Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Buraco de sonho

Dos sonhos fiz um buraco.
Do nada teci um saco.

Enchi o buraco de ilusões
e o saco de solidões.

Preguei-me a partida
de pôr ao ombro
o saco tecido do nada.

Tapei os sonhos do buraco
com areia molhada,
bem calcada,
por forma a não deixar que soubessem
quanto sonhei.

Parti para a vida
de saco ao ombro,
saco tecido do nada,
todo eu e as minhas solidões.
 
Fui apanhando as cerejas
que achei no caminho.

Devagarinho,
fui comendo
uma a uma.
A dos amigos,
a dos parentes,
a dos afins,
a dos diabos
e a dos querubins.

Ai de mim
que de todas provei.

E não sei em que dia,
em que hora, em que lugar,
tive uma vontade louca
de voltar
ao buraco
das minhas ilusões.

Retirei a areia molhada,
e encontrei
quase nada.

De tudo que deixei
apenas restavam caroços
de cerejas comidas,
ressequidas.

Voltei a partir
de saco ao ombro,
saco tecido do nada,
todo eu e as minhas solidões.

Mas levava o saco mais cheio.
Levava também o recheio
Das cerejas
Comidas por multidões.
Manuel Paulo
Enviado por Manuel Paulo em 06/11/2006
Código do texto: T284081
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Manuel Paulo
Portugal
29 textos (688 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 07/12/16 08:40)
Manuel Paulo