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- Ôta mundo véio sem portera! A gente rema, rema e vem dá na mesma plaia, sô!
 
Era Jurema gungunando com Jurema enquanto subia, contando os passos, a ladeira íngreme da Rua do Assobio. De tanto subir e descer aquela ladeira é que ela engrossara as pernas.
 
Jurema saíra do seu cantinho da Rua do Assobio, lá no cantinho de Santa Maria do Tabuí e fora ganhar o mundo. Deixou para trás a Legião de Maria, a Conferência Vicentina, a missa de quase todos os dias e um pai muito devoto de tudo quanto é santo e mais ainda de Deus, nosso Senhor.

- Vô'imbora, pai! Aqui num dá mais não!... É runho dimais da conta!
 
Pai ficou triste. Choramingou, esperneou, mas como bom cristão, tinha que se acostumar com as adversidades da vida. Jurema, filha mais velha, se mandou com aquela boniteza toda. Ele ficou cuidando das donzelices das quatro mais novas, criadas sem mãe. Pobreza muita. Miséria quase batendo à porta.

Cada vez mais seu Antão ia levando as filhas para dentro da igreja. Ouvir sermões do Padre Anacleto. Aquele vigário era dos bons. Dava conselhos nos sermões e no confessionário pras filhas de todo mundo. Moça de batom, brincos, pulseiras, vestido decotado, saia curta, era só tentação pros homens. Mulher tinha que se dar valor e deixar de usar essas coisas do diabo. Quem andasse assim era inferno na certa. Todas tinham que ir pra igreja de véu e sem esses enfeitamentos. E ai daquela que ficasse sem o veuzinho! Não comungava enquanto não tivesse um confabulamento com seu vigário. Rigoroso o Padre Anacleto. Já velho, não tinha condições nem coragem de implicar com as injustiças dos grandes e com a roubalheira dos políticos. Como também não se aventurava nem a olhar pr'os atributos donzelísticos, ficava então preso a essas besteirinhas bobas. Detalhes.
 
Antão era fã número um do Padre Anacleto. Aquilo é que era homem santo, que dizia coisas que ninguém sabia dizer!
 
- Um grande enducadô!

Filhas de Antão, como toda a donzelice bem comportada ou não tanto, de Tabuí, iam, anos e anos, sendo educadas e encucadas, a torto e a direito, pelos sermões cansativos do vigário. Ele mesmo, o Antão, só fazia vigiar as meninas e cuidar da donzelice delas. Miséria cada vez mais perto. Ignorância fez ninho naquela casa sem escola.

- Marmanjo aqui num entra! Num criei fia pra sê pasto de ninguém! Quero barbado fazeno barro na porta da minha casa não!

Pois bem. Jurema sumiu. Ficou quatro anos fora. Só uma vez mandou carta: "pai, tô no Rio de Janero ganhano muito dinhero..."

Mas voltemos à moça Jurema subindo a ladeira da Rua do Assobio rumo da sua velha casinha. Toda requebrante e perfumada. Pulseira no braço. Brinco na orelha. Bolsinha, daquelas fáceis de rodar, a tiracolo. Vestidinho verde cruzado com roxo, colado no corpo, apenas tapando o essencial. Meninotes, assim como quem não quer nada, atrás da mocinha, só pra sentirem o seu cheiro e verem os seus fundos. Calcinha vermelha. Rendada. Chegou na velha casinha, nem bateu. Foi entrando. Alvoroço danado. Frejo quissó. Irmãs rodearam a moça e caíram de perguntamentos em cima. Ninguém entendia o porque de tanta chiqueza. Cada uma querendo saber onde arrumara tanta roupa, tanto vestido decotado, tanta sainha, blusinha coladeira, calcinhas regateiras, meias gigantes, sapatos coloridos, salto alto, bolsinhas, perucas, brincos, pulseiras, batons, perfumes, pós, ungüentos e balangandãs variados.
O pai só de butuca. Ressabiado. Dúvida muita. Pulga atrás da orelha. Honra quase indo embora. Só esperando hora de voar. Querendo ver onde a coisa ia dar, Antão fica rodeando feito mosca varejeira. Filha tão rica e ele naquela pindaíba toda...

Presentes pra todas as irmãs. Brincos pruma, calcinha rendada proutra, pulseira pra terceira e assim por diante. Até que chegou a vez do Antão. Jurema, vendo o pai meio ressabiado, quis agradá-lo mais. Entregou-lhe uma caixa de sapatos. O velho abriu e quase caiu de costas. Dinheiro! Dinheiro vivinho da silva! Caixa cheinha de notas estalando de novas.

Tiveram que trazer álcool pro Antão cheirar. Tanto foi o susto. Recomposto, consolado até a alma, bem abraçado com a caixa da fortuna, o velho resolve tirar a pulga de trás da orelha, lembrando do Padre Anacleto e dos seus ensinamentos.

- Fia, o que qui'ocê faiz lá na cidade memo?...

- Ãh?... Ah, pai!... Num ti contei, né? Sacumé, né pai? Cidade grande, sem imprego... Virei prostitute!

- O que, fia?

- Prostitute, pai!

-  Ah, bão, Jurema! Inda bem! Pensei qui sesse prostestante!...

Eurico de Andrade
Enviado por Eurico de Andrade em 15/09/2006
Código do texto: T240719
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Sobre o autor
Eurico de Andrade
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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