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O Haicai e a Poesia

                                                               Rosa Clement, © 2006


Há quem diga que haicai é poesia e há quem diga também que não é. Entretanto, considerando a tendência ocidental de definir haicai como "um poema de origem japonesa composto de três linhas com 5-7-5 sílabas métricas, respectivamente", podemos perceber que os próprios termos da definição já avisam ao leitor da estreita relação do haicai com a poesia. Talvez pela natureza dessa definição, muitos haicais apresentam um aspecto mais descritivo do que poético e, por esse motivo, sentimos que falta em suas linhas uma carga de energia própria da poesia, como Ezra Pond tem observado em "A arte da poesia", ao compará-la com a prosa. Escrever um haicai que preserve seu conceito e ainda mostre beleza poética pode exigir do escritor uma maior habilidade e conscientização das idéias envolvidas.

Segundo o dicionário Aurélio, poesia é tudo isso: arte de escrever em verso; composição poética de pequena extensão; entusiasmo criador; inspiração; aquilo que desperta o sentimento do belo; o que há de elevado ou comovente nas pessoas ou nas coisas; encanto, graça, atrativo. Quanto ao haicai, não consta em suas regras uma que o impeça de transmitir um senso poético em seu conjunto de palavras. Um estudo organizado em 2002 pelo ex-editor da revista americana "Modern Haiku", Robert Spiess (1921-2002), (http://www.poetrylives.com/SimplyHaiku/SHv2n5/features/Charles_ Trumbull.html), conclui que "haicai é poesia marcada por brevidade, realidade, natureza/sazonalidade, duração de um momento, percepção e intuição". Para o principal estudioso haicaista brasileiro, H. Masuda Goga (1911), haicai é "poesia de características universais e adapta-se a qualquer cultura do mundo". Vale mencionar, no entanto, que nem todo poeta é haicaísta, mas todo haicaísta pode ter um poeta dentro de si. Seja como for, é com ele que tiramos nossas conclusões sobre o que vem a ser haicai.

Ao lermos um haicai, podemos perceber a tendência do autor para a descrição de uma cena e a inclusão de uma sensação a ser absorvida pelo leitor — o chamado "momento". Nesse sentido, a fórmula do conceito, tantas vezes repetida e aplicada, parece soar nos ouvidos com uma certa rigidez. A impressão que temos é a de que falta nesses poemas a maleabilidade das palavras própria da poesia. Certamente, escrever um haicai sem o auxílio de métaforas, símiles e animismos, e ainda fazer com que a poesia seja realçada, faz com que os limites de nossa criatividade sejam postos á prova. Nem todo poema, no entanto, precisa fazer uso desses artifícios para expressar o belo, mas mostrar o novo, o único, o ainda não dito, mesmo que tudo o que escrevemos seja uma cópia de algo já existente.

Fazendo uma releitura de alguns haicais de Basho (1644-1694), Buson (1716-1783), Issa (1763-1827) e Chiyo-ni (1703-1775), assim como de um ou outro haicaista moderno, é possível perceber que aqueles haicais que incluem um tom mais poético parecem transmitir maior vivacidade e maior intensidade de expressão, deixando sua mensagem mais duradoura na mente do leitor. Para exemplificar nosso pensamento, vejamos primeiro alguns haicais que soam principalmente como uma declaração ou uma afirmativa de uma observação ou acontecimento, como esse de Basho:

"Autumn moonlight—
a worm digs silently
into the chestnut."
(In: The Essential Haiku, 1994)


Lua de outono—
uma minhoca cava silenciosamente
dentro da castanha


Esse é um belo haicai — afinal é de Basho! A presença da poesia é muito sutil, considerando que o haicai se limita a descrever uma imagem na forma como ela acontece e incluir um momento de percepção. A leitura parece mais séria, mais formal quando a frase se apresenta tão bem construída sintaticamente como essa. Segue outro exemplo, desta vez, um haicai de Buson.

"Winter bareness—
little birds seeking food
in the patch of green onions."
(In: Haiku Master Buson, 1978)


Aridez do inverno—
passarinhos buscando comida
no canteiro de cebolinhas.


Como Basho, Buson estabelece a cena de forma descritiva, embora a segunda frase apresente um gerúndio em ambas as versões, o que, segundo os críticos, é preferível evitar. Mas o haicai descritivo também é muito comum entre escritores modernos, como esse de Alan Pizzarelli:

"in the stream
a shopping car
fills with leaves"
(In: Haiku Moment, 1993)


na correnteza
um carro de compras
enche-se com folhas


ou como esse bem brasileiro de Yara Shimada:

"Primavera se vai
Busco um lugar mais fresco
para as orquideas..."
(In: http://www.nippobrasil.com.br/zashi/haicai.html).


Por outro lado, podemos encontrar haicais onde a poesia desponta de forma menos sutil. O seguinte haicai, também de Basho, mostra uma outra maneira de escrever e descrever uma imagem, permitindo uma maior flexibilidade e visualização do haicai de forma mais leve e mais poética.

"I don´t know
which tree it comes from,
that fragrance."
(In: The Essential Haiku, 1994)


Não sei
de qual árvore vem,
aquela fragrância.


Os haicais de Issa são bons exemplos de haicais que contém essa suavidade poética:

"Don´t worry, spiders,
I keep house
casually."
(In: The Essential Haiku, 1994)


Não se preocupem, aranhas,
Eu limpo a casa
casualmente.


"A huge frog and I,
staring at each other,
neither of us moves."
(In: The Essential Haiku, 1994)


Um enorme sapo e eu,
olhando um ao outro,
nenhum de nós se mexe.


É frequente encontrar uma afinidade poética nos haicais de Chiyo-ni, uma das mais brilhantes escritoras japonesas de haicai:

"To the one breaking it --
the fragrance
of the plum."
(In: http://neca.tripod.com/haiku.htm)


Para aquele que a quebra
a fragrância
da ameixa


ou ainda:

"The morning glory!
It has taken the well bucket
I must ask elsewhere for water."
(In: http://www.ancientworlds.net/aw/Post/193290)


A corriola!
Tomou conta do balde do poço
Devo pedir água em outro lugar.


A flor "morning glory" tem um papel importante nos poemas em inglês, pois pode expressar também a idéia de uma "manhã gloriosa". Infelizmente esse sentido se perde quando traduzido para o português, como corriola. Seguem mais dois exemplos por Masuda Goga e de minha autoria, respectivamente.

"À noite... sozinho...
me deixam mais pensativo
os cantos de insetos"
(In: http://www.kakinet.com/caqui/goga.shtml)


a velha ponte
os pássaros e eu
já amigos


Com base no exposto, vemos que a tendência do haicai é ser escrito em forma declarativa ou descritiva, mas injetar uma dose de poesia em suas linhas só enriquece sua leitura. Seja como for, a beleza da cena e a sensação do momento devem estar presente para que um poema possa ser chamado de haicai. Não há dúvida que a poesia produz um efeito mais flexível e, portanto, mais gracioso nessa forma de arte tão pequenina. É preciso concordar que escrever um haicai que apresente traços poéticos não é uma tarefa fácil e, sendo assim, é provável que a maioria dos haicais ainda por serem escritos continuarão mantendo algum rigor descritivo devido à sua própria definição, que criou um hábito em seus escritores. Raciocinando sob este ponto de vista, podemos afirmar que haicai é mais do que apenas um registro, pois nada o impede de incluir em suas linhas uma energia poética que o transforme em poesia.

Obs.: Os haicais foram traduzidos para o português pela autora.

Bibliografia:

Dicionário Aurélio Eletrônico - Século XXI, 3a. Ed. 1999.

POUND, Ezra. A arte da poesia ensaios de Ezra Pound. São Paulo, SP: Ed. Cultrix, 1991. 164p.

The Essential Haiku. 1994. Editor: Robert Hass. Ecco Press. 1994. 340p.

ROSS, Bruce. 1993. Haiku Moment - An Anthology of Contemporary North American Haiku. Boston: Charles E. Turtle Company, Inc., 331p.

SAWA, Yuki; Heian, Edith M. Shiffert. Haiku Master Buson. EUA: Heian International, Inc. 1978. 178p.

TRUMBULL, Charles. An Analysis of Haiku in 12-dimensional Space. http://www.poetrylives.com/SimplyHaiku/ SHv2n5/features/Charles_Trumbull.html. Acesso em 28/12/2005.

Jornal Nippo-Brasil. http://www.nippobrasil.com.br/zashi/haicai.html. Acesso em 28/12/2005.

Haiku Cupboard. http://neca.tripod.com/haiku.htm. Acesso em 28/12/2005.

Kakinet. http://www.kakinet.com/caqui/goga.shtml. Acesso em 28/12/2005. 

(http://www.sumauma.net/artigos/artigo-rosa3.html)
Akasha De Lioncourt
Enviado por Akasha De Lioncourt em 02/09/2006
Código do texto: T231364
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