Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Adeus agosto, há Deus em agosto.

Sem perceber eu havia escorado os cotovelos no parapeito da varanda. Nem fora o vento, que não havia, que teria me açulado àquele gesto. Às vezes até uma folha que se desprende da cabreúva que se expõe magnífica à vista da varanda lá de casa, faz-me mover. Estranho, uma dispersão ajuntada de abatimento incomum, houvera me paralisado. Busquei recrear minha vista no rio e nos prados do seu entorno. O rio assoreado expunha em seu leito vastos e múltiplos bancos de areia, jogando na nossa cara o descaso antigo; e pelo longe, na direção de Santa Margarida, brotava uma fumaça de queimada de pasto que se espalhava pelo vale, tornando ainda mais débil a luz daquela monótona tarde. Era curioso como o fogo na pastagem se aproximava de uma solitária árvore que lembrava o cedro estampado na bandeira do Líbano. Inevitavelmente vinha-me à mente as imagens dos escombros dos prédios em ferragens retorcidas, dos tantos mortos, das gentes em desespero tentando fugir dos bombardeios de Israel sobre Beirute e outras cidades Libanesas, para aniquilar a qualquer preço o Hizbollah. Era agosto.

Sempre fugi de ser estúpido. Corro de ser estúpido e tropeço na estupidez. Não queria acreditar que agosto fosse o mês do desgosto. Já ouvira isso, mesmo lá dentro de casa. Pensei no agosto passado, havia tomado a minha primeira multa de trânsito em anos de habilitado. Dias depois, as dezesseis válvulas do motor de meu carro se multiplicaram em prejuízos (até pensei em pagar o Visa com o Mastercard). Lembrei-me do balaço do Getúlio, da “noite de São Bartolomeu ou massacre em nome de Deus” e do falecimento de parentes naquele mês. Pronto: Já tinha me transformado num completo estúpido.

Tirei os cotovelos. Pensar é essencialmente errar – já dizia o Caeiro. Resolvi agir espairecendo-me pela cidade. Estava de férias, afinal. A locadora de vídeos, iria lá. Na altura do Colégio Antônio Nicchio, que mal, encontrei pedras no caminho, não pedras quaisquer. Eram pedras enormes de granito, sobre fileiras intermináveis de carretas que faziam um manifesto e bloqueavam o meu caminho e de tantas outras gentes. Queriam os carreteiros a revogação do decreto de proibição de trafegarem pelas vias da cidade. Deixei estacionado o carro no lugar até onde pude chegar. Caminhando vi o Gu Braga. Acenou-me, e por obrigação, como quem joga algo fora, respondi ao aceno.

Atravessei o quase quilômetro inteiro da Florentino Ávidos a pé. Já fizera aquilo antes e me parecia que fora há muitos séculos. Nos séculos em que havia o supermercado Morita, a Loja Odontótica, a Caderneta de Poupança Tamoyo. Nos séculos em que eu não perdia por nada os filmes do Giuliano Gemma, nas matinês do Cine Gama ou do Cine Idelmar. E tampouco as domingueiras do Clube ACD. Quando do Zoológico do CREB: quantos e quantos ontens!

Uma lâmina d’água que não encobria sequer um tornozelo, era o que passava debaixo daquela ponte. A despeito de tudo, mesmo que se passasse um caudaloso rio ali, não me jogaria. O “troço” estava ruim mas não era para morrer. Mesmo que fosse pra morrer, teria que ser bonito (se é que se pode). Talvez numa colisão com aquele trambolho com a inscrição “Bondinho da Alegria” que trafega pela cidade, carregando os pequenos, até pela noite, sem cintos de segurança, em bancos de madeira, a fazer festa. Mas que por um milagre nenhuma criança, e ninguém mais se ferisse, que só eu morresse. Assim notar-se-ia o desserviço à educação no trânsito, um descalabro da nossa cidade, onde se multa por causa do carona sem cinto e deixa-se ganhar dinheiro às custas de riscos para inocentes. Mas não queria morrer. Os olhos que vêem tão moribundo o doce rio, querem mais ver!

Então desci pela cabeça da ponte – a nossa ponte tem cabeça e quebra-molas – entrei na primeira Lan House que veio a frente, para mergulhar no mundo virtual. Queria outro mundo, encontrar meus amigos. Foi então que entre Messengers, e-mails e orkuts, lá estava escrito no perfil do Bonatinho no orkut, como uma fogueira num dia gelado: “Um rapaz humilde, de boa índole e apaixonado pelos estudos (belelza)! (...) E com o coraçãozinho acelerado por uma paixão, completamente cheio pela namorada, que quando está perto me tira o fôlego, me deixa bobo e com vontade de nunca mais ter que me despedir... Margarida, amo você!!!”

Fez-me mover bem mais que as folhas da cabreúva. Desconfiei que me enganara sobre agosto. Já me fazia bem saber da festa de aniversário da cidade, ver toda a gente a passar nas ruas. Esqueci-me das mentiras que me contei...

A verdade era agosto o mês de decisão. O descuido com o carro vinha de outros meses, o problema do trânsito da cidade era de muitos janeiros. O rio nos expõe em agosto o seu definhamento, para que, quem sabe o salvemos. E foi bem nesse agosto que começou a construção da outra ponte sobre o Pancas, para tirar da cidade o trânsito das medonhas caretas.

Ao retornar, no mesmo a pé, pela Florentino Ávidos, notei um pôr-do-sol que nunca vira neste e nem em outros séculos com os mesmos olhos que a terra não há de comer tão cedo e que do mais tem um coração lá dentro. Havia Deus em agosto.

Visite: www.cronicasdojoel.blogspot.com

Joel Rogerio
Enviado por Joel Rogerio em 27/09/2006
Código do texto: T250692
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Joel Rogerio
Colatina - Espírito Santo - Brasil
116 textos (7970 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 05/12/16 06:45)
Joel Rogerio