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Permanência

Vira eu mundo virado
viramundo sacristão
Vou curtindo esfarrapado
a empregada do patrão

Esse mundo tá virado
Todo mundo é ladrão.
E quem não age assim, coitado,
é condenado à escravidão

Araruta tem seu dia
de comer muito mingau.
Pobre só tem alegria
quando chega o Carnaval

Vou bebendo laranjada
na igreja de boné
E imitando a garotada
roubo o padre e meto o pé

Tô bem perto do coreto
Tô ouvindo Debussy
O padre tá todo de preto
Quis olhar, mas me benzi

A mais linda das Marias
foi comigo se encontrar
Recitei Gonçalves Dias
ela quis se apaixonar

Mas falei no Vaticano
ela então se levantou
Disse que eu era mundano
foi-se embora e me deixou

Eu não sou cabeça-dura
mas freqüento o underground
Gosto da contra-cultura
tudo é experimental

Nesse meio é como a gente
fosse um deles, sim senhor
Vivo de expediente
ninguém nota o que eu sou

Minha boca é cadeado
e por isso um safanão
me jogou do outro lado
Acordei num camburão

Minha fome é corriqueira
porque eu não quis trabalhar
Eles dizem essa besteira
pra quem quer acreditar

Tô na fila do emprego
desde as duas da manhã
Minha irmã chegou mais cedo
pra trabalhar na Ku Klux Klan

Minha vida lá em casa
é um filme de Buñel
O inferno nos arrasa
depois manda lá pro céu

Sob a árvore frondosa
conheci a Capitu
Gabriela tão cheirosa
vou meter-lhe o pau no cú

Quero agora a goiabada
que o político vendeu
depois de muita porrada
com que o povo o recebeu

Não passei na faculdade
mas eu conheci Platão
Era um senhor de idade
que não sabia nada, não

Sendo a relatividade
igual a mc2...
Não sei se isso é verdade
vou pagar pra ver depois

Seu doutor da medicina
tomo AS e Doril
Se o senhor não me examina
vá pra puta que o pariu

Me desculpe a irreverência
e a má educação
Isso é fruto da carência
de uma alimentação

Tô ficando abusado
Mais pareço um picolé
que não quer ser mais chupado
por uma boca qualquer

Minha casa tem palmeira
onde canta o sabiá
Mas não tenho frigideira
nem comida pra esquentar

Me orgulho do polícia
que me toma o que é meu
me dizendo com malícia
meu irmão, você perdeu

Moço, eu sei que fui marcado
pela cor da escuridão
Mesmo assim, muito obrigado
por não ter o seu perdão

Mas o pato e a galinha
estão no meio do quintal
e a filha da vizinha
estende a roupa no varal


Rio, 10/04/2006
Aluizio Rezende
Enviado por Aluizio Rezende em 13/10/2006
Código do texto: T263145

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Sobre o autor
Aluizio Rezende
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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