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Faça o que eu mando, não faça o que eu faço

FAÇA O QUE EU MANDO, NÃO FAÇA O QUE EU FAÇO

— Isso não é certo! — vociferava Fernanda — Que direito você tem de fazer isso com ele? — e balançava negativamente a cabeça, com os olhos furiosos, parecendo dois traços horizontais.
— Não tenho culpa se você não entende de amizade! — respondia Kátia com certo desdém.
— E o seu namorado? O que ele acha disso?
— Ele não liga. — falava ela tranqüilamente — São ótimos amigos e um confia no outro.
— Ele não liga de levar chifre, é? — Fernanda era do tipo que apelava mesmo — Jamais eu trairia o meu marido mesmo que fosse com sua segunda personalidade! Jamais!
Kátia limitou-se a olhá-la com desprezo, virou as costas e voltou ao trabalho. Só porque ela e Roger, seu ex-namorado, eram muito amigos, ficavam horas ao telefone, ela ganhava trufas dele e ele ganhava cocadas dela, só porque ela passava mais tempo com o amigo do que com Afonso, seu atual namorado e melhor amigo de Roger, não significa que estava dando um capacete de viking para o namorado!
Fernanda fustigava violentamente a menina com o olhar em brasa e comentários carregados do fogo do inferno da ira. Ela não podia deixar de fazer a verdade prevalecer. Como aquela pirralha podia se achar tão esperta, madura e bem resolvida a ponto de ter uma amizade assim com o ex-namorado? Isso ela não engolia, não admitia!
Após o expediente Fernanda passou na sorveteria que ficava no caminho do ponto de ônibus. Precisava tomar um sorvete de abacaxi para tentar se refazer da exasperação daquele abacaxi que descascara. Na segunda graciosa lambida que deu no sorvete, tomou um susto que a fez quebrar a casquinha e melecar a mão.
De boca aberta, olhos arregalados, as duas bolas do sorvete no chão e os cacos da casquinha na mão, ela olhava para Mauro, seu primeiro namorado, seu primeiro amor, seu primeiro homem de verdade, seu eterno Apolo, o único que fez suas pernas tremerem, suas mãos suarem, o primeiro homem que a deixou nua com o olhar.
Sem esboçar reação, aceitou passivamente a gentileza de Mauro que limpou sua mão e pediu para ela outro sorvete de abacaxi com duas bolas. Sua mãozinha de princesa entre aquelas mãozonas peludas e rudes fez o chão evaporar-se sob seus pezinhos.
Naquela noite Fernanda chegou em casa quase onze horas dando uma desculpa esfarrapada para Nicolas, seu esposo. Deu um beijo de boa noite em Guilherme e Julia, seus filhos, e foi dormir. Óbvio que não conseguiu.
As fantasias borbulhavam em sua mente, um calorão apoderou-se dela, podia sentir Mauro agarrando-a com seus braços fortes e peludos, rasgando sua roupa e olhando-a com aqueles olhos de tarado... levantou-se e foi para a cozinha tomar um copo de água gelada. Não resolveu. Tomou um banho frio e sossegou um pouco.
Durante o banho, duvidou que seria capaz de largar tudo e fugir com Mauro.
— Não! Jamais abandonarei minha família! Não sou capaz de conviver com a culpa da traição! Jamais!
Voltou para a cama. O sono não vinha e os pensamentos não paravam.
— Aquela pirralha da Kátia é amiga do ex-namorado; porque eu não posso ser amiga do meu? — cochichou com o travesseiro.
Um pensamento erigido sobre o pântano da dúvida permeou sua mente: “Penso, logo mudo de opinião.”
Três semanas mais tarde Fernanda informou sumariamente a Nicolas que faria uma viagem no final de semana para visitar uma prima distante — da qual ele nunca ouvira falar — que estava à beira da morte.
Eis o que aconteceu no retorno de Fernanda:
— Você está muito abatida!
— É...
— E aí? E sua prima? Como está? E sua tia? Ela deve estar muito triste, né?
— Porque?
— Ué? Sua prima não está quase morrendo?
— É... Quase morrendo...
Carlos Henrique Fernandes Gomes
Enviado por Carlos Henrique Fernandes Gomes em 22/09/2006
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Sobre o autor
Carlos Henrique Fernandes Gomes
São Paulo - São Paulo - Brasil, 45 anos
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Carlos Henrique Fernandes Gomes