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O RETORNO DA MÚMIA

Nova Genova era uma cidadezinha encravada no encontro de duas montanhas, o Lajeado Grande entrava nela pela Cachoeira da Gruta e a percorria bem pelo meio; quase lá no fim, tocava o moinho e a tafona do Seu Pedro. Falavam que tínhamos cerca de 3 mil habitantes, acho que era para não passar vergonha por conta da Santa Maria da Boca-do-Monte, nossa vizinha, com seus setenta mil... Colônia forte: muito milho, polenta boa; muito porco, muito salame, copas, torresmos... Muita uva, muito vinho; bergamotas, pêras, ameixas, marmelos, guabirobas, uvaias, jabuticabas, pitangas; fazia-se queijos, manteiga, melado, açúcar mascavo, rapadura com e sem amendoim, com mamão; fazia-se muita compota, de pêssego, de figo, de casca de limão cidra; tachadas de marmelada, aliás, marmelada servia para designar qualquer doce em pasta cozido no tacho de cobre: pessegada, uvada, goiabada... Dava trigo, dava feijão, abóbora, mogango-de-pescoço, moranga; cada colheita era uma festa porque era costume se trabalhar em mutirões; cegar o trigo na foicinha, fazer medas, empurrar a trilhadeira morro acima, duas até três juntas-de-bois, segurar morro abaixo: carroça cheia... Tinha broa, pão-de-forno, cuca... O café era servido no eito: broas inteiras, pão, vinho, salame, queijo e não menos de um tipo de “marmelada”. Para o meio-dia, descíamos o morro para afiar as ferramentas, se refrescar na bica, almoçar a sombra dos Cinamomos e tirar uma cesta sobre pelegos ou na pedra fresquinha do porão da casa do dono da roça. Quando eu participava, o meu serviço era correr o eito com as moringas de água, alcançar a lima, a pedra de assentar o fio e buscar mais água na mina Era a parte que eu mais gostava: tinha que entrar no mato, no frescor das sombras das grandes árvores, pisar na maciez da relva montesina e sentir o seu cheiro de vida...
Não faltava comida na mesa, mas, para tudo o mais era uma grande batalha... Na primavera, eu pintava casas para ajudar em casa, comprar roupas, um calçado novo, sobrar um troco para gastar no fim de semana: jogar bola... Isso era Lei para mim, ou melhor, era uma religião da qual eu não só era um fiel praticante como era um fanático a ponto de jogar campeonato de interior...
Lembro-me que foi por causa da bola, que jogávamos no campinho da praça, que cacei uma encrenca terrível com o cachorro do açougueiro, um Policial grande, balofo e peludo, dava pela minha cintura: ele pegou raiva de mim, quero dizer, implicância comigo. Seguidamente a bola achava um dos tantos buracos na cerca de tela e ia dar, ladeira abaixo, do outro lado da rua, na porta do açougue e, logo atrás dela, eu, invadindo para pegá-la antes que fizesse algum estrago... Franzino, eu era rápido; leve, eu voava atrás da bola: me chamavam de Serelepe... Antes que o cachorro gordo e sonolento percebesse, eu já estava zarpando com ela...
Com o tempo, o bicho não podia nem me ver: me encarava na rua, corria atrás de mim, se eu facilitasse, ele me pegava mesmo! Até distinguir as minhas passadas no meio da correria dos meninos, ele sabia. Aprendi andar de fininho nas redondezas do açougue e da casa do açougueiro, que era a segunda depois do açougue e a ficava a duas da esquina da minha rua. Às vezes, fazia por pirraça correr batendo os pés, enquanto passava pela frente da casa do açougueiro, só para ouvir os latidos e a correria desabalada dele, vindo em direção ao portão. É claro que fazia isso quando o portão estava fechado, depois era “quebrar” para a esquerda e mais uns 100 metros já estava dentro da minha casa...
Medo dele, eu tinha, mas, me cuidava... De vez em quando esqueciam de fechar a tramela e o portão, que era de madeira, ficava entreaberto, enroscado na grama alta entre os trilhos de calçada que levavam até a garagem da casa. A rua era mal iluminada, escura, mesmo, um perigo uma tocaia do cão, o negócio era pisar macio e em silêncio quando passava por lá à noite.
Nunca vou me esquecer quando chegaram os primeiros televisores na cidade: os Colorado RQ eram os mais requisitados pelos homens de posses e tinham um lugar de destaque na sala da casa. A primeira vez que vi um, fiquei impressionado: sobre quatro pernas de madeira, finamente torneadas, com pezinhos de metal dourados, reinava impoluto; só o dono da casa é quem se atrevia a ligar o bicho... Depois de colocar o fio na tomada de energia, girava-se o botão e ele “dava” uns estalidos e uns chiados e a tela se iluminava, mostrando as imagens, ou um chuvisqueiro de tracinhos pretos e brancos quando estava “fora-do-ar”.
Nós não podíamos ter um, mas, o Rodrigo, que era o meu melhor amigo, tinha: o pai dele era o dono do único posto de gasolina da cidade... E foi na casa dele que assisti aos primeiros seriados, nos sábados à tarde; O Zorro; Rim-Tim-Tim; Perdidos no Espaço; Ben, O Urso Amigo... E aos filmes à noite, quando a mãe deixava... Filmão eu não perdia, trabalhava dobrado para não correr o risco de ter a minha licença negada... Assim foi. Afundei um carreiro nas pedras do pavimento das ruas entre a minha casa e a do amigo.
Cada evento! Tudo era novidade, tudo era uma surpresa: A chegada do homem à Lua, inesquecível... Mas, nada que se compare ao Retorno da Múmia: fora comentado a semana inteira, os piás não falavam noutra coisa. Os mais medrosos se “cagavam” de medo só de ouvir o Rodrigo comentar no campinho o que vira na propaganda.
Naquela noite de sábado, estávamos em 8 na casa do Seu Telmo, fora os da casa: o Rodrigo, dois primos dele e a formosura da Cassiana, perto de quem eu era simplesmente destemido e não impressionável por filme algum...
Hoje eu seria capaz de rir de um filme daqueles, mas, à época, aquilo era o Terror: preto e branco, planos fechados, sugestões, suspenses e sobressaltos até o tradicional grito de horror da mocinha e tcham! A Múmia aparecia!...
O Breno e o Cezar pareciam de cera, o Lui puxou um pelego na cara e a Cassiana, bem atrás de mim, gritou junto com a mocinha; por nada não dei um pulo e gritei também, os meus nervos de aço trincavam-se como se fossem filetes de gelo na minha espinha...
Ao sair de lá, a noite parecia ser em preto e branco: a cidade era cinza de neblina e o frio parecia aqueles chuviscos da TV trespassando a roupa. Nenhum dos amigos moravam para o meu lado: na primeira esquina, já fiquei sozinho: apurei o passo logo na primeira quadra, vendo os paralelepípedos correrem para baixo dos meus pés... Passei o colégio das Freiras, a Casa Canônica, o muro da Igreja, alto que só: servia de arrimo a uma encosta inteira, lá no alto a Igreja, diziam que em baixo dela havia uma cripta onde estavam enterrados muitos padres... Padres podres saindo através das pedras do muro... Bela hora para lembrar-me de uma coisa dessas! Atravessei a rua e, à medida que me aproximava do campinho, aumentava a escuridão e a sensação de que alguém estava atrás de mim...
Quando atravessei o campinho, já o fiz em desabalada carreira, saltei a cerca e desatei a correr ladeira a baixo, na escuridão. Só havia uma lâmpada acesa na porta do açougue, o resto era breu e eu corria... Escutei um tropel e um rosnado, vindo em minha direção e, de repente, senti um choque: bati de frente com os joelhos no flanco de um bicho grande e peludo, nos embolamos todo. O bicho rolou por baixo de mim, amaciando o tombo e eu  mal tocava no chão; em duas ou três cambalhotas já estava em pé e correndo.
Nada vi. Apenas ouvi um misto de grito e gemido, sobrepujado pelo meu grito, saído do fundo da minha alma arrepiada de susto, e um ganido em meio ao “blôf” da batida;
- Quâaaimmm! Âimmmm! Nhâimmmm!...
E, depois que “dobrara” a esquina,  ouvia um espaçado e solitário latido:
- Aouum!... Aouum!... Aum?
Latidos que pareciam mais inquirição à noite escura do que de um sinal de ataque.
No portão lá de casa, parei na luz para ver os meus joelhos e, apesar da tremedeira, tive que sentar no degrau e rir à vontade. Gargalhei de ecoar pela noite fria ao continuar ouvindo o entrecortado Auf!...Auf...Au?... Do cachorro do açougueiro, ecoando na escuridão, atropelado por mim...
Dois dias depois, eu vinha distraído, “dobrei” a esquina, perto da barbearia, e me dei de cara com o cachorro! “To” frito, pensei, olhei para uma mesinha cheia de cremes e potes, quando percebi que o cachorro era quem se assustara comigo; estancou o trote, travando as quatro patas, olhou-me com os olhos esbugalhados e, ganiçando, meteu o rabo peludo entre as pernas, deu meia volta e sumiu...
Daquele dia em diante, era ele quem tinha medo de mim: não podia me ver que fazia uma “gritaria” e sumia para casa com o rabo entre as pernas... Eu ficava imaginando se ele também havia assistido, na casa do açougueiro, O Retorno da Múmia, momentos antes do atropelamento no escuro!
Chico Steffanello
Enviado por Chico Steffanello em 01/11/2006
Código do texto: T279711

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Sobre o autor
Chico Steffanello
Sinop - Mato Grosso - Brasil, 58 anos
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