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Maionese global

Quando esse homem grave
e cheio de responsabilidade
Enruga a testa,
e ajeita os cabelos grisalhos
Sua cara de menino o trai:
ele quer sair dali,
Daquela reunião enfadonha
Para jogar bola de gude com os amigos.

Mas exigem a sua atenção,
Ele, o representante do povo,
e da nação
e de um monte de fábricas belicistas.

Enfim, dá  o sinal verde e a carta branca
Para que se inicie a operação,
cirúrgica, matemática, financeira,
Alguns mortos, alguma destruição,
Mas depois a recompensa,
A paz ainda que débil,
e bons negócios,
Os lucros, os "profits".

A domesticação, a reconstrução,
o treinamento da mão de obra especializada,
O capital de giro, o giro das cabeças cansadas,
E tanto progresso, tanto,
que não dá  para descrever.
Muitas máquinas modernas,
De fazer tudo automático,
A louça, nem pensar, é descartável,
A lata, nem olhar, é para ir para o lixo,
O plástico, pode esquecer,
temos para toda hora,
E circuitos impressos,
e cartuchos de tinta
De cinqüenta dólares,
Tudo para descartar,
Para jogar fora.
Fast food e fast make,
Foi tão rápido, senhores,
Que acho que estava pronto
Desde ontem.

Mas eu não,
Nunca estarei pronto,
Seguro, acabado,
uma obra prima terminada,
eu sempre serei um tonto,
Um sinistro, um errado,
que pede  água da bica
 na lanchonete,
Quando devia pedir
Bebida gaseificada.

Então, mero transeunte pela vida,
Sou apenas mercado,
Pingo nas tabelas das estatísticas
Mas não me reduzam muito as rendas
Ou não poderei consumir.

Sou fumante
Vício que leva às tumbas,
Mas sustento a American Tobacco.
Uso óleo de soja,
A Monsanto depende de mim,
Vou ao banheiro com regularidade,
Alguma grande empresa
me tem em alta estima,
Pois sou um grande usuário
Do seu papel sanitário.
Imaginem depender de tecnologia avançada,
Importada, norte-americana,
Para um simples papel sanitário...
Ah, se não fossem elas,
As grandes corporações,
Usaríamos sabugo de milho
Para a higiene mais íntima,
Pitaríamos pitinho de barro,
Ou cigarro de enrolar,
Como o velho Jeca Tatu,
Do saudoso Monteiro Lobato,
Teríamos a barriga grande da opilação,
E blastomicose no buraco da saída...

Então é bom esse mundo pasteurizado
Essa vida de plástico, de apitos eletrônicos,
De bipes, de dígitos, de dáctilos, de garras,
Com as coisas mais simples e mais bobas,
Da maionese ao quetchupe,
Do sabão em barra, ao pó de sabão,
Do creme dental às chamadas telefônicas,
E aos bolinhos de carne que se chamam burguers
Tudo muito sofisticado que requer alta tecnologia.

Caramba, como o mundo mudou!

Minha mãe fazia maionese aos domingos
com as suas próprias mãos...
Tudo o que é preciso,
É gema de ovo, azeite, temperos,
Bater um pouco, e está  pronto.
Minha avó fazia macarrão,
farinha, ovos, amassar com as mãos,
com o rolo,
Cortar em tirinhas, secar.

Mas hoje,
Quem tem tempo de fazer macarrão, maionese?
O tempo é para trabalhar
Mães, tias, avós, irmãs,
Para poder comprar macarrão,
Para poder comprar o pão,
Para poder morar,
Para ficar nos engarrafamentos,
Para ter dignidade.
É moço, mulher precisa trabalhar,
Pegar no pesado, carregar fardos,
Já  não são tantos os fardos
Que elas têm que carregar?
Maionese, quetchupe, sabão,
Só multinacionais podem fabricar,
Com esmero e tempero,
Com normas, com higiene,
Para ter qualidade garantida.
Normas que ninguém verifica,
Qualidade que ninguém questiona,
Mas empresa com nome tão bom
Com certeza só faz coisa boa,
E ainda tem conservantes,
Espessantes, estabilizantes, e colorantes,
Quem és tu para duvidar
Da capacidade dessa gente?
Tu és só o mercado,
Então faça a tua parte,
Compre, pague sem reclamar,
Consuma e gere impostos,
Consuma e crie empregos,

Uma simples maionese
Que era feita em casa,
E comida na mesma hora,
Pote lambido pelas crianças.

E tudo isso acontece
Porque o homem grave
Grisalho e com cara de menino
Toma decisões com segurança
E depois corre para o campo de golfe
Pois hoje não poderia jogar bola de gude.
Numa penada, invade um país.
Com outra corta créditos para um povo.
Numa terceira manipula os juros para o mundo.


Quando penso em Gandhi
Levando o povo para o mar
Para fazer sal de cozinha,
Ou tecendo algodão com as mãos,
Ou carregando penicos cheios em seu ashram,
Me admiro: velhinho porreta!
Teimoso como a peste!
Pena que ele se foi,
Mas seus filhos hoje são feras,
Levam um som arretado,
E detestam maionese.

Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 10/09/2006
Código do texto: T236751

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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