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Matei minha sogra

MATEI MINHA SOGRA

— Sogra é um troço que não devia existir! — dizia eu antes de matar a minha. Quando casei com a minha alma gêmea, estava cego pelo amor e nem me liguei que teria uma!
Dóris, minha esposa, sempre cuidou da mãe. Viúva, amargurada, solitária, tiradora de sarro, cheia de contar piadas sem graça e pobre metida a besta, assim era a velha. Por isso, dona Gessy foi morar conosco, ou melhor, o idiota aqui foi morar com ela — justiça seja feita.
Preferia morar com o Agenor, meu chefe, do que morar com ela, mesmo sendo os dois carta do mesmo naipe e de baralho marcado. Pensei até em apresentar o Agenor para a Dona Sabonete, para ver se eles davam certo e fossem felizes, mas seria como ter o inferno todo dentro da mesma família.
Dona Sabonete era mais pobre de espírito do que eu — miserável mesmo — e adorava fazer comentários que feriam mortalmente meus brios:
— Minha filha, — começava ela no café da manhã — você devia ter casado com o Mateus que é rico. Ele não tirava o olhão verde do seu decote, aliás, ainda não tira. — e gargalhava pelos olhos.
E antes do almoço continuava:
— Isso não é marido, é um encosto! Cruis credo! — e fazia o sinal da cruz.
Durante o jantar eu fazia um esforço supra humano para não pular naquele pescoço gordo. Aí ela ofendia mesmo:
— Passa o sal aí, ô saco de peido! — e ria seu risinho de jibóia.
Parece que esse ódio genro-sogra, sogra-genro está gravado no genoma, assim como cão odiar gato e gato odiar rato, mas não no meu! Eu agia assim por instinto de sobrevivência! Afirmo isso sobre a corda bamba da minha própria certeza!
Sempre bati de frente com ela e isso deixava minha Dóris muito magoada; coisa que cortava meu coração! Uma vez sugeri que seria melhor Dona Gessy ficar numa casa de repouso e a resposta da minha Dóris foi uma lágrima que caiu. Minha intenção parecia ser a melhor, mas era acompanhada de uma terrível segunda intenção: livrar-me daquele monstro em forma de sogra.
Aquela lágrima foi o suficiente para perceber o mal que eu fazia para Doris, a minha jóia preciosa. Aí decidi mudar! Atitude é tudo! Querer é poder! Resolvi agradar!
Sei que para o resto da humanidade é quase impossível, mas para mim foi fácil. Comecei a contar piadas sem graça e falar mal dos outros, alimentando seu espírito de porco com o melhor da perversidade. A velha adorava quando eu imitava a filha da vizinha que era vesga. Comprei até revistinhas de piadas e passei a ficar bastante tempo com os moto boys do escritório ouvindo suas idiotices de gente desocupada; suportava aquela gente só para satisfazer o apetite ávido por maldades da minha sogra. Só não podia tirar sarro da Dóris e, principalmente, do Meteus; verdadeiros deuses para a jararaca.
Tirar sarro de uma moça linda e zarolha, fazer do preconceito racial uma piada, rebaixar o pobre abaixo da indigência e da miséria, zombar das velhas corocas e dos velhos babões que, juntos, poderiam consertar o mundo com sua infinita experiência e sabedoria... ah, como eu sentia prazer com tudo isso! Eram verdadeiros orgasmos! E depois eu corria para o banheiro, chorava e gritava de pavor com a cara enfiada na toalha. Não podia me olhar no espelho sem sentir nojo!
— Então meu preço é esse? Me vendi barato assim!? Não poderia agir como adulto? Não poderia escolher outro caminho?
Mas há males que vem pra bem...
Aconteceu o inesperado: vi em minha sogra uma mulher com bom humor, uma pessoa, um ser humano, que falava a verdade em suas brincadeiras de mau gosto — da forma errada, mas era a verdade —, enfim, uma artista do circo da vida diária que tentava suportar a vida sem seu falecido esposo.
Não era raro eu pegar Dona Gessy lavando, com lágrimas de saudade, o velho álbum de fotografias amareladas das várias viagens que fizeram juntos. Ela passava os dedos enrugados e trêmulos nas fotos e as lágrimas brilhavam escorrendo pesadas pelas rugas que sulcavam seu rosto. Nessas horas escondia-me e ficava ouvindo ela chorar baixinho. No começo adorava vê-la sofrer, mas com o tempo não consegui mais suportar ouvir aquele choro solitário.
Mas também não ousava sentar ao seu lado, abraçá-la, pedir desculpas e dizer o quanto ela era importante. Não tinha coragem de dizer que amava minha sogra!
A jararaca que me chamava de saco de peido, encosto e outros impropérios de mais peso, que o pudor me impede de dizer, metamorfoseou-se numa pessoa especial. Uma vida feliz acenava para nós ao longe e era uma questão de tempo para chegarmos a ela.
Agora é tarde demais. Ela morreu! Morreu de rir!
Minha sogra bateu as botas porque estava rindo de uma piada de português que eu contava na hora do jantar. Ela engasgou, sufocou e morreu! Tentei socorrê-la mas já era tarde. Chegou morta ao hospital.
— Quer saber? Eu gostava mesmo da velha! — agora digo isso! Agora que é tarde demais!
Carlos Henrique Fernandes Gomes
Enviado por Carlos Henrique Fernandes Gomes em 22/09/2006
Código do texto: T246835
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Sobre o autor
Carlos Henrique Fernandes Gomes
São Paulo - São Paulo - Brasil, 45 anos
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Carlos Henrique Fernandes Gomes