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Filha da Rua

Ao nascer do sol,
Na aurora do dia,
Não tenho mais lar,
Nem tenho companhia
O clarão da lua,
As estrelas como guias,
Busco outros solitários
Que paguem pelo meu dia.
Prostituta, cortesã,
Tenho muitos adjetivos,
Filha das ruas certamente
Mas nem sempre por opção.
Venho de lares desfeitos,
Família já tive, perdi-a no tempo,
Vítima fui da violência do lar,
Fugi, chega de tanto apanhar!
Aos oito anos vendi balas,
Aos dez, limpei pára-brisas...
Até que me encontraram,
Para alimentar pedofilia...
Foram muitos os senhores,
Respeitáveis e calhordas,
“Doce querubim” me chamavam,
E depois meu corpo exploraram...
Execravam minha pureza,
Satisfazendo sua tara.
Aos doze anos, menstruei...
Deixei de ser menina, pureza perdida...
Jogaram-me na rua e disseram:
“Vá à luta!”
Virei profissional sem carteira assinada.
Cada esquina traz uma lembrança,
Um cliente, uma “féria”, uma surra!
Viver nas ruas não é fácil...
A guerra urbana começa aqui.
Vendo meu corpo, jamais minha alma,
Usam, abusam, não faço feio...
Só não me peçam... Não dou... boca não beijo,
Guardo pra quando um dia me apaixonar.
Espero que ele venha e me ajude a me libertar,
Da vida das ruas, dos sonhos desfeitos,
Das lembranças macabras,
Tudo o que eu perdi...
Ou, talvez ainda mais,
O que quis e jamais conquistei...
Não precisa ser príncipe,
Nem montar cavalo branco,
Basta que me ame, e aceite meu beijo,
A única pureza que pude lhe reservar.
E, se ele não vier ou não me desejar,
Não vou culpá-lo e nem vou lhe odiar.
Sei que meu sonho posso não realizar,
Mas é ele quem me ajuda a essa vida aturar.
Aos dezoito não sobra muito
Para minha história contar...
Minha cama teve muitas formas,
Dosséis e grama, chão batido e o cais,
Meu teto já foi de estrelas, espelhos, mancais,
Hoje, estou consumida,
Pelo ‘crack’, pela rua, pela vida...
Sei que não duro muito mais,
E só peço que a morte não me seja dura.
Fui vítima das circunstâncias,
Mas não tenho do que reclamar...
Ainda terei meu príncipe,
Aquele a quem irei beijar...
Em meu leito de morte,
Ele virá me oscular...
Escrevam na minha lápide...
“Não tive opção... Será que podem me perdoar?
Assim, descansarei... Da vida que me puderam dar...” 

24/10/2006 – 23:50 horas

(Em homenagem às mulheres cujas vidas não puderam mudar... pensei em colocar na categoria social...mas acho que tanto lá como aqui a poesia cumpre seu papel e transmite sua mensagem. Prostituição nem sempre é opção... mas fruto de um fator social... principalmente quando proveniente de lares desajustados... Beijos no coração.)
Akasha De Lioncourt
Enviado por Akasha De Lioncourt em 25/10/2006
Reeditado em 10/07/2009
Código do texto: T272977
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Akasha De Lioncourt
São Paulo - São Paulo - Brasil, 45 anos
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