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O Assassinato do Pato do Padre Anacleto

Cirilo e Bentinho, talvez pelo fato de serem os únicos fanhos de Tabuí, resolveram juntar forças. Aonde um ia, lá estava o outro, feito sombra. Na saúde e na doença. E na gandaia. Em noites de seresta, quando, ao cantar, fanho não fanha, iam molhando o bico até que, dia amanhecendo, os dois eram, vez ou outra, encontrados, de cueca, na porta da igreja, fazendo discurso pras beatas que chegavam pra missa das seis ou, ironia, contando piadas de gago.
Até que, numa noite, lá pelas tantas, resolvem dar outro rumo na seresta. E Cirilo falou, na língua de fanho:

- Bentinho, tô cum fome, sô!

- Ih, rapaz! Nem me fale! Eu tamém!... Num tô mais guentano!

Mas o que comer sem dinheiro e naquela hora da madrugada?

- Só tem uma solução, Cirilo! Farinha eu já tenho lá em casa! Vamo roubá um pato do padre Anacleto e fazê uma sopa!...

- Mas, rapaz, e cumé que a gente pula aquele muro daquela artura?

- A gente dá um jeito, uai!

E lá foram. Rodearam a igreja até chegarem aos fundos da casa paroquial, longe da rua e de olhares indiscretos. Padre Anacleto, famoso criador de patos, já, há muito, se prevenira contra eventuais surrupiadores dos seus penosos. Fizera muro de mais de dois metros de altura.

- Bentinho, cê é mais magro, cê pula! Eu faço cadeirinha com as duas mão pra te jogá do outro lado!...

Bentinho, doido pra enfiar uma sopa de pato goela abaixo, nem desconversou. Aceitou a missão. Cirilo juntou as mãos cruzadas na altura da virilha e Bentinho colocou ali o pé direito. Tudo repentino. De um golpe do Cirilo, Bentinho voou por cima do muro e caiu sentado bem em cima de um pobre pato que, inocentemente, dormia, no seu canto, o sono da madrugada. O bichinho, antes do esmagamento, apenas teve tempo de gritar quac!!!...

O Cirilo, com o ouvido pregado no muro, para ouvir os movimentos do outro lado, entendeu errado. Pensando que era o amigo fanho querendo saber qual pato pegar, respondeu nervoso, mais fanhoso ainda:

- Quarqué um, sô! Vai virá sopa mesmo! E é ocê que tá veno aí, num é ieu!... Iscói quarqué um e vãombora, sô!...
Eurico de Andrade
Enviado por Eurico de Andrade em 18/09/2006
Código do texto: T243296
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Sobre o autor
Eurico de Andrade
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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Eurico de Andrade