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UM EXEMPLO FRATERNO - (conto premiado)

Maria João tinha um cãozinho rafeiro que adorava. Não possuía brinquedos e o animal passou a ser quase um boneco de estimação. Muito peludo, olhitos vivos, branco, com malhas castanhas era assim o  Jájá. Era este o nome que havia dado o pai da criança.  Órfã de pai, todo o dia brincava com o cão que era o seu brinquedo predilecto. A  mãe trabalhava numa mercearia, que conseguira à custa de muitos sacrifícios para poder sustentar os filhos. Ficara viúva ainda muito jovem. As dificuldades de emprego, principalmente para as mulheres era tremenda. O pai da Maria João tinha sido uma vítima da guerra colonial, por lá ficara...
Os tempos eram difíceis, os alimentos eram racionados. Havia a Comissão Reguladora, que fornecia as senhas a cada freguesa. Depois colavam para entregar com goma feita de farinha. As clientes vinham de “rol” na mão. Vendia-se mais sem dinheiro. Apontava-se tudo! Quando o merceeiro não era sério, no apontar é que estava o ganho. Mas a mãe da Maria João, a Tia Generosa, era mulher séria. Ela compreendia os sacrifícios de quem tinha baixos salários e uma reforma miserável. Havia até colegas seus, que tinham um boneco de loiça ou gesso,  no alto das estantes, bem visível, que cruzava os braços, com um letreiro que dizia      “ se queres fiado toma”.
Num certo dia, entrou uma freguesa na mercearia, e no seu jeito alegre, dizia sempre a sua piada e punha a Tia Generosa ao corrente das ultimas novidades do bairro,  mas o caso era diferente
- Vizinha, então ainda não sabe que houve uma revolução?
- Mas que revolução?  - pergunta a Generosa.
- Não se sabe muito bem, anda um grande alvoroço. Dizem que o Marcelo não se quer entregar. Que está no Quartel do Carmo...as tropas estão alerta, está tudo cheio da novidade... mas ao certo ainda não se sabe. Se isto fica na mesma ou se cai para o outro lado.
- Olha, a mim que seja nosso ou deles, já ninguém me tira a morte do meu marido que lá ficou em Angola.
- Mulher, não fale assim, pense que ainda tem a sua Menina para criar! Se Deus quiser teremos outras regalias e isto vai melhorar... pense na sua menina e nos seus dois garotos...
- A Menina e o Jájá! - disse Maria João.
- Olhe vizinha, se não quer comprar nada, vá p’ra casa, oiça a telefonia e depois venha dizer-me.  Não vê que estou aqui cheia de trabalho!
No dia seguinte, voltou a informar a Generosa que também tinha curiosidade de saber as novidades pela vizinha.
- Sabe fui a casa da Dona Conchita e estivemos lá a ver a televisão
até às três da madrugada, começaram a cantar “Grandola, Vila Morena! Depois, avisaram acerca do Governo Provisório, da Junta de Salvação Nacional e agora vai haver novas informações. Estão constantemente a transmitir. Você devia comprar uma televisão, aqui sempre ficava mais perto p’ra mim.
Conforme ia explicando, ouve-se num repente gritos e apitos duma enorme multidão. As sirenes das fábricas apitavam  interruptamente.
- Mas o que é isto?
As pernas começaram a tremer e a fraquejar a ambas. Vieram todas à porta boquiabertas, uma enorme multidão a pé. De mãos em punho, gritavam: “O povo unido jamais será vencido...”.
Bandeiras vermelhas agitavam-se ao vento pareciam papoilas em campos de trigo. Os soldados do Movimento das Forças Armadas seguiam na forma, com as armas ao ombro, onde sobressaíam os cravos vermelhos As mulheres gritavam : Liberdade! Liberdade! Era um mar de cravos vermelhos por toda a parte. Os carros, as chaimites iam em cortejo. Era um autêntico festival de alegria!
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Perante a euforia do momento, o Jájá, atravessou a rua, saltitando, ladrando. Maria João, sem pensar, perante a enorme aflição para salvar o cão da viatura que passava no momento, correu atrás do animal tendo sido também atropelada, enquanto o pobre  animal tombara do outro lado.
Maria João seguira para o hospital, gritando:
- Salvem o meu cão! Salvem o meu cão!
Quem socorrer? O cão ou a dona?
 Mas o seu Jájá por entre os cravos vermelhos pisados, jorrava ainda em sangue rubro da bandeira. As crianças acercaram-se dele e deitavam-lhe cravos por cima, como se fossem donas do pobre animal..
          E aquele grupo de soldados de Abril, mostraram o seu exemplo de fraternidade para com ambos. Maria João foi imediatamente socorrida pelos bravos que para além do grito de liberdade, mostraram uma alma nobre por onde entram:  Solidariedade,  Bondade e : Fraternidade!
O pobre do animal  não resistiu à pancada.
 
Maria João  não sabia se chorasse a perda do seu cãozinho, por entre a felicidade daquele dia em nascera a Liberdade do seu país oprimido durante tantos anos de ditadura. E o pobre animal por entre os cravos pisados, jorrava ainda o sangue rubro da cor das flores com que fora ornamentado.
E na sua campa continuarão sempre a crescer os cravos vermelhos com o animal se enfeitou quando fora sepultado.
Morrera naquele dia o seu Jájá, mas deixariam de perder-se vidas humanas, como a do seu pai, que ficara como tantos outros, sepultados no pela Guerra, num país distante!

Maria José Fraqueza - Portugal


zezinha
Enviado por zezinha em 10/10/2006
Código do texto: T260929
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Sobre a autora
zezinha
Portugal, 80 anos
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