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Aqui o buraco é mais embaixo

Zeca da Luzia vivia pra baixo e pra cima medindo rua. Fugia do trabalho igual diabo da cruz. Andava de cacete às costas, procurando quem inventou o serviço, para matá-lo. Vivia do dinheirinho que a mãe ganhava lavando roupa pra quase todo mundo remediado de Tabuí. Zeca usava umas roupinhas surradas, nunca de acordo com a moda. Sempre na rabeira. Só os cabelos é que estavam dentro dos conformes pr'aquelas épocas. Grandes. Um verdadeiro mafuá, onde até piolho pensava duas vezes antes de neles fixar residência. Não podia se dar ao luxo de cortá-los uma vez por ano. Sapatos pés do Zeca nunca tinham tido prazer de encher de chulé. O máximo que conseguiram foi preencher a chinelinha havaiana já com a sola fina de tanto uso. Dentes do Zeca da Luzia eram uma cacaria de dar dó. Cada um, uma cratera cheia de dor. Raspas de casca de goiabeira é que davam um certo alívio. Banho? Só quando chovia. E a seca na região tava braba. Por isso e muito mais, o cheirinho do rapaz era tão suave quanto cheiro de gambá com depressão. O moço era feio... Mais feio que vira-lata quando briga na carvoeira.

Mas Zeca não era dono só dessas qualidades não. Tinha mais. Era cantador. Cantador dos bons. Abraçado a um violão, dedilhando as cordas de aço e soltando aquela voz aveludada, já fez muita moça de Tabuí suspirar profundo em solitárias noites de serenata. E o rapaz já emprestara, dentro do confabulamento, sua voz afinadíssima pra muito garanhão das redondezas. Daqueles que queriam agradar à presa cantando, embaixo de uma janela, altas horas da madrugada, sem ninguém ver. Zeca da Luzia ligava muito pra esses detalhes não. Por isso era dono de tantos segredos e sabedor de tantas paixões proibidas. Bastava-lhe a pinguinha para esquentar o peito e molhar a goela. Tinha nada no coração que o incomodasse e seu pensamento era mais leve que vôo de tiziu. Zeca não conhecia mulher. Nem a Zildete que satisfazia a todos os homens sem mulher - e até com mulher - da cidade. Sua maior preocupação, em se tratando desses assuntos, era com as mãos que de repente poderiam ficar cabeludas.

Mas um dia Zeca da Luzia mudou. O amor bateu naquele peito bruto. Ele que nunca amara, que não tivera ainda olhos de mulher presos nele, começou a sentir negócio estranho no coração. Um embondo gostoso tomando conta, chegando sem avisar... E quando Zeca viu, estava preso por laços de paixão. Não era amor qualquer não. Por sirigaita de canto de rua não. Era amor por gente fina. Moça prendada. Cheia de grana e de bois. Filha de fazendeiro. Donzela se encantara com a voz do moço, com seus olhos carentes e a conversa fácil. Encantamento mútuo.

A paixão foi tanta que Zeca, contra todos os seus princípios, arrumou emprego de cidade. Dos mais finos de Tabuí: auxiliar de contabilidade. Cortou cabelo à escovinha, rapou barbicha e aparou as unhas. Até botinas rangedeiras, compradas no fiado, passaram a enfeitar seus pés embora sobrasse muito vago nas pontas... Nem de chuva precisava mais para tomar banho. Começou a ter cheiro de gente. Roupinha mais ajeitada. Chegou a sugerir à mãe juntar umas economiazinhas para colocar uma dentadura naquela sua boca dolorida.

- Zeca, só topo namoro se ocê falá com o pai! E ocê só faz barro na porta lá de casa se ele dé consentimento!

Aí Zeca resolveu mostrar que era rapaz sério e cheio de boas intenções. Tinha que agradar à moça de qualquer jeito, fazer bonito pro pai dela e conquistar a sogra. Tudo de uma vez. Em Deus ajudando o casamento tava no papo e a vidinha com futuro ajeitado. No domingo levantou cedo e, cheio de coragem, vestiu a roupinha de ver Deus: calça rancheira, camisa volta-ao-mundo... De botinas foi à fazenda conhecer sua futura propriedade e pedir a danada da autorização para o namoro. Ligeirinho, que nem peba pisando em areia quente. Mas quanto mais perto da fazenda, mais a coragem ia minguando.

Chegou mais suado que tampa de chaleira e a primeira pessoa que encontrou foi a futura sogra. Gorda igual melancia bem adubada. Velha. E calada, mais calada que sino em semana santa. Mas quando Zeca viu o candidato a sogro, aí deu vontade de achar um buraco para tafuiar e nunca mais aparecer. Velho sistemático, com cara de quem amanheceu espirrando canivete, encarou o rapaz de alto a baixo, desde a ponta do cabelo desobediente até as botinas com o bico empinado, passando pelos caquinhos de dentes enfeitados de meleca, o bigodinho meio torto, a camisa mal passada e o cinto de couro cru furado a ferro quente. Rapaz tava mais perdido e sério que cachorro vira-lata dentro de canoa. Mais magro que gato de tapera. Tudo o velho viu num relance enquanto enrolava o bigodão com o polegar e o indicador da mão esquerda. Mãozona direita de vez em quando ajeitava o cabo dum trabuco meio escondido entre as banhas da cintura. Ninguém por perto. Amada lá fora, no alpendre, esperando com ansiedade as boas notícias.

- Qual é sua graça rapaz? O que ocê faz rapaz?

Foi o que primeiro quis saber de supetão o dono daquela propriedade que era o sonho do Zeca da Luzia. Este, sem muito desconfiômetro, até meio animado com o tom das perguntas, satisfeito por ter sido o velho a começar a conversa, recobra um pouco as forças perdidas e responde com certo orgulho no peito, abrindo-se que nem livro de missa:

- Eu sou o Zeca, uai!... Aliás, José Cristóvão!... Antes eu só vivia de zonzeira, agora tô num escritório. O escritório de contabilidade!... Lá em Tabuí!

- E a bufunfa? Enche o bolso? É salário compensatório? Quanto ganha?

- Óia, sem necessitá carecê de muita sinceridade, num é pra mim gambá não, mas ganho o salário mínimo sim sinhô!...

- Puta que pariu! Salário mínimo? Salário de fome? Se manda, pé rapado! Tem autorização minha não! Nem quando galinha ciscá pra frente! Essa merreca não dá nem pra comprar o papel higiênico que ela usa!

O velho estava nervoso demais, até cuspindo na carinha vermelha do rapaz. Zeca saiu fungando igual pinto com gogo, cego de raiva, chutando até a sombra. Humilhado. Ao passar pelo alpendre, vê a moça esperando ansiosa, com olhos perguntativos, pela resposta do consentimento. Olha-a com desdém, levanta uma sobrancelha, faz covinha no rosto e tasca o maior xingamento que lhe foi possível no momento:

- Sua cagona!!!

Eurico de Andrade
Enviado por Eurico de Andrade em 29/08/2006
Reeditado em 29/08/2006
Código do texto: T228087
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Sobre o autor
Eurico de Andrade
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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Eurico de Andrade