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Certificado vencido

       O Certificado de Macho do doutor Osvaldo venceu e ele estava desesperado; precisava provar sua virilidade para renovar o certificado junto à sua própria consciência. Ainda mais que seria noite de lua cheia e isso mexia com o psicológico do doutor. Ele virava lobisomem e uivava para as luas mais bonitas que por ele passassem.
Pegou a agenda de consultas e passou os olhos pelos nomes. Carmem nem pensar, Escolástica também não, Amélia dava nojo, Jurema era o cão, Astrid era gorda pra cacete, Ofélia tratava-o como um filho, Laura...
Laura era um bijuzinho como ele mesmo dizia para sua secretária. As consultas de Laura demoravam mais de uma hora e ainda o doutor dava um jeito de puxar assunto com ela antes de abrir a porta. Parecia ser uma relação médico-paciente construída sobre os sólidos alicerces da confiança.
Mandou a secretária ligar para Laura perguntando se ela poderia antecipar a consulta para agora. Cerca de quarenta minutos depois entra no consultório do doutor uma moça de rara beleza: cabelos castanhos ondulados e compridos, morena jambo, rosto sério e jocoso ao mesmo tempo, de óculos, o que lhe dava um ar de mulher culta, e sorriso doce. Laura tinha pouco mais de 1,50m de altura, com tudo em cima, e estava 1,833kg acima do peso. Tire suas próprias conclusões.
Laura estranhou que a consulta foi rápida. Antes de abrir a porta o doutor Osvaldo, num pulo de gato, prendeu-a em seus braços e colou sua boca na dela, sem dar chances de reação. Esse crime — sim, crime porque havia uma vítima — durou cerca de dez segundos e para cada um durou um tempo diferente.
Para o doutor durou menos de três segundos, tamanha era sua excitação; o momento do golpe que ele planejara com precisão cirúrgica durante tanto tempo — por cerca de oito minutos — durara o tempo necessário para que se sentisse com o Certificado de Macho renovado para sempre. Quem poderia duvidar de sua virilidade agora?
Para Laura durou um tempo que o relógio não pode medir, em que ela desceu no mais baixo dos andares do inferno. Viu-se assediada por horrorosos demônios que lambiam os beiços e esfregavam as mãos sujas pelos mais hediondos crimes e avançavam contra ela. Não ousou falar disso com ninguém por medo de ser julgada.
As coisas que acontecem entre o céu e a terra são surpreendentes. O doutor não precisava ter feito aquilo com Laura, era só ser romântico que ela cederia, afinal era um homem bonito, gentil, simpático, bem sucedido, inteligente e se importava com ela.
Laura estava se apaixonando pelo doutor Osvaldo, mas agora estava ofendida e humilhada, com um punhal cravado no peito por ver seu sonho de menina quebrado em mil pedaços. Teve vontade de denunciá-lo, de quebrar as unhas na cara daquele monstro, de gritar, de por para fora sua fúria de mulher usada mas ele era o único especialista na região que poderia ajudá-la com seu grave problema de saúde.
Por isso Laura chorou o que havia para chorar, sofreu o que havia para sofrer e, de cabeça erguida, compareceu à próxima consulta determinada a cortar aquele homem ao meio com seu olhar de navalha. Não havia mais ternura, só nojo. Ainda era uma moça de respeito que não tinha nada a temer. Ele roubou um beijo, mas não sua dignidade.
Sua surpresa foi que o doutor Osvaldo, de cabeça baixa, pediu-lhe desculpas, com os olhos embebidos no caldo escuro e viscoso do arrependimento e da vergonha. A renovação do seu Certificado de Macho fora caçada pela sua própria consciência.
Carlos Henrique Fernandes Gomes
Enviado por Carlos Henrique Fernandes Gomes em 20/10/2006
Código do texto: T269443
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Sobre o autor
Carlos Henrique Fernandes Gomes
São Paulo - São Paulo - Brasil, 45 anos
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Carlos Henrique Fernandes Gomes