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É VERDADE,SEU MOÇO

É VERDADE, SEU MOÇO
(Levy menezes)
A confluência dos rios Cricaré e Itaunas, em Barra de São Francisco, norte do Espírito Santo, era um local piscoso. Hoje, infelizmente, a poluição tomou conta de tudo. As águas são de cores indefiníveis. Os peixes desapareceram da região ou morreram.

Lembro-me, com certa saudade, que, quando jovem (ou mais jovem?), de rosto ainda imberbe, era ali que eu passava horas e horas, procurando distrair-me com a pesca do lambari. Não precisava de petrechos. Bastava uma pequena vara de bambu, linha, anzol mosquito e isca, feita de miolo de pão francês misturado com fubá e água.

Lá era, também, o pesqueiro preferido pelo senhor Ivo de Souza, pescador por vocação. Todos os dias, depois do almoço e da sesta, passos lentos, caminhava para a confluência dos rios.

À noitinha, com ou sem peixe, voltava o senhor Ivo para sua casa. Depois de um banho, descia uma pequena escadaria, atravessava a rua e, no boteco “Meu Cantinho”, se acomodava numa das pontas do balcão e passava a ingerir bons goles de calibrina. Nesse horário, entre 18h30m e 20h, o velho Ivo era o dono da festa. Só ele falava. Todos ouviam-no em silêncio absoluto. Geralmente os seus casos versavam sobre a pesca do dia. Falava o tempo todo sem esboçar um sorriso. Sempre que terminava um caso, dizia: é verdade, seu moço.

Foi assim que, num belo dia, como ninguém é de ferro, lá compareci no “Meu Cantinho” e entornei algumas. Tive a oportunidade de ouvir do senhor Ivo um caso que teria acontecido naquela tarde. Dizia ele:

- Como você sabe, meu filho, do lado de cá do rio tem aquele enorme pé de sempre-lustrosa cujos galhos são tão grandes que, quando o vento sopra, invadem o rio, formando um grande redemoinho. É ali que eu pesco. Cheguei, ajeitei o material, fiz um bom cigarro de palha - bom para espantar mosquitos - e passei a pescar. Como você também sabe, meu filho, lá é muito tranqüilo, só se ouve o barulho das águas deslizando pelas poucas pedras existentes e as folhas ao farfalhar do vento. Depois de um certo tempo, como não estava “beliscando” (expressão que se usa quando os peixes não estão tentando comer a isca), tive sono e quase adormeci. Chamou-me a atenção um pedaço de melodia que ouvi. Bem assim: “ Amélia não tinha a menor vaidade. Amélia é que...”. Olhei para o lado esquerdo, de onde vinha o som, e não vi ninguém. Pensei: devo ter dormido e sonhado. Mas qual nada, novamente ouvi nitidamente a mesma coisa: “Amélia não tinha a menor vaidade. Amélia é que...
” Puxei a linha do rio, coloquei a vara de pescar no chão, levantei-me e me dirigi até à sempre-lustrosa. Olhei atrás dela. Nada. Aí eu me arrepiei. Mas continuei na busca e, com muita paciência, passei a perscrutar melhor o local. Bingo! Ouvi o mesmo som. Sabe o que era? Alguém jogou um pedaço de disco de vinil no rio. O caco de disco parou no redemoinho e quando o vento soprava, um galho da sempre-lustrosa vergava e um dos seus espinhos caía sobre o sulco do caco de disco, daí a melodia: “Amélia é que era mulher de...

É verdade, seu moço - completou o senhor Ivo
levy pereira de menezes
Enviado por levy pereira de menezes em 03/11/2006
Código do texto: T281510
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Sobre o autor
levy pereira de menezes
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 82 anos
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