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A vida e as Almôndegas

O cheiro que boiava na casa fatidicamente era de almôndegas. Aquele cheiro domingueiro pairava em todos os cômodos, atravessava paredes, impregnava nas roupas do varal e dormia também nos travesseiros. Sim, de fato o cheiro das almôndegas permanecia durante uma semana e quando era tempo dele sumir, a panela borbulhava, o vapor fazia ventanias nas cortinas brancas, deixando-as por vezes famintas e tudo voltava a ser almôndegas na casa: toalhas de banho, almofadas, cachorro e até mesmo a goiabeira no quintal.

O almoço não cansava. Não enjoava na gente o gosto do molho e nem do alho queimado.
Mas acontece que o mundo gira, a gente cresce e as coisas mudam.

Em uma terça-feira ociosa, chuvisquenta, feia e cinza, senti o mundo girar em mim, cresceu uma planta pelo pé e saiu pela boca e eu quis mudar.

Aquela casa, aquelas coisas, aquele mundo pequeno, só eu e a vovó, os jogos de buraco, a música dos mesmos pássaros nas mesmas gaiolas, iluminadas pelos mesmos desenhos do Sol no ladrilho amarelado, o vendaval que fazia a janela da frente e do fundo abertas, que vendaval!As velas e o altar, o radinho sempre na mesma estação, tudo estava me dando uma estafa grandiosamente perigosa, mas nada se comparava ao terror que me causava o cheiro. Aquele cheiro das almôndegas! Preso em cada canto, em cada coisa.

Não! Não agüentava mais. Eu tive meus sonhos e deixei o tempo enterrar, agora, não mais! Decididamente fui mudando aos poucos para chegar à mudança final sem grandes traumas.
Primeiro cheguei mansa, pedi o fim das almôndegas, mesmo que seja por um mês. Foi de tão grande surpresa meu pedido, que a vozinha mal falou comigo até quarta-feira à tarde, quando deu para conversar das coisas do mundo. Foi aí que além de reiterar-lhe o pedido das almôndegas, também pedi o fim do leite com ovo, do rádio na mesma estação e que os pássaros fossem soltos.

Pedi, sim, pedi tudo isso, mas foi de um clamor poético profundo que ao dizer dos pássaros, a metáfora foi tão sensata que vi reflexos meus nos olhos da vovó. Reflexos de minha figura saltando de uma gaiola num mundo qualquer.

No dia seguinte, o leite com ovo estava na mesa, os pássaros nas gaiolas e a vozinha tão corcunda de duas noites mal dormidas gemia baixinho ao guardar a louça, vagarosamente.

Atropelei as imagens, projetei meu sonho, e sem nenhuma poesia disse-lhe que dentro de alguns dias eu ia viajar, sim, ia para aquela cidade no interior, onde, certa vez, uma boa pessoa ofereceu um emprego. Sabendo eu da fragilidade das vovós, disse que não era definitivo, que já estava com esses planos há tempos, era só uma experiência, afinal, tinha minha vida, queria mais era viver!

Eu falava como se discutia, mas ela não abriu a boca, continuava devagar, pequena, cabelo como daquelas pombinhas brancas, com seu robe e pantufas de pelúcia, como de costume.

Resolvi ir logo arrumar as mala, sem discussão. Já me via livre de todas as almôndegas do mundo, de todo o cheiro acre do tomate do molho, dessa essência pelo corpo, até pelo sangue, quem sabe, já havia almôndega grudada.

Desci a escada, vi a vovó na beira do fogão, olhando pela janela os passarinhos na gaiola, as margaridas, e às vezes, as almôndegas na panela.

"Vovó, estou indo”.
"É de se perceber, não pode nem esperar o almoço, nem o fim do mês, nem Natal ou Ano Novo! Então que vá com Deus, escreva-me”.

"Sim, escreverei sempre”.

"Mas... fique... quer almoçar? Almoce antes de ir, o trem parte mais tarde, insisto que almoce, você vai adorar o que eu fiz.
Vovó falava rápido, com uma ânsia inexplicável, gesticulava, e então:

"Adivinha o que eu fiz?! Hn? Adivinha? Almôndegas!!!"

Nessa hora ela sorriu, mas sorriu com aquele sorriso de criança que só os bem idosos conseguem resgatar. Me doeu, me fisgou a garganta, sabia, eu sabia, que se eu falasse qualquer palavra explodiria em prantos, em soluços desesperados, e nada falei. Respondi que não com a cabeça.
Fomos até a porta, nos abraçamos, e fui.

Desci a escada, alcancei a calçada e repousei a mala no chão. Quis muito voltar. Subi correndo as escadas e tive coragem apenas de espiar pela fechadura da porta: a vozinha ainda estava parada, na mesma posição de antes, olhando pela janela os pássaros engaiolados, mas agora, derramava lagriminhas em cima das almôndegas e na mesa repousava toda a louça já disposta para o almoço com lugar para dois.
Laís Mussarra
Enviado por Laís Mussarra em 10/10/2006
Reeditado em 25/07/2007
Código do texto: T260935
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Sobre a autora
Laís Mussarra
Estados Unidos, 29 anos
139 textos (8285 leituras)
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Laís Mussarra