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Poetrix ou Hai-kai?!

Como amante da poesia, estou constantemente preocupado com o andar do Poetrix, assim que vislumbro algo interessante, penso logo em compartilhar com os que gostam desse novo estilo de escrita. Digo novo, pelo fato de que só há sete anos que a idéia de começar um movimento restrito a tercetos, aconteceu na Bahia, por iniciativa do poeta Goulart Gomes que, com sua criatividade e paciência, resolveu reunir um grupo de escritores que estivessem dispostos a dividir com ele aquela idéia. Hoje podemos ver em vários seguimentos da Internet poetas que, de alguma forma, estão escrevendo esses tercetos. Acredito que ainda temos muitos caminhos a percorrer até que o Poetrix ganhe os quatro cantos do mundo. Esta é uma tarefa árdua, mas não impossível.

Veja que já inicio o texto com uma indagação abusada... Poetrix ou Hai-kai?! Não tenho aqui, a intenção de discutir qual é o mais aceito, ou o mais difundido, ou sequer, o mais encantador. Quero deixar claras as minhas constatações e minhas observações no decorrer deste pequeno espaço de tempo - que corresponde a sete anos - escrevendo e lendo Poetrix.

É inegável que o número de poetas que se dedicam ao Poetrix hoje é bem maior do que aquele de quando começamos, porém é indiscutível que estamos mais dispersos, que temos trabalhado isoladamente, o que não me parece ser uma boa solução. Tenho visto algumas pessoas escrevendo poemas com quatro versos como se fossem Poetrix, esta é uma falha que pode ser facilmente corrigida, basta que essas pessoas se inteirem um pouco mais com os que já estão aí há mais tempo. Ou que façam uma breve pesquisa nas páginas de literatura da Internet para que consigam um bom material que possa dirimir tais dúvidas.

Existem diferenças fundamentais entre o Poetrix e o Hai-kai. A mais gritante é a que nos “obriga” a colocar título no poema, enquanto no Hai-kai, isto é impraticável, muito embora tenhamos registros de Poetrix sem título e Hai-kai com título. Estas “aberrações” são frutos da imaginação do povo brasileiro, que, em verdade, não deixa de ser também, fruto da miscigenação da nossa raça. Os primeiros Hai-kai com título foram apresentados por Guilherme de Almeida, isto quando o Hai-kai estava dando os seus primeiros passos aqui no Brasil. Por outro lado, Poetrix sem título é uma conseqüência da influência do Hai-kai que aconteceu no início do movimento. Logo percebemos que esta diferença era necessária e fundamental. Muitos Poetrix perderiam o sentido sem o título, uma vez que ele pode fazer “parte” do texto, ou seja, sem ele, repito, alguns poemas ficariam sem nexo. Esta não é uma regra geral. Na maioria dos Poetrix o título não faz parte do texto, apenas oferece ao leitor, uma idéia do que vem a ser o poema.

Outra diferença básica é que o Hai-kai traz, desde os seus tempos mais remotos, uma estrutura rígida de cinco sílabas no primeiro verso, sete no segundo e cinco no terceiro, formando o seu esquema tradicional de 17 sílabas métricas. Veja que ele apresenta a forma de um losango, uma estética definida e muito significativa. Para exemplificar melhor, escrevi o seguinte Poetrix:

    Hai-kai
   _ _ _ _ _
 _ _ _ _ _ _ _
   _ _ _ _ _

Alguns haverão de perguntar se isto é mesmo um Poetrix. Afirmo que sim. Veja que ele tem o título definido - Hai-kai, veja que o poema tem os três versos obrigatórios do Poetrix, veja também que o texto, nele contido, nos diz: estou lendo um Hai-kai, mas ele não é um Hai-kai.

E como seria a leitura deste poema? É nítido que o “texto” nos induz ao Hai-kai. O Poetrix nos permite imaginar coisas, nos levam a criar novas estruturas, novas estéticas, novas linguagens. O que não é viável no Hai-kai. Assim a leitura fica por conta do leitor.

É engraçado falar estas coisas. Sempre que leio os Poetrix de Beto Quelhas, percebo na maioria deles, a intenção de uma apresentação que seja esteticamente semelhante à do Hai-kai. É como se isto fosse uma marca registrada do autor. Outro detalhe que me chama a atenção em seus Poetrix, é o fato de que ele sempre coloca a primeira letra do título em destaque, veja que a letra “d” não é uma letra maiúscula, mas está grafada como se fosse. Esta é outra evidência de que o autor está procurando uma característica diferenciada para os seus poemas. Aqui temos um belo exemplo.

     destino

        na dúvida
siga as borboletas
     :elas sabem

Visualmente este Poetrix se parece com um Hai-kai, mas na essência é completamente diferente.

O Poetrix nos permite ousar, nos permite voar para outros mundos, nos permitem procurar novas vertentes, novas estruturas. Ele é menos rígido na composição, por isto está mais próximo da nossa cultura, da nossa realidade, dos nossos problemas sociais. Por natureza somos transgressores, isto nos leva a buscarmos outras formas de escrever Poetrix, que não sejam exatamente a mesma de quando ele foi pensado, isto só o enriquece. O Poetrix permite a ciranda, a ironia, o concretismo, o humor, o diálogo, o clonix, o letrix, o duplix, o triplix e com certeza, um mundo de outras variações que ainda não descobrimos, mas que estamos procurando. Ele nos oferece várias leituras, várias interpretações, o que dificilmente ocorre no Hai-kai. Esta semana escrevi um Poetrix que achei interessante e que reforça estas variações.

Abrindo a roupa

Z           R R R
  I     E
     P

Um poema como este não tem o menor sentido diante das características que norteiam o Hai-kai, mas para o Poetrix este é um poema normal, pois apresenta nitidamente os três versos, o título e uma dose de humor. Aqui o leitor pode imaginar uma infinidade de situações. Teve alguém que me disse: “o que mais gostei foi dos erres”. Não sei exatamente o que foi que esta pessoa imaginou. Para mim, os RRR representam aquela parte do zíper onde se segura para, de fato, se abrir a roupa.

No Poetrix podemos usar até 30 sílabas métricas, mas nada impede que usemos um número menor. O mesmo não ocorre com o Hai-kai, que exige dezessete sílabas. No Poetrix se busca a concisão, com isto, raramente vamos encontrar Poetrix com 30 sílabas. Para ilustrar a concisão escrevi o seguinte Poetrix:

Porto solidão

só,
canto
e rio

Um outro Poetrix que gostaria de comentar é:

Código de barra

PIPIPIPIPI
AAAAAAAA
IPIPIPIPIP

Se você fizer uma leitura rápida, certamente o texto não vai lhe transmitir nada, é como se você fosse a um supermercado e lesse o código de barra de um dado produto, de início, não saberia o preço daquele objeto, mas se você fizer uma leitura ótica, vai ver que lá está grafado o valor do produto, assim como no poetrix: uma leitura mais atenta nos mostrará que nele está escrito - PAI PAI PAI.

O Poetrix é uma fonte inesgotável de novos caminhos e novas conquistas. Pelo que tenho lido e visto através de livros e sites da Internet, atrevo-me a dizer que já temos perto de cem mil Poetrix. Não tenho notícia de outra forma de expressão minimalista que tenha se desenvolvido com tanta voracidade em tão pequeno espaço de tempo e, o que é mais significativo, com qualidade.

A título de ilustração eu diria que todo Hai-kai pode vir a ser um Poetrix, porém a recíproca é infinitamente mais complexa, ainda que se retire do Poetrix, o título.

O que mais me fascina é saber que grandes Poetrix podem ser escritos com poucas palavras, ou às vezes com letras e números, ou ainda com símbolos, gráficos e cores.

Estas eram as considerações que eu queria fazer neste momento. Aceito críticas e sugestões para aprimorar o texto. Só mais um detalhe: VIVA A POESIA!!!...
Pedro Cardoso DF
Enviado por Pedro Cardoso DF em 26/10/2006
Reeditado em 07/11/2006
Código do texto: T273884
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Pedro Cardoso DF
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 68 anos
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