia um menininho. Me contou a história mais maluca.

Disse ele que uma cobra urutu, dessas que quando não mata aleija, que tinha arruinado a sua perna. Daí ele ficou perneta. Fumava porque diziam que cobra odeia o fumo. Mas a cobra era atentada, e veio atrás dele e o sojigou, ameaçando picar sua outra perna. Fizeram um acordo, ele e a cobra, ele a ajudaria a se nutrir e ela não o picaria mais.

Mas, e daí, e eu com isso, falei.

E o saci, cinicamente revelou toda a historia, a conspiração da cobra que era encantada com o saci que era um futriqueiro.

Disse ele que me distraía enquanto a cobra fazia o serviço. Serviço? Que raio de serviço é esse?

A cobra pega o veneno dos sapos! Das mulheres gostosas ela pega o leite...

Na hora matei a charada. Então a cobra está é mamando na minha mulher. Por isso que o neném está minguando!

Era, era isso mesmo.

Mas o neném está mamando, como é que não chora?

O saci, com uma risada me gozou: “ ela mama na dona e bota o rabinho na boca do neném”.

Desgraçada, efedepê, eu vou dar um basta nessa urutu safada!

Enfiei o gorro do saci no bolso e o tranquei numa gaiola de coelho.

Corri pra casa e não vi cobra nenhuma.

Na noite seguinte, esperei, junto á parede que ficava virada pra mata. Foi ali, de um buraco na parede de pau-a-pique, que vi a cabecinha da cobra aparecendo. Meti o pau do pilão na cabeça da assanhada. Da cobra sobrou só o couro, que pendurei no arame da cerca.

Na manhã seguinte, nem sinal do saci.

De vez em quando penso nele, me agradecendo por ter acabado com a cobra que o botou no cabresto.

Ah!, o neném voltou a engordar.


Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 28/08/2006
Reeditado em 03/09/2006
Código do texto: T227463

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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Jacques Levin