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O homem da placa


Eram oito horas da manhã. Marília era coordenadora de um comitê político e estava louca para começar seu dia, seus planejamentos etc. Todos os cabos eleitorais estavam na rua. No comitê só Itamira, sua amiga e assessora de anos.  Itamira sim, velha companheiras de outras jornadas, sabia que Marília precisava de silêncio para poder pensar.
Meia hora depois da saída dos cabos eleitorais, Marília   super concentrada nas suas tarefas é despertada pela sua fiel escudeira.
-Desculpe a interrupção, mais tem um moço aí com cara de “precisão” querendo uma ajuda.
-Bem vejamos o que posso fazer!
 Marília sempre arrumava um jeitinho de ajudar, pois além de achar que era simpático para o candidato, tinha um coração bem grande.
-Bom dia senhor. Posso ajudar em alguma coisa? Perguntou ela ao homem maltrapilho, com cara amarela de quem nada tinha comido.
-Sabe que qui é dona. Meu nome é Divino. Eu sô um homi trabaiadô, num custumo ficá pidino! Mais perdi meu imprego tem um tempo, num consigo outro! Tô ca muié parino, e ói que nóis já tem três...Eu quero é trabaia pra dá di cume pra famia. Será que a sinhora pode dá uma ajuda?
Marília com seu grande coração ficou compadecida. Mas o que fazer com aquele pobre cidadão. Não poderia empregá-lo na campanha. Não tinha aparência, não sabia falar, coitado.... Então perguntou:
-Com que o senhor trabalhava antes?
-Eu sô pintor e dus bão. Pinto parede, pracas, faixas ... de tudo... Sinhora pricisa de vê qui belezura que  faço.
Marília viu a solução! Precisava mesmo fazer uma plaquinha para outro escritório. Ia encomendar o serviço ao pobre.
-Tudo bem preciso de uma placa pequena com estes dizeres( mostrou a frase ao homem). Por quanto o senhor faz e quando pode entregar?
-Óia, pequena assim, fica 15 real e eu entrego amanhã pra sinhora, lá pras duas da tarde.
-Tudo bem! Negócio feito. Pode fazer o trabalho.
-A senhora discurpa o abuso, mais será que sinhora pode me adiantar 5 real, é que eu preciso para comprá a praca e eu tô sem nenhum...
Marília pensou e não viu nada de mais. Se o moço estava precisado...adiantou  o dinheiro!
 O moço saiu com um grande sorriso e muitos, muitos agradecimentos.
Itamira, que acompanhou toda a conversa, disse:
- Você não deveria ter adiantado o dinheiro! Quem te garante que esse sujeito vai aparecer aqui de novo?
-Deixa de ser desconfiada. Acredite mais no ser humano. Eu sei que estou correndo risco, mas não sei não?! Coitado, estava com uma cara de fome! Mesmo se não aparecer, acho que vai usar o dinheiro para uma boa causa.
-Coitado, pois sim! O sujeito tem uma cara de malandro.
-Maldade sua. Vamos fazer o seguinte: Se ele não aparecer te dou uma folga o dia de sua escolha, e se aparecer, você vai me ajudar a comprar uns alimentos pro homem, ok?
-Ok! Estou mesmo precisando de uma folguinha.
Passadas duas horas, olha o homem lá de novo.
-A sinhora me disculpe, mais sabe que qui é...eu já comprei a praca.. mais a sinhora escolheu a cor vermelha e preta pra iscrita, e eu não tenho tinta preta; dá para adianta mais 5 real?
Itamira deu uma olhada para Marília , que nesta hora já estava desconfiando do pobre. Então questionou:
-Quanto custa a tinta?
-Num vô minti para sinhora. O tubinho que eu vô comprá custa só 3 real, mais si a sinhora me adianta 5, eu compro uma misturinha pro armoço...
Marília sabia que estava arriscando muito, mas teimosa como só, adiantou os 5 reais pro moço. Itamira não falou nada, só riu.
No outro dia...
Marília estava fora do comitê, tratando de assuntos externos. Eram quase três horas da tarde.  E ela pensando: Será o moço entregou a placa. Não estava acreditando muito quando Itamira ligou no seu celular.
_ Oi chefinha. Olha o “Vininho” está aqui pra receber o  resto do dinheiro...
_ Vininho! Quem é este?
Itamira tinha um tom de zombaria na voz, como quem está com vontade de rir e não  pode.
_ O moço da placa, Divino; Vininho foi como ele se identificou!.
_ A placa está aí?
_ Está.
_ Então acho que você vai ter que me ajudar a comprar uma cesta básica... riu.
_ Marília, eu disse a ele para voltar mais tarde para receber de você.
-Mas por que? Deixei os cinco reais restantes com você...
Itamira interrompeu:
- Vou pedir para que ele volte daqui duas horas.
_ Itamira, o que está acontecendo, a placa não está boa?
_ É melhor você mesma ver isto. Desligou.
Marília que ficou mais do que intrigada, foi imediatamente para o comitê. Lá chegando encontrou o homem da placa à sua espera. Marília achou interessante: ele não parecia tão pobre, nem tão amarelo. Parecia até mais novo!
-Como vai o senhor. Perguntou Marília, educada como sempre.
- Pode me chamá de Vininho. Taí a praca. Agora é só pagá meus 10 real!
Diante de Marília estava a PLACA (se assim pudesse ser chamada). Um pedaço de alumínio todo amassado e mal pintado com as letras disformes e sem alinhamento. Aquele pedaço “de não sei o quê” só poderia ter sido achado no lixo e o trabalho não poderia ter sido pior. Estarrecida ela perguntou:
_ Mas o que é isso seu Divino?
_ Já falei que pode me chamá de Vininho. Respondeu com ar de deboche.
É a praca que ocê pediu, num tá vendo. Concluiu.
Marília que embora tivesse um grande coração, ficava irritadíssima quando tentavam te passar a perna. Mas com toda a educação voltou-se ao pintor:
- Seu Divino sente-se por favor.
- Vininho! E num quero sentá não. Eu quero é meus 10 real.
- Dez reais, mais que dez reais seu Divino? Primeiro: Nosso combinado eram quinze reais pela placa. Se já te paguei dez reais, logo, eu deveria pagar somente mais cinco reais. E olha, o senhor me desculpe, mais isso que senhor está me apresentando não vale nem cinco reais!
 O homem interrompeu:
- Peraí dona. Primeiro: Nóis combinô  quinze real, mais eu fiz uma pesquisa e vi que eu tava cobrando barato demais. Então resolvi cobrá vinte. E tem mais: a senhora tá disvalorizando meu trabaio, falando que num presta, a dona tá me magoando...
Agora é Marília que interrompe o homem, e desta vez num tom nada cordial.
- Escuta aqui ô Vininho. Sou uma pessoa educada, mas não sou boba e detesto ser passada pra trás...
Ele retruca:
- Agora tá me chamando de malandro é? Eu vô é procurá esse seu candidato e falá pra ele que a funcionária dele tá querendo passá a perna num trabaidô.Num saio daqui sem meus dez real.
Marília já estava a ponto de perder as estribeiras quando Itamira interveio:
- Me desculpe chefinha, deixa que eu trato desse caso.
Vai lá pra dentro e toma uma água.Eu negocio com esse Vininho aí!
Tão nervosa que estava, Marília nem questionou. Saiu da sala. Dois minutos depois Itamira entrou na sala onde ela estava.
- Pronto chefinha, o homem da placa já foi embora!
- O que foi que você disse pro sujeito? Perguntou Marília ainda muito nervosa.
-Bem, eu já estava prevendo que algo errado ia acontecer. Conheço mala de longe. Fui dona de bar, lembra? Então tomei algumas providências. Primeiro fui nos butecos mais próximos daqui, dei a descrição do sujeito. De cara todos sabiam de quem se tratava. Vininho Bocão, é como chamam o “pobre” como você disse. Ele é conhecido por oferecer serviços que não sabe fazer e depois infernizar a vida de quem contratou. Dizem que faz tanto barulho, fala tanto e tão mal de quem contratou, que a pessoa paga só para se ver livre do incomodo. Dizem ainda que o tal Vininho só tem medo de uma coisa no mundo: Da mulher dele.Uma senhora nordestina brava que só vendo! A mulher é trabalhadora vende salgados que ela mesma faz. Fica louca quando fica sabendo das maracutaias do marido. Dizem que quando descobre uma das deles, dá-lhe uma sova tão boa que Vininho fica fora de circulação um bom tempo. Falei pra ele que eu tinha encomendado uns salgados da sua esposa e se ele não sumisse daqui, além de contar pra esposa, eu ainda aí cobrar dela os dez reais que ele te deu o banho. O homem saiu resmungando, mas saiu.
Marília só perguntou:
- Que dia quer sua folga?
Enquanto isso em um bar perto dali, Vininho se queixava aos presentes.
- Êta trem difícil é mexê cum tal de político!
Esse povo num paga ninguém! Eu fiz uma praca prum aí
( uma belezura, céis pricisava di vê), num qué paga não! E o povo que trabaia cum eles,duma falta de educação! É por isso que Brasil num vai para frente
F Cerqueira
Enviado por F Cerqueira em 29/08/2006
Reeditado em 29/08/2006
Código do texto: T228124
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Sobre a autora
F Cerqueira
Goiânia - Goiás - Brasil, 44 anos
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F Cerqueira