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Cinamomo Teimoso

        A casa simples rodeada de arvoredo. Uma árvore em especial, destaca-se na memória. Trata-se de um insistente cinamomo que cismou de nascer à porta da cozinha, localizada ao lado do quarto da vovó.

       Quando a pobre velha deu-se conta daqueles brotos crescendo junto à varanda, dileto lugar, para diariamente sorver o costumeiro chimarrão, pôs–se a pensar a respeito: '_ Este “cinamão”, (expressão popular para referir-se ao cinamomo) não vai ficar bom aí, não!'  Ele vai crescer, ficar uma árvore muito grande e escurecer essa cozinha... Não vai deixar 'pegar sol' na janela do meu quarto e, no inverno vai ser muito frio... Sentiu um calafrio ao lembrar as noites de tempestades (medo que carregou até a morte) e, esses meninos medonhos, vão começar a subir em seus galhos, vão cair e... não quero nem pensar! Motivos haviam de sobra. Razões suficientes para o instinto assassino de extermínio ao cinamomo.

       Assim, confabulando com seus botões, Vovó passou rapidamente do arquitetar, à execução do plano de extinção ao infeliz cinamomo. Num dia caldo quente de feijão, n'outro uma bacia de água com sabão ou ainda, a sobra d'água escaldante do chimarrão. Broto murchava, broto crescia.

      Murchava expectativa, crescia indignação!
      Não sei se engraçado ou triste, o fato é que tal alternância se dava aos dois atores principais deste cenário. Ambos resistindo ao tempo e ao intento de seus propósitos antagônicos, de vida e de morte! A luta foi por demais longa e intensa, até que todos em casa acabaram percebendo sua atitude, nada se fez! Afinal, Vovó bem intencionada, 'coberta de razão', possuía argumentos sólidos e convincentes, para defender sua boa intenção.

        Ainda um bom tempo a cena se repetiu. Um dia caldo quente de feijão, n’outro um novo alento, o vento a refrescar as feridas. E, o cinamomo insistia prestando-se inúmeras vezes, de trampolim às peraltices de meu irmão. Ainda assim, devagar e lentamente crescia.
Vovó por sua vez, não desistia. E lá vinha água com sabão novamente!
Certo dia, sentada junto à cadeira de minha avó enquanto tomava seu chimarrão, ao vê-la numa atitude quase insana, despejar a chaleira de água fervente sobre os galhos do cinamomo, inocentemente indaguei-lhe: ' _ Por quê Vovó?'  Vovó gesticulou, gaguejou tentando arranjar mil desculpas para justificar-se. Mas, diante de meu olhar de criança assustada pouco pode esclarecer. Penso que naquele momento perdi parte de minha inocência infantil.

       Não sei ao certo até hoje, como esta luta cessou. Penso que a seiva do cinamomo foi mais forte que a intenção de minha avó. O fato é que o cinamomo cresceu forte e imponente. Vestia-se de verde-claro com cachopas lilases na Primavera, e de amarelo, quase dourado, no Outono. Nos deu sombra nos dias quentes de verão, abrigou a gaiola do nosso Louro, ouviu nossos choros e foi nosso esconderijo no jogo de esconde-esconde. Ah, generoso cinamomo! Ofereceste teus longos ramos num abraço amigo a balançar nossas mágoas e nossos sonhos de criança. Hoje, doce lembrança!
 
     Cinamomo teimoso, venceste o tempo, fizeste história. Meu velho amigo Cinamomo, exemplo de coragem, resistência e sabedoria! Hoje quando a mulher-menina, já não tem o aconchego de teus braços ou o colo da avó, para lhe fazer companhia em seus momentos de solidão, resta tua saudosa lembrança, encharcada de ensinamentos.
 
Gelci Agne
Enviado por Gelci Agne em 13/10/2006
Reeditado em 05/10/2011
Código do texto: T263122

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Sobre a autora
Gelci Agne
Carazinho - Rio Grande do Sul - Brasil, 58 anos
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Gelci Agne

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