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UM TURISTA ACIDENTAL NA SUA TERRA NATAL


UM

Quando eu era pequeno; meu pai costumava me contar histórias.
Eram histórias de mundos distantes, de povos distantes, e de sonhos distantes. Como o sonho de sonhar que o homem um dia viveria no paraíso terrestre; que as máquinas fariam o trabalho das mãos humanas; que não haveria trabalho escravo, desemprego ou fome; e que crianças, como eu, iriam para a escola e se tornariam homens de grande saber.
Tudo graças ao bondoso homem da cidade que aparecia de quatro em quatro anos para nos visitar.

Sei que faz muito tempo que ele me contou esses sonhos; já cresci o suficiente para viver e contar minhas próprias histórias para meus filhos, sem, no entanto, acrescentar algo de novo.
A paisagem da janela da casa de meu pai não mudou, no entanto, mudei a paisagem da minha janela. Um vento mais forte me tangeu para longe daquele lugar. Hoje, vivo no meio da opulência da cidade grande. Um cortiço é minha morada, e as ruas desertas meu roçado.
Vivo de recolher as migalhas da civilização moderna: o lixo.

Lembro-me que naqueles dias que já vão longe, a lua cobria de sombras a caatinga dando-me a impressão de que os monstros que habitam aquela imensidão eram infinitamente maiores que meu medo
Como um bezerro desmamado, corria para os braços da minha mãe. Era o abrigo mais seguro que conhecia.
O cheiro do seu tempero hoje é só saudade. Ela que muita vezes, para controlar meu apetite voraz, fazia mágicas no velho fogão de lenha. Produzia uma variedade de quitutes suculentos só para me agradar. Todos tendo como ingredientes básicos, água e farinha de mandioca. A velha massa da tapioca.


O homens daquele mundo viviam em mundos diferentes. Meu pai e os outros homens da aldeia, passavam seus dias longe da família; no que chamavam de frente de trabalho. E assim, eles conservavam a fé de que um dia tudo ia se resolver; que a chuva ia inundar o sertão; e que o sertão seria um mar. Um mar de águas perenes.

Mas enquanto essas coisas não aconteciam, sentado no velho tamborete de graúna, meu pai nos contava histórias fantasiosas no desejo de encucar em nossas mentes com pensamentos felizes e afastar dos nossos corações aquele sentimento revolta que nos dominava. Como um visionário, mirava as estrelas lá céu e colhia delas incríveis e alegres histórias para nos entreter.
Tão logo a reunião era iniciada, uma roda de meninos se formava em torno do seu banco. Todos, ávidos para ouvi-lo e de se embriagarem com suas histórias de faz de conta.
Éramos uma platéia atenta e silenciosa.
Nossa alegria e encantamento só eram maior quando ele nos contava as histórias dos grandes conquistadores ou, sobre a obras dos homens de grande saber que mudaram o rumo da humanidade.

Aqueles momentos eram muitos prazerosos para todos nós; não havia como não ficarmos encantados com clareza dos relatos. De tal maneira, que tudo nos parecia sublime e atingível.

Certo dia meu pai contou a história de um tal de Rui Barbosa. Proporcionou então, o maior rebuliço entre os ouvintes da sua seleta platéia.
E não era para menos. O intróito da narrativa possuía uma afirmação duvidosa: o tal Rui Barbosa fora para a Inglaterra ensinar inglês.

A platéia que naquele dia era maior do que a habitual; ficou boquiaberta ante aquela informação. Ao que parecia, todos que ali estavam, éramos cativos daquela verdade absoluta e inquestionável. Todavia, daquela feita, um menino franzino atreveu-se a interromper o mestre e orador:

- Seu Ariosto...; o senhor fez confusão! - interveio, temeroso de uma reprimenda.
- Que confusão, negrinho?
- O tal Rui Barbosa... Não é baiano?!
- Não sei! Espero que seja; seria muito bom pra todos nós.
- Então?
- Então... – repetiu ele, exigindo que intrometido dessa prosseguimento na sua intervenção.-
- Então... Como é que o Rui Barbosa foi ensinar inglês para inglês?
- Ora, negrinho... Vai que o inglês não sabia ler!

Ante aquela resposta, o menino Caio sorriu. Sorriu um sorriso sem graça. Algo lhe dizia que o orador estava pileriando com ele. Inventando uma desculpa descabida. Como não teve certeza, ficou tão agoniado que teve que se beliscar para ficar calado.
Por fim, indagou, assim meio acanhado:

- Seu, Ariosto... Inglês num nasce falando inglês?
- Deve nascer, negrinho.
- Então?!

O narrador sorriu.

- Então, Caio... Será que por ser inglês, o ingleszinho já nasce sabendo ler?

Ante àquela resposta, que mais lhe pareceu uma pergunta; o menino Caio ficou calado. Ficou escutando seus neurônios entrarem em colisão. Bater uns contra os outros e tirar faísca.
E finalmente, chegou a uma conclusão:

- Sabe que o Rui Barbosa fez certo, seu Ariosto... Eu também faria o mesmo!
- Faria não; vou fazer! Essa é a resposta que todos vocês devem se dar. – sentenciou meu pai. - Somente quem sonha grande pode almejar um mundo melhor.

Como nenhum outro ouvinte atreveu-se em fazer novas indagações, o orador deu por encerrada aquela seção. E todos ficaram feliz que assim fosse. Começaram a fazer molecagem uns para com os outros.
Mas a folia não era de desdém. Era apenas a alegre constatação de que, com o encerramento da daquela reunião, poderiam se ocupar de suas brincadeiras prediletas: pique no lugar ou chicotinho queimado.

Sei muito bem que, muito de nós, não compreendíamos a moral daquelas histórias que meu pai contava. Só estávamos ali, porque quando encerrasse a audiência da noite, iríamos receber um agrado. Um pedaço de bolo de puba que minha mãe fazia.
Era a paga por nossa audiência.

Dias depois, meu pai apareceu com uma novidade. Uma história nova. Ainda não contada e recontada para sua platéia sedenta de sonhos e fantasias. A novidade que o orador anunciara, era a história de um menino que foi expulso da escola por não ser um aluno muito afeito lógica racional da ciência dos números. A tal matemática.
Foi assim que ficamos sabendo que tempos depois, por capricho da natureza, aquele menino tornara-se um dos mais sábios e reconhecidos calculistas do seu tempo. Um verdadeiro gênio.

Se me lembro bem, essa foi a última história contada para aquela classe de ouvintes. A seca daquele ano foi mais forte que a histórias contadas por meu pai e as pessoas começaram a partir. Cada um, seguiu o destino que Deus lhes reservou. Só a roda do destino poderá nos reunir de novo.

Quando cruzei portal da rodoviária, não sabia ao certo que a cidade agasalhava nos seus labirintos monstros muitos maiores do que aqueles que povoavam as sombras noturnas do sertão. Só quando arranchei no viaduto que corta a cidade de leste a oeste é que comecei a me dar conta.
O homem já havia criado e recriado todas aquelas histórias que meu pai contava, e reprisava os feitos com se ainda estivessem acontecendo a cada dia apenas para relembrar que ela haviam acontecido.

A cidade é bem diferente do que meu lugar. Lá, tudo é difícil; mas ninguém diz que é. Aqui, não. As casas são construídas uma sobre as outras, todas perfeitamente sobre postas. Sã tantas e de tantas cores e matizes que parece que é fácil de se fazer. Mas o homem da cidade dize que é edifício.




DOIS


O tempo deu muitas voltas até reencontrar um amigo de infância. Encontrei com o Caio, o menino que um dia atreve-se a intervir na narrativa do mestre e orador de tantas histórias infindáveis. Fiquei sabendo que ele virou cidadão do mundo. O danado possuí três cidadanias: de brasileiro, pela paixão pelo futebol; de sueco, pelo casamento com uma galega; e de pernambucano, graça a Deus.

Negrinho de sorte; nasceu com o destino traçado e aquilo virado para a lua.
Minha terra tem dessas coisas. Muitas vezes do pé de mandacaru mais miúdo é que nasce a flor mais formosa. O Caio está ai, para não me deixar mentir.

- Sabe, Gabiru... – disse-me, ele.
Gabiru é o apelido que ganhei graças a minha intimidade com a bola de meia.

- ... No primeiro mundo é diferente, amigo. Não se vê esse bando de crianças perambulando pelas ruas pedindo esmolas. Lá, eles estão nas escolas, estudando.
- E lá tem escola suficiente para todos?
- Tem...
- E como conseguem?! - perguntei, duvidando.
- Controle de natalidade.
- E é preciso controlar?
- Claro!, sem controle, não é possível fazer um planejamento familiar. Daí então, não haverá escolas para todos.
- E professor?
- O professor também tem... Senão, não precisava escola!
- Também tem controle?
- Claro! São os melhores. A qualidade de ensino é levada a sério.
- Mas aqui também é... Pelo menos, vejo dizer na televisão.
- Será?
- O governo está investindo! – adverti, desejoso de ser verdade.
- Ora, amigo! Desde que saí daqui; escuto esse discurso.

Pensei em dar uma resposta desaforada pro meu amigo. Mas me contive. Ele era um turista. E turista deve ser tratado com todo carinho. O governo deveria ensinar para a população.
Procurei dar um novo rumo à prosa:

- Por lá, você já ouviu falarem do Ronaldinho? O novo Pelé?!
- Ora... mais é claro! Sei que é um grande jogador... aprendeu na escola.
- Escola... você só fala em escola. A melhor escola é a vida!!
- Isso você é que pensa, Gabiru. Sem escola, sabe o que vai acontecer com esse bando de crianças abandonadas; vão viver no subemprego ou na criminalidade!
- Se tiver emprego tá bom demais!
- Nosso povo continua subdesenvolvido, Gabiru... – advertiu-me ele.
- Larga de ser bobo, negrinho! Só porque você veio das Oropas não pode meter o dedo no nariz do outros. Não se meta a besta comigo! - gritei.
- Mil perdões, Gabiru. Não quis ofender o amigo. Você sempre foi um irmão para mim.
- Irmão... A nossa desgraça não lhe dá direito de nos menosprezar!
- Eu sei... eu sei... Desculpe-me. - pediu, verdadeiramente arrependido.
- Vamos mudar de assunto?! - sugeri.

Ele concordou prontamente. Aquela conversa não era a mais aconselhada para comemorar o encontro de dois velhos camaradas. Havia outros temas mais importantes para se falar.
Como dizia meu pai: pimenta no olho do outro é refresco.

- Quantos filhos o amigo têm? - quis saber o Caio.
- Ora!, quase oito.
- Oito?! Não é muito?
- Que nada! Já estão chegando os netos.
- Não me diga! E o amigo já é avô de quantos?! - quis saber, verdadeiramente assustado com minha prole.
- Já tenho dois. Um terceiro já está encomendado.
- O amigo não acha que com o atual custo de vida é desaconselhável construir uma família tão numerosa?
- Que custo de vida está difícil, sei que tá! Mas, aprendi que na panela que um come sempre cabe mais um
- Você está se saindo à semelhança do seu pai, Gabiru... Os tempos mudaram.
- Mudaram nada! Quem mudou foi essa juventude de hoje é que não têm prumo; abandonam os filhos nas ruas ou simplesmente dão pros outros criar. São uns irresponsáveis!
- Neste caso, a adoção pode ser uma boa solução para o problema, não acha?! – indagou-me ele.
- Não acho nada! O que espero é que cada um cumpra com a sua obrigação. Quem fez tem que criar!

Percebi que meu amigo Caio, mesmo contrariado, ficou interessado naquele assunto. Principalmente quando lhe informei que a filha da vizinha iria ser mais uma mãe solteira. Não tinha como criar o filho.
No começo pensei que era só proseio. Afinal, ele era um homem bem sucedido e estava apenas de passagem. Fazendo um turismo, como costuma se dizer. Se viera me visitar, fora só para matar a saudade dos velhos tempos.

Mas depois, vi que não. Percebi que havia alguma coisa no ar. Alguma coisa que sua fineza e polidez de homem do primeiro mundo não lhe permitia revelar.


- E o amigo Caio, casou? – quis saber.
- Sim... Há três anos.
- Já tem herdeiro?
- Não, ainda não.
- Nenhunzinho?! - insisti.
- Não... nenhum.
- Pretendo ter dois filhos. Dois filhos são a medida correta.
- Só essa marrequinha?! - debochei.
- Na Europa dois filhos são um número mais do que suficiente, Gabiru. Por lá, o controle de natalidade é levado a sério!
- E pra quê, se vocês são tão ricos?
- Ora, Gabiru... É o controle de natalidade que nos proporciona um padrão de vida elevado. Com ele, podemos ter uma melhor qualidade de vida e famílias mais felizes.
- Só se for lá. Aqui, quanto mais filho melhor.
- Eu sei; mas precisam mudar essa mentalidade. Dificilmente numa família numerosa os pais conseguem dar as mesmas oportunidades a todos filhos.
- Pode ser... Mais quem nasceu para sacristão nunca chega a padre.
- O amigo é quem pensa. Se os filhos dos pobres pudessem ter as mesmas oportunidades do que os filhos dos ricos; garanto que eles seriam grandes homens e teriam um padrão de vida melhor.

Naquele momento, eu sabia que o meu amigo estava correto. Mas achei a explicação era meio abusada. Tão abusada que só podia ser coisa brasileiro metido a gringo! E ele era.

- Seus filhos gostam de futebol como o pai?!
- Só o do meio...
- Leva jeito para a coisa?!
- Leva... está treinando num time grande. Esse vai longe!
- Isso é muito bom... Ouvi dizer que as escolas de futebol estão tirando as crianças das ruas.
- É verdade... Isso é verdade!
- E os outros?
- A minha menina mais velha disse que queria ser atriz. Vivia assistindo novela e imitando a artista da televisão. Embuchou...
- Embuchou?
- Sim. A mais nova era muito prendada. Vivia de namorico com o filho da vizinha. Um cabeludo que dizia que era cantor. Um dia o rapaz sumiu.
- E a sua filha, está sofrendo muito por isso?
- Não, sumiu com ele.
- É muito difícil criar filhos hoje em dia... Espero que seus problemas tenham acabados.
- Sim e não. Tem a Ritinha.
- Esta dando dores de cabeça?
- Às vezes. Ela é muito sapeca. Mas eu controlo no cabresto. Não dou folga.
- Espero que ela não tenha o mesmo destino das outras.
- Também espero... Mas pelo que vejo das suas amiguinhas, não vai ser fácil..
- Como assim?
- Ela têm duas amiguinhas que eram muito recatadas; quando os pais viram: embucharam. Tem uma que está pensando em dar o filho.
- Ninguém ensinou par essas moças para que serve o preservativo?
- Saber até que sabem. Mas elas dizem que foi por descuido.
- Descuido... isso é falta de educação sexual!
- Que nada, Caio! É falta de peia.
- Não exagere, amigo. Nada melhor do que uma boa escola.
- Escola? Você acha que escola resolve?!
- Acho!
- Eu estava com vergonha de te contar, no entanto, vou abri meu coração: Sabe que aconteceu com a Rosa? Minha menina mais velha!
- Não. Mas espero que não seja nada de grave.
- Embuchou.
- Também!
- Foi essa tal mania de querer imitar as atrizes de novela...
- Mas que coisa, desse jeito, só amarrando essas danadas!
- Dizem que é extinto.
- Extinto! Isso é falta de cultura. Sua filha jogou fora todo um futuro que tinha pela frente. O que ela vai fazer para criar os filhos?
- Deus dá um jeito.
- Lá vem você com sua filosofia cabocla... O que Deus tem haver com a falta de bom senso e responsabilidade.
- Ora, caio... Não se pode tirar uma vida só porque cometemos um erro.
- Existem erros e erros... Neste caso, é falta de cultura!
- Eh, hê ... Agora é você com sua mania de que escola resolve o problema.
- Resolve. Pode crer que resolve! Se existisse escolas para todos garanto que nosso país seria outro. Estaria no primeiro mundo!

Depois dessa ladainha, o Caio partiu. Fiquei sozinho pensando naquela nossa conversa. Não foi lá uma conversa de amigos; mas achei que ele estava coberto de razão. Esse negócio de televisão ensinar que as meninas moças tem que andar com o traseiro arrebitado, não é o que se pode chamar de educação sexual.
Mas que se pode fazer. Ainda tem aquele tal de telefone erótico para ajudar.



TRÊS


O Caio é um turista acidental mas não é bobo. Andava a procura de alguma coisa que não se compra com dinheiro.
Dois dias depois, bateu na minha porta de novo; pedindo para falar com a filha da vizinha. Foi logo cedo. Bateu na porta e, sorridente, exigiu ajuda. Queria falar com a filha da doma Matilde, vizinha do barraco que fica do lado de cima do morro.
Desta vez, fiquei meio ressabiado com sua visita. E não era para menos. Ele bateu na minha porta puxando pelo braço uma galega de olho azul.
Os olhos dela parecia duas bolas de gude de tão grande. Duas bolas azul. O azul dos olhos da galega era tão azul que ofuscava o olhar da gente.

- Minha esposa, Gabiru... – disse-me ele então.

Estendi a mão, e ela correspondeu meu gesto. Com a vista meio embasada pelo brilho do olhos dela, notei que seus dedos eram tão alvos finos que pareciam feitos de capucho de algodão. Em nada parecia com a mão da minha Margarida que vive encalecida de tanto bater roupa no tanque.

- O meu esposo fala sempre no Senhor... - disse-me ela, com voz sussurante.

Aquela voz melosa, como um gemido de vaca holandesa no cio, deixou-me queixo caído. Não pude acreditar no que escutei. A gringa falava minha língua muito melhor do que eu. Não só falava como sabia falar. Era um primor sua dicção.

- A madame fala muitíssimo bem, o português.
- O cavalheiro é muito gentil... - disse-me num sorriso. - Tenho a felicidade de praticá-lo com freqüência. – complementou.
- Onde aprendeu?
- Na escola... Na escola de línguas latinas.
- Que coisa interessante... no seu país tem escola para brasileiro. Aqui, muitas vezes não tem.
- Ela também é professora, Gabiru. – tratou de informar o Caio. - Já lesionou no Liceu de Paris.
- Já ouvi falar desse tal Liceu... fica no país campeão da copa. – falei, deixando a voz denunciar um ponta de amargura.
- Não há de ser nada, Gabiru... ainda seremos pentacampeões, amigo!
- Só quando jogarem com garra. Nunca ouvi disser que time algum fosse campeão só por ter um passado de glórias.
- Você está certo... E de futebol, ninguém intende melhor do que você!
- Senhor, Gabiru... – interveio a galega, mulher do meu amigo. - Gostaria de conhecer a senhorita Maria Rita.
- Ah!, a Ritinha... amiga da minha filha?
- Sim. Creio que esse o nome dela.


Como não podia deixar de atender aquele pedido, que me pareceu uma súplica. Deixei os dois a sós, e fui ter com a filha da vizinha que mora no barraco que fica no barranco de cima.
Mas logo voltei. Voltei com boas notícias para a galega. Fui informado que a prenha estava preste a despejar a cria.
Eu estava certo. A galega sorriu de contentamento. Ficou tão contente que entendeu ser melhor que ela fosse fazer uma visita à Ritinha, amiga de minha filha. Ela estava grandona e ruim para caminhar.

Conduzi a galega até o barraco da embuchada e, deixei as duas conversando. Paparico de mulher.
Mulher é assim mesmo, gosta de uns cochichos que azeda os miolos da gente. Como a mulher era do Caio e não minha, larguei elas pra lá.
Quando voltei a ter com o Caio, foi que notei o jeito dele. Cabisbaixo, com mãos nervosamente em movimento,e fumando que nem caipora.

“É o negrinho está mudado. Parece até que gosta de ser gringo!, pensei. De dentadura nova, vestido de almofadinha, e no dedo dois anelões. Parecia doto”.

Foi daí, que comecei a remexer com as lembranças dos velhos tempos. Dos tempos que a gente caçava calango no meio da caatinga; de banho de água de cacimba; das prosas do meu pai e, dos namoricos de infância.

- Tem notícia do Felomeno, Gabiru? – indagou-me ele, de supetão.
- Pouca... muito pouca.
- É verdade que mora na Capital?
- Não sei... Só sei que virou político.
- Essa é uma boa notícia... folgo em saber que um conterrâneo e amigo, comanda o destino do nosso país... E o bolota?! – prosseguiu o Caio, como se der repente que saber notícias dos amigos de outrora.
- Ora... Bolota foi-se.

Bolota era o apelido de um menino pançudo. Pançudo mas não de comida; pançudo de verme. E como nenhum de nós sabia disso, ele costumava se gabar de que era saúde e de força física..

- Bolota foi-se! Morreu?!
- Sim... de indigestão.
- Mas como de indigestão? Ele comia caco de telha e não sentia nada!
- Me contaram que foi suco de limão.
- Mas suco de limão não faz mal a mingúem! – gritou o Caio. - Só se ele bebeu um tambor! – complementou.
- Foi descuido...
- Descuido?!
- Sim... Bolota comeu uma tigela de xerém com leite, bebeu uma garrafa de pinga, tomou banho de água de poço e chupou limão. Foi batata.
- Como batata? – indagou-me, ainda mais confuso.
- Azedou a comida.
- Mas que coisa... logo o bolota!
- Pois é pra você ver.

O Caio ficou muito comovido com aquela notícia; os dois eram muito ligados. Sempre podiam ser vistos juntos caçando passarinho no mato. Estava tão sentido que resolveu não mais mexer com aquelas lembranças do passado.
Eu não concordei. Aquele conversa não podia ser encerrada sem que falássemos das meninas Maria Margô, minha prima; e Maria das Mercês, prima dele. Eu jamais perderia uma oportunidade daquelas.

- Você não quer saber da Margô e, a Das Mercês?!
- Fiquei tão sentido com o falecimento do Bolota, que, não desejo de mais nada saber. - falou com sorriso amarelecido.

Naquele momento, percebi que o Caio estava tentando não mexer em algumas cicatrizes do passado; o corte podia sangrar.
Ele pode até achar que sou bobo; mas não sou bobo. Mingúem, por mais incenssível que possa querer ser, seria capaz de esquecer do primeiro amor. Muito menos, da dor da separação.
Naquele dia, quando o Caio partiu; Margô chorou feito criança. E era. Das dores a amparava e, chorava com muito mais tristeza. Pela partida do Caio e, por se apiedar do choro da Margô. Foi um longo ano de choradeira; era só escutarem o nome do Caio para se esvaírem em prantos inconsoláveis. Pareciam duas manteigas derretidas.

Só o tempo foi capaz de fazer aquelas duas criaturas esquecer a partida do Caio. E o mesmo tempo, que fez as lagrimas delas secarem, também secou o poço de água do roçado do meu pai. Foi aí, que também parti. Parti para terras distantes. Para terras que ficam muito além das Terras das Onças.

- Esqueceu da Das Dores?! – indaguei, com brandura.
- Esqueci não... só estava sem jeito de perguntar.
- Das Dores se casou o sarara chamado Zebedeu. Tão morando no mesmo lugar; cuidando da roça das Onças e do Poço seco do roçado do meu pai.
- Folgo em saber... Mas pelo que sei, a seca esse ano vai ser das piores. – complementou ele, demonstrando está atualizado nos problemas da região.
- É verdade. Só na semana passada, de lá, chegaram dois mil retirantes.
- Mas que vida... toda seca é a mesma coisa. Por que não resolvem esses problemas de uma vez por todas?
- Pra quê?!
- Como pra quê?, Gabiru! É uma vergonha para um país tão rico, como o nosso, ver sua gente morrer de fome . E note bem, o que não falta nesta terra é água e fartura de alimentos.
- Que fartura, Caio... Fartura aqui: é faltar na mesa do pobre e sobrar na mesa do rico.
- Gabiru. – interveio o Caio com rispidez. – Aqui, em se plantando, tudo dá!
- Que nada, Gabiru... nosso povo está mal acostumado. É só caí uma chuvinha para voltar correndo.
- E o amigo, nunca pensou em voltar?
- Muitas... muitas vezes. Mais fui deixando o tempo passar e, hoje não tem mais jeito.
- Fazes bem... Vejo que o amigo está próspero e saudável.
- Fiz o mobral.
- Não sabia! E o que mais?!
- Hoje, faço o supletivo. Quero ser doto, dotô como o amigo.
- Isso é ótimo. Fico comovido de ver sua força de vontade. Nunca é tarde para voltarmos ao banco da escola, Gabiru! Essa juventude deveria se mirar em você.
- Que nada, meu amigo!, eles só querem saber da vagabundagem e do roça-roça.
- Se for roça-roça com mulher, eu aprovo. – proseou o Caio. Mas se não for, merecem levar uma surra com rabo de tatu.
- O único problema do roça-roça é o embuchamento. – adverti-o. - Todo dia aparece uma de cintura roliça na rua.
- Mas essas danadas não protegem; não tomam suas precaução?!
- Se esquecem.... Quando menos esperam: embuchou.
- Mas isso é uma sandice, quem sai prejudicado são elas!
- Eu sei, o amigo sabe, a família sabe; todo mundo sabe...
- E elas?
- Não tão nem aí, só dão ouvidos para a televisão. Os pais que se virem para criar os netos.
- Se é assim, é sem-vergonhice mesmo.
- É falta de peia!
- Eu só não concordo com a violência. Imagino que se houvesse um pouco de bom senso, e é claro, educação para todos, esse cenário já havia mudado há muito tempo.
- Que nada, Caio. Tá no sangue!
- Se fosse assim; eu já teria uns dez filhos. – advertiu-me a ele.
- Com o amigo é diferente... O amigo mora nas Oropas! Se morasse aqui; duvido que não estava como eu.

A conversa estava boa, mas estava muito espichada. Tive um pressentimento que meu amigo não queria falar da Margô. Por isso mesmo, ele adotara aquele tema, interminável.
Ora!, Margô ainda anda formosa e fogosa. Pelo menos, essa foi a última noticia que tive lá Crateús. Deve está com trinta e dois anos e meio, imagino. Uma perfeita beatona.

“Será que a beatice é esperando o Caio, voltar?, indaguei-me. Com toda certeza isso só ela pode dizer. É um segredo que ela guarda a sete chaves. Coisas do coração.
Pelo que pouco que pude avaliar da nova vida do Caio; não mais iria voltar para a Margô. A galega era uma pintura: dois olho azul, ancas baixas, e a pele cor de leite de vaca holandesa.
Não era meu tipo. Mas, se meu amigo se engraçou por ela, é porque tinha alguma coisa de bom. O Caio dá ponto sem nó; desde pequeno, já andava arrastando a asa pro lado de um tal Maria Rosa, de pele desbotada.
E isso, deixava a prima Margô uma verdadeira serpente. Ruminando o veneno do ciúme.
Do lado da galega, percebia-se que ela era daquelas que não podem ver um escurinho dando sopa.
De resto, eles formavam um casal vistoso. Se não fosse pela altura dela, ninguém poderia dizer que não foram feitos um para o outro”.

Quando ia encurralar o caio na parede e falar da Margô; a galega invadiu meu barrado. Chamou o Caio para uma conversa particular. Notei que seus olhos da cor do azul do céu, estavam turvos e mareados.
O Caio foi acudir de imediato.

Enquanto eles estavam absortos naquela conversa de cochichos, fiquei remoendo meus pensamentos.

“Será que Das Dores vai resistir a mais uma seca brava. Será que o poço seco do meu pai, ainda é o melhor sítio da Serra Das Antas. Será que eu volto lá só pra ver”.

Espichei o rabo de olho e vi que a conversa do casal estava nervosa. A galega não queria se dar por vencida, exigia outra tentativa. Com muito custo, decidiram adiar o que vieram fazer. Voltaram em silêncio.

- Amigo, Gabiru... Minha esposa está exausta. Ela fez uma viagem muito cansativa. Por outro lado, temos de visitar alguns amigos.
- Não há de ser nada, amigo Caio.
- Nós estávamos esperançosos de que tudo fosse dar certo. Mas infelizmente, não foi dessa vez. - disse-me ela, triste.
- Posso imaginar...
- Obrigado, Gabiru... antes de partir, passo para rever o amigo.
- Estou esperando... e traga sua esposa, gostei muito dela...
- Claro! – exclamou ele, aturdido com minha proposta.

Os dois partiram. A galega, esposa do meu amigo era muito educada, no entanto, esqueceu-se de se despedir. Adverti-me de que era por causa da forte emoção que carregava.
Fiquei inerte na porta do barraco, como uma estaca foi plantada para criar raízes.



EPÍLOGO


Dois dias depois, a menina da vizinha deu a luz a uma bela criança. Era homem. Mais um milagre de Deus que os homens tentam imitar; boca miúda; cabeça grande e saco roxo. Qualquer um podia dizer que era filho de cearense.
Fiquei sabendo que a parteira chegou em cima da hora; já não dava tempo de levar a jovem mãe para o hospital. O choro do rebento era tão doído que pensei que chorasse de remorso por ter nascido naquele lugar.
Talvez se tivesse nascido nas Oropas, no meio daqueles campos cobertos de neve e; tendo ao seu alcance, tetas de uma vaca holandesa para se alimentar ele não chorasse daquele jeito. E quem sabe, seria um homem de sabedoria inigualável.
O tamanho da sua cabeça me dava essa certeza.
Mas Deus não quis assim. Reservou-lhe outro destino. Um destino que o amigo Caio e sua galega de olho azul não pode mudar. Há por aí quem não acredite, contudo, Deus sempre sabe o que faz.
Antonio Virgilio Andrade
Enviado por Antonio Virgilio Andrade em 04/10/2006
Código do texto: T256189
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Sobre o autor
Antonio Virgilio Andrade
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