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LAÇOS DE TERNURA

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Naquela tarde de setembro, Nancy e Laura levaram seus filhos ao Parque das Nações para festejar os trinta e cinco anos de Nancy. Acomodaram-se em uma das mesas de piquenique e, enquanto tiravam os sanduíches e biscoitos da cesta, olhavam suas crianças que brincavam nas imediações.

Brindavam sua amizade com garrafas de água mineral, quando Nancy notou os novos brincos de Laura. Nos treze anos que se conheciam, Laura sempre adorara brincos de pingentes. Nancy a viu usar pares e mais pares: espirais de cristal azul, fios de gemas coloridas, pérolas rosa - claro. Havia um motivo para Laura gostar de pingentes e estavam nas imagens da infância que a tinham mudado para sempre.

Era um dia de primavera, Laura estava na sexta série. A sala de aula estava decorada alegremente, comemorava-se a festa da primavera. A professora Elisa estava diante da turma, o cabelo castanho avermelhado caindo pelos ombros, os bondosos olhos cor de mel brilhando. Mas eram os pingentes que mais encantavam Laura – cordões dourados em forma de gotas enfeitados com pérolas. Mesmo de seu lugar, na fila de trás, Laura podia ver aqueles brincos reluzindo ao sol.

A professora lembrou à turma que aquele dia também era destinado à entrega de notas do bimestre. Tantos os alunos como os pais deveriam participar da entrega. No quadro negro uma tabela em ordem alfabética destinava dez minutos a cada aluno e família.

O nome de Laura estava no final da lista. Mas, isto não tinha muita importância. Apesar da carta enviada a casa lembrando a reunião, Laura sabia que os pais não viriam. O pai de Laura era alcoólatra e naquele ano seu vício aumentara. Em muitas noites Laura adormecera ouvindo a voz alta do pai, os soluços da mãe, e o bater de portas.

Laura passou o tempo todo no corredor que dava para as salas de aula, olhando para a porta de sua sala onde os pais se aglomeravam com seus filhos. Muitos os recebiam com sorrisos, outros orgulhosos e, às vezes, até com abraços. Laura imaginava como seria se seus pais

Quando todos os outros nomes tinham sido chamados, a professora Elisa abriu a porta e acenou para Laura. Calada ela foi para a sala e sentou-se em uma cadeira, à frente da mesa da professora, cheia de fichários e trabalhos dos alunos. Curiosa ficou olhando, enquanto a professora, sorrindo, consultava seu boletim. 

Constrangida pelo fato dos pais não terem comparecido, Laura cruzou as mãos e olhou para o chão. Levando a cadeira para junto da garota abatida, a professora suspendeu o queixo de Laura para poder olhá-la nos olhos.

— Em primeiro lugar – disse a professora – quero que saiba o quanto gosto de você.
Laura levantou os olhos. No rosto de sua professora viu o que raramente via: compaixão, amor e ternura.

— Em segundo lugar – continuou a professora – você precisa saber que não tem culpa de seus

Novamente Laura olhou para o rosto da professora. Ninguém jamais falara com ela assim.

— Em terceiro lugar, você merece uma reunião, quer seus pais estejam aqui ou não. Tem o direito de saber seu aproveitamento e que acho-a maravilhosa.

Nos minutos seguintes a professora Elisa realizou uma reunião só para Laura. Mostrou-lhe suas notas. Passou os olhos pelos trabalhos e projetos da menina, elogiando o esforço e confirmando os seus pontos fortes.

A garota não sabia exatamente quando, mas em algum momento naquela reunião ouviu a voz

Enquanto as lágrimas enchiam os olhos de Laura, o rosto da professora ia ficando turvo e indistinto, a não ser pelos pingentes de espiral dourados e pérolas, que cintilavam intensamente. Foi então que Laura percebeu pela primeira vez que era digna de ser amada.

Sentada na grama, Nancy observava a amiga e pensava em todas as ocasiões que Laura usara

Nancy também fora criada com um pai alcoólatra e durante anos enterrou suas histórias de infância, até que encontrou Laura no corredor da Universidade. Laura a fez ver que a jóia cintilante da auto-estima é uma dádiva de Deus que todos merecem e que mesmo na vida adulta, não é tarde demais para se usar do amor próprio recém-descoberto.

Nancy e Laura passaram o resto da tarde limpando leite derramado, elogiando cambalhotas e deslizando em escorrega muito pequeno para elas.

Foi num desses momentos que Laura entregou a Nancy uma caixinha; um presente de aniversário, embrulhado em papel vermelho florido e enfeitado com um laço dourado. Ela o abriu. Dentro havia um par de brincos de pingentes. ®Sérgio.

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Laços de Ternura é baseado no relato da professora Nancy.

Se você encontrar erros (inclusive de português), relate-me.

Agradeço a leitura e, antecipadamente, qualquer comentário. Volte Sempre!

Ricardo Sérgio
Enviado por Ricardo Sérgio em 06/09/2006
Reeditado em 06/08/2013
Código do texto: T234437
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Ricardo Sérgio
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 69 anos
1281 textos (21212644 leituras)
7 e-livros (8554 leituras)
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Ricardo Sérgio