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Na missa ninguém põe o pinto pra fora

Lá em Tabuí, querendo ou não, a pessoa que tá mais em cima da carne seca é o padre Anacleto. Quase todo mundo faz reverências a ele. Qualquer fuá na cidade, sempre chega aos seus ouvidos. E a sua fama, de homem bom, embora rigoroso e intransigente com quem fere os dogmas da Santa Igreja, cresce sertão a fora. E o senhor vigário, aos trancos e barrancos, vai levando a vida, como Deus quer. Falando mal o Português, embora tenha chegado da Itália pra mais de vinte anos, trabalhando muito, careca aumentando, engordando cada vez mais e a barriga crescendo. Não que sua mesa seja farta. A pobreza da cidade atinge também quem cuida das almas. O negócio é que dia sim, dia não, tem missa na roça. E, em cada lugar que chega, é festa das mais bacanas. Frango, o prato principal. E ele devora um frango tranqüilo, seja acompanhado com quiabo, pequi, mandioca, inhame, angu, ou sem companhia mesmo. O povo até fala que, por lá, cemitério de frango é a barriga do padre Anacleto. Vive só o homem de Deus, celibatário convicto desde a juventude, tendo apenas a companhia da velha Nicota que vai à casa paroquial toda manhã para arrumar a casa e fazer o almoço, quando precisa. Gercino é o sacristão. Rapaz novo ainda, mas entende tudo de missas e de cerimônias de igreja. Quase sempre acompanha o vigário nas suas andanças pelas roças. Único problema do sacristão, além de não conseguir arrumar namorada, é exagerar nas doses do vinho de missa que surrupia do padre Anacleto e manda pro peito, a ponto de ajudar nas missas meio grogue.

Pois bem. Um dia, padre Anacleto vai, com Gersino, celebrar missa na Perdição. Mesmo povinho de sempre, vendendo piedade. De repente, quase na hora da consagração, burburinho lá fora. E entra aquela horda na igreja, com olhares interrogativos e respiração ofegante.

- Ma che!!!... Quequéisso, gente?!... – pergunta, gritando, o padre Anacleto, interrompendo a missa.
Os invasores olham um pro outro, com cara de susto, ninguém querendo falar, até que o Vitrolino resolve abrir o bico.

- É que a gente pensemo que o sinhô tinha morrido, sô vigário!...

- Io? Ma per che?

Aí Vitrolino sentiu espaço para esclarecer a história. Fora o Zé Lapada o culpado por todo aquele rebuliço. Corria fama de que ele era o maior mentiroso das redondezas, mas, mesmo assim, naquele dia, recebeu crédito. Chegando a Tabuí a galope, cavalo pingando suor, encontrou, logo na entrada da cidade, o Expedito e a mulher Gravitolina, consertando a cerca de bambu do seu lote.

- Vem cá, Zé Lapada! Vem contá umas mentiras pra nóis, enquanto a gente descansamo!

- Hoje não posso não, sô! Tô vino lá da Perdição. Padre Anacleto morreu e vim avisá o povo...

- É divera?... Meu Deus do céu! Tadinho do padre Anacleto! O que será de nóis?...

Gravitolina deixou o marido engasgado, pronto para o pranto, e já saiu chorando para contar a triste novidade à vizinhança.

- E ondé qui tá ele, home de Deus?

- Tá lá, na igrejinha da Perdição, em cima de um banco, seno velado e chorado pelo povo.

E Zé Lapada, feito herói de novela, partiu de novo a galope, chicoteando o pangaré, rumo da praça da matriz. A notícia correu como fogo em palha seca. Não demorou meia hora tava o povo chorando em massa e, a cavalo, a pé, de charrete, caminhão, fusca, perua, chimbica e o diabo a quatro, foi, todo mundo que podia, baixar na Perdição, quase légua e meia de distância. Chegaram a tempo de assistir mais da metade da missa celebrada pelo ex-defunto, enquanto Zé Lapada, tranqüilo, esperando o circo pegar fogo, molhava a goela com água que passarinho não bebe, num boteco da praça da matriz.

Senhor vigário, a princípio, não gostou muito da história não, mas, na hora do Pai Nosso, já tava rindo embutido da criatividade do Lapada. Igrejinha empetecada de gente, dentro e fora, suor escorrendo, fedentina aumentando... nem chegou a hora da comunhão, outro rebuliço. O povo já tava acostumado, durante as rezas e missas, a ver entrar bicho na igreja. Passarinhos, galinhas, gatos e cachorros eram fregueses assíduos. Até uma porca e cinco leitões resolveram, numa missa, marcar presença. Mas nesse dia, mesmo não cabendo mais ninguém, um pinto pelado, desgarrado, achou caminho para entrar. E, porque desgarrado estava, piava um pio tão estridente e choroso que fazia eco doído no ouvido de cada fiel. Aquilo foi pondo padre Anacleto nervoso e o povo agoniado. O vigário tolerou enquanto pôde, até que explodiu, para susto do povaréu:

- Cadê os homes desse lugar? Dio mio! Tanto home na minha frente e ninguém é capaz de botar o pinto pra fora?!!! Porcamiseria!!!...


Eurico de Andrade
Enviado por Eurico de Andrade em 22/09/2006
Código do texto: T246702
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Sobre o autor
Eurico de Andrade
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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