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O engano

Tem gente com mania de dizer que não tem manias. Mentira. Eu, você, todo mundo tem. Pois uma das dele era dormir com a mão no sexo da esposa. Não era um ato libidinoso, era apenas uma mania, trazida desde os tempos de namoro. Uma espécie de carinho, um conforto adquirido antes mesmo que ele, o primeiro e único namorado dela, a houvesse deflorado, alguns anos antes do casamento.

Sempre que, burlando as barreiras impostas pela família dela, os dois conseguiam passar uma noite juntos, ele, confortavelmente, pousava a palma da mão em forma de concha sob sua calcinha. No início, ela proibia. Ele, alegando inocência, afirmava que era apenas um carinho. Ela acabou cedendo e percebeu que realmente o namorado não a bolinava nem se excitava. Simplesmente dormia. E com o tempo, ela também se acostumou e passou mesmo a gostar daquilo que virou um segredo entre os dois, um pacto de cumplicidade e de amor...

Aconteceu que, para relembrar as farras do passado, seus amigos de adolescência resolveram alugar um sítio para passar o reveillon. Whisky, vinho, cerveja, champagne, peru, frutas secas, ceia completa. Ele ainda comprou uma garrafa de Jack Daniel’s. “Não gosto de whisky, só de whiskey”, explicou. Até maconha haviam levado, afinal, era para relembrar as farras de quinze anos atrás...

Compareceram todos, menos o Álvaro. “É meu concorrente e virou veado”, afirmou o amigo e dono da empresa onde trabalhava. Ele ficou bravo: “Mas cara! O Álvaro é gente finíssima! Vai ficar chateado se souber que fizemos uma festa da turma e não o convidamos”. O chefe, então, tirou onda: “Vai defender a bichinha, é? Tô te estranhando, hem!! Tá virando cruzeirense?”. Ele, atleticano fanático, retrucou: “Mas quem vivia passando os fins de semana na casa do Álvaro para estudar era você”. Todos deram risadas, o assunto foi esquecido e a festa continuou madrugada adentro.

Ele não ficou satisfeito com seu Bourbon. Bebeu scotch, vinho, champagne... Advertido por ela, que não bebia, de que estava abusando, ele ria e repetia com a voz empastada: “Eu não misturo bebidas... bebo uma em cada copo”. E, para provocar a mulher, pegou o baseado que passava de mão em mão e deu um trago, coisa que, havia muitos anos, não fazia. Tentou segurar a fumaça por um momento, engasgou. Repetiu a operação, teve outra crise de tosse. Ela, sabendo que o marido sempre foi uma pessoa equilibrada, deu uma risada e voltou a conversar com as amigas.

O esperado aconteceu. E o inesperado também. Ele e o chefe, bêbados, apagaram no sofá. Os amigos passaram batom, brilho, rouge, perfume e os colocaram para dormir, de cuecas, em uma cama de casal. “Olha o passarinho... fotos para a posteridade”. Ela reclamava da aprontação com o marido. “Que nada! Se fosse há quinze anos atrás, você até ajudaria”, diziam os outros. Sabendo que era verdade, deu-lhe um beijo e foi dividir outro quarto com a mulher do chefe.
 
Quase ao amanhecer, ainda bêbado, ele, com sua mania, virou-se para o lado, abraçou o amigo e colocou a mão por dentro da sua cueca. Seu chefe acordou excitado e começou a acariciá-lo também. Ele foi acordando aos poucos, quando ouviu: “então não era só eu que tinha segredos com o Álvaro, não é?”. Ele saltou da cama e desfez o engano. Alguns dias depois, perdeu o emprego e foi trabalhar na maior concorrente da empresa. Nem Álvaro, seu novo chefe, nem ninguém, nunca soube porque ele fora mandado embora.
Raul Rodrigues
Enviado por Raul Rodrigues em 02/10/2006
Reeditado em 10/09/2012
Código do texto: T254401
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Raul Rodrigues
Lauro de Freitas - Bahia - Brasil, 45 anos
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Raul Rodrigues