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O dia que não aconteceu

Ela acorda atrasada, mas sem querer levantar agora. Olha para o relógio. Só mais cinco minutos. E mergulha novamente nos sonhos mais reais e sem nenhum sentido.
Levanta, finalmente entra no chuveiro. “Mas, espere, por que sai sujeira e não água?”. Está suja, não vê problema em ficar mais ainda. Procura uma roupa, veste a primeira que encontra. Está atrasada, mas não tem pressa. Arruma cada mecha de cabelo que está caindo sobre a pia, não se importa. Não come nada, e sai de casa em direção ao ponto de ônibus.
Chegando lá, tudo estava deserto. A multidão, o cheiro forte, os bêbados e a pressa não estavam lá. “Estranho, todo dia é assim”. Olha, o ônibus acaba de chegar, mas não tem cobrador. O motorista está dormindo, mas segue seu rumo mesmo assim. Melhor, não gastaria seu dinheiro com passagem. O ônibus completamente vazio. “Não preciso sentar ao lado de ninguém”, e escolhe um lugar ao final, sendo ele largo e incomum. Ali mesmo deita, e vai a direção ao seu trabalho, mais tranqüila do que nunca. “Faz tempo que não sinto essa calma”. As ruas parecem estar em sintonia com ela. O cenário ao fundo passa devagar, com uma luz bela e sombria, sem a pressa, com a lentidão, mas também com o alerta nos olhos.
Finalmente chegou. O ponto do ônibus não ficava muito longe de seu trabalho, ia andando até lá. Uma brisa fria passava de um lado para o outro, e o frio fazia com que se encolhesse em seu casaco. “Um cigarro não faria mal agora”.Não, não podia. Chegar com o cheiro de cigarro no trabalho? Não gostam. Olham torto, faziam de lá um inferno. “Hoje não me importo”. e coloca as mãos no bolso procurando o remédio de sua calma. Ali estava, e sentou no meio fio para apreciá-lo da maneira certa. “Já estou atrasada mesmo”.
Fumou um, dois. Parecia estar ansiosa, apesar da tranqüilidade fora do comum. Satisfez-se, e em seu bolso guardou seus cigarros. “Mas o que é isso em meu bolso?”, e pega uma arma que nunca tinha visto em sua vida, a não ser em sonhos e filmes. E brilhava, junto com seus olhos. Nesse momento estava na porta de seu trabalho, um escritório monótono. Não pensou duas vezes, essa era a chance. Ela está carregada. Sem perceber, aperta o gatilho e logo se enche de sangue o pequeno estabelecimento que tinha que suportar todos os vãos dias de sua vida. “Acabou. Agora eu posso ir para casa e dormir tranqüilamente”.
E acorda. Está atrasada, mas a rotina continua.
Gabriela Gusman
Enviado por Gabriela Gusman em 06/11/2006
Reeditado em 06/11/2006
Código do texto: T283942
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Sobre a autora
Gabriela Gusman
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 26 anos
12 textos (4448 leituras)
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Gabriela Gusman