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QUARESMA

No meu tempo de menino a Quaresma era coisa séria: não se comia carne, se mordêssemos a hóstia, na hora da comunhão, saía sangue... Fazer correria e gritaria nem pensar: as almas vinham nos buscar à noite. Não se podia falar palavrão de jeito nenhum porque, então, elas nos arrastariam acorrentados até no Inferno... Era de arrepiar, mas foi perdendo força. Agora, parece que o Padre Bento está querendo moralizar a coisa de novo: ninguém mais respeita...
Apesar dos perigos, eu via nos olhos da minha mãe que aquilo não era bem verdade; ela mesma nunca usara tais expedientes para nos acalmar... Assim, lá pelos 9 ou 10 anos, eu pouco ou nada me importava com as besteiras que as crendices nos faziam chegar aos ouvidos, ainda que continuassem firmes e fortes no passar dos anos.
Logo, o medo dos outros era motivo para a nossa diversão. Eu tinha um amigo que comungava das mesmas idéias que eu, talvez até mais radicais, ainda que a mãe dele o arrastasse para as missas e encenações, a sua opinião só fazia por se fortalecer: Quaresma era bom para pescar, nadar no açude, chupar cana e fazer tudo o que costumávamos fazer em tempos normais...
Naquela tarde, o Sol descendo a nossa frente, voltávamos do açude da fazenda: eu, ele, o Mano, o Dalton, o Nego e o Juscelino. Olhei para a cara do Paulo, que andava à minha direita: ela parecia ser feita de ouro, o ar estava dourado, a estradinha havia sido patrolada recentemente, a terra ainda estava solta e havia muita poeira no ar... Mais uns dois quilômetros e avistaríamos a cidade que ficava no vale depois da subida, que já estava quase no fim. À esquerda havia um mato, cortado por uma estradinha que levava à Vila Operária, muitas pessoas a usavam para vir à cidade, ficava mais perto que usar a estrada principal e, então: tcham! A idéia: haveria um montão de gente passando pelo mato logo mais à noite para virem assistir a Procissão do Senhor Morto, um ritual no qual um andor, com uma estátua de um Jesus morto, era carregado pelas ruas escuras da cidade, todos, com lamparinas nas mãos, entoando cânticos fúnebres...
Estanquei o pelotão:
- Turma! Que dia é hoje?
Como se ninguém ali soubesse que era Sexta-Feira Santa...
- Por quê? Ta biruta?
Respondeu o Nego, girando o dedo indicador na frente da orelha direita.
Apontei para a esquerda, mostrando o encontro das estradas e, passando pelos nossos pés,  indiquei a direção da cidade...
-Sim. O que tem a estrada?
Perguntou o Paulo.
- A Procissão logo mais à noite... As pessoas passando pelo mato... O medo!
- Sexta-Feira Santa!
Exclamou o Paulo.
O Dalton dava saltos, batendo com as mãos nos calcanhares...
De repente eu estava cercado:
- Mas, o que tu estas pensando? Oh, Coriolano...
Perguntou o Juscelino, fazendo ares de desentendido.
Simples, perguntei:
- Vamos fazer uma sepultura de cova rasa bem no meio da estrada, lá dentro do mato?
Expliquei:
- A terra está solta e bem seca. Com as mãos ou com alguma casca de árvore a gente amontoa a terra imitando uma sepultura... Com taquaras fazemos uma Cruz e com Cipó-de-São-João, a Coroa...
Corri para não ficar falando sozinho...
Meia hora depois, parecíamos uns tatus, mas, a obra estava concluída: o Dalton e o Mano fizeram uma Coroa de dar inveja para quaisquer papa-defuntos, a Cruz foi feita de Taquaruçu, amarrada com cipó. Ornamentamos o “túmulo” com um cercadinho de taquara lascada e enfeitamos com flores e ramos verdes, ainda espalhamos outras flores pelas redondezas...
Pela primeira vez vi a minha mãe mais desconfiada que feliz por eu querer ir à Procissão do Senhor Morto, o mesmo foi sentido pela mãe do Paulo, que comentou com a minha.
Naquela noite não ouvimos nenhuma conversa do povo pelas ruas. Batemos perna por todo o cortejo, de ouvidos em pé e nada... No sábado, já havíamos esquecido o assunto.
E não ouvi nada, porque não fui à missa no Domingo, nenhum de nós fomos à missa naquele Domingo, com exceção do Juscelino... Apenas ouvimos comentários de que o Padre abrira um parêntese no Sermão de Páscoa para “admoestar” as pessoas que se divertem às custas da fé ou crenças das pessoas...
Segunda-feira, na aula, encontramos o Juscelino:
- Cambada! Vocês tinham que ter ido à missa, foi a maior “mijada” que já ouvi. Eu ficava olhando para os lados, parecia que todos olhavam para mim... Será que alguém sabe?
Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 01/11/2006
Reeditado em 02/11/2006
Código do texto: T279709

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Sobre o autor
Chico Steffanello
Sinop - Mato Grosso - Brasil, 58 anos
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