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Onde foi parar a peteca da noiva?

Um dia Bentão arranjou namorada. Gente de fora, pois que as da terra, se sérias fossem, dele fugiam. Não que fosse feio ou desarranjado. Não. Bentão até que era ajeitado, andava bem arrumado, trabalhava muito... Mas por que as moças de Tabuí não olhavam para ele com olhos de amor?

- Bentão é invicioneiro – dizia o povo.

E como o povo não inventa, só aumenta e quando o povo fala ou é, ou foi, ou será, o moço – dizia-se - era responsável por um monte de moças mal encaminhadas da cidade. Saíam um dia ou uma noite com ele, caíam na boca do povo, pois Bentão contava pra todo mundo muito mais do que não fez, mas disse que fez, do que o que fez. Aí passavam a ser olhadas com olhos tortos, as amigas se retraiam, as mães seguravam suas donzelas, apareciam conversas atravessadas e o diz-que-diz só aumentando. Por isso o cartaz de Bentão foi chegando a zero, com o moço ficando mais sujo que puleiro de pato. A ele, então, só sobravam as moças de fora, quando aparecia alguma na cidade e se engraçava pro seu lado. Foi quando surgiu a Manoela. Uma fortona, que não chegava a ser gorda, e compridona, bem maior que o Bentão. Loira, bela feição, bem vestida, moça pra lá de boa. Ia ser professora do grupo escolar. Gente fina e intelectual achou Bentão bonito e resolveu jogar um piscado pro lado dele, sem conhecer a fama do rapaz.
À piscadela, bem captada, Bentão já soltou aos quatro ventos:

- A professora tá apaixonada por mim e qué marcá encontro.

Após a conversa do primeiro encontro, à noitinha, no domingo, em plena praça, no banco da “Casa Guy – a loja dos amigos”, Bentão ficou apaixonado pela professora. Aí emudeceu, sufocando aquela boca fofoqueira.

- Minha boca é um túmbalo. Conto nada não, uai...

Ninguém imaginava que a paixão, quando chegasse, poria mudo o moço. Os amigos provocavam e nada. Até o dia em que Bentão apareceu de olho roxo e namoro terminado. A turma queria porque queria saber o motivo do quiprocó de qualquer jeito. Depois de insistência de vários dias, ele não agüentou e, sufocado, soltou o verbo.

- Eu tava jogando peteca com a minha noiva, no dia em que nós foi com as professora do grupo escolar fazer piquenique na fazenda do prefeito...

- Sim. E aí, Bentão?

- Aí todo mundo resolveu jogá peteca tamém. Apareceu peteca de tudo quanto é cor. E entre uma petecada e outra, eu mais minha noiva era um amasso aqui, outro ali, um beijinho pra cá, outro pra lá, e o negócio só ficando danado de bão. Eu, doido pra mexer na documentação da minha noiva, mas com medo de avançar demais da conta, só falei bem, vamo enchê a barriga de bebê hoje? Ela ficou toda sem jeito e, com aquela força que Deus deu, tascou um tapa tão forte na peteca, que a coisa foi cair lá no meio das vacas do prefeito...

- Marrapá, vai peidá n'água, vai! Até agora cê num falô do oio roxo, sô!

- Aí, menino, põe sentido, a gente procuramo aqui, procuramo ali e a peteca sumiu. Isalou. Veio mais gente ajudá. Era peteca de estimação, a da Manoela. Daí a pouco, todo o corpo docente do grupo escolar tava atrás da peteca de pena roxa da Manoela.

- A não, sô! Larga mão disso! Até agora cê tá enrolano a gente, home!

- Não, moço! Pêra aí, uai! De repente, olho pro traseiro duma vaca, uma holandesa bem fortona, peitaria arrastando pelo chão, e quem eu vejo, presa entre o rabo da dita-cuja e sua perseguida? Isso mesmo, a petequinha da Manoela tava debaixo do rabo da vaca do prefeito, bem escondidinha e apertadinha. Aí é que deu merda. Foi azá demais da conta, sô! Eu só fiz perguntar, com toda inocência do mundo, enquanto segurava o rabo da vaca, levantano o danado, pra mode sortá a peteca da minha Manoela daquele sufoco:

-Amô, essa aí é paricida com a sua, não é não?

Eurico de Andrade
Enviado por Eurico de Andrade em 18/09/2006
Código do texto: T243288
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Sobre o autor
Eurico de Andrade
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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Eurico de Andrade