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A VOLTA DO ZÉ VENETA

--Meu nome é José Tranquilino Amoroso da Paz, mais  conhecido como Zé Veneta – disse à atendente na Cínica de Olhos. Neste cartão que lhe estou entregando  tem o meu estado civil, residência, idade, naturalidade, CEP, CPF, telefone, fax, endereço eletrônico, enfim tem tudo que você poderia precisar para preenchimento de malditas fichas.
--Obrigada, senhor Veneta - disse a atendente com um largo sorriso.
Enquanto a jovem atendente  procurava algo no computador, Zé Veneta se ajeitou perto do balcão e procurou conversa com outra pessoa que, também, estava esperando por atendimento. No auge do bom papo, ouviu-se a voz da atendente:
--Senhor Veneta, está tudo certinho agora. O senhor veio fazer nova consulta ?
-- Não. Não mesmo. Eu vim até aqui para abastecer  o  carro, completar o óleo do motor, verificar a água, limpar o pára-brisa, etc.
O Zé Veneta é uma ótima pessoa, responsável, bom caráter, mas, às vezes, extrapola, excede na sua irreverência, humilhando as pessoas. A atendente, com cara de choro, não perdeu a calma. Depois de algumas anotações, devolveu a carteirinha ao Zé e pediu que ele aguardasse ser chamado.
Veneta procurou uma cadeira e nela refestelou-se confortavelmente. Apanhou uma revista (velha e surrada, como é comum nas clínicas) e passou a folheá-la, demonstrando certo interesse, até que um vizinho, tentando iniciar um papo, perguntou-lhe sobre sua leitura  preferida, ao que respondeu que lia tudo, mas gostava mais de revistas e jornais que tratassem de esporte. O vizinho, diante daquela resposta, perguntou qual era a sua opinião sobre os brasileiros que estão na Grécia em busca de medalhas:
-- Os brasileiros, meu caro, ao invés de terem ido à Grécia, gastando tanto dinheiro, mostrar o nosso subdesenvolvimento em matéria de esporte,  por que não foram à Serra Pelada, muito mais perto e com mais probabilidade de trazerem ouro ?
-- Bem... quer dizer... ou melhor – gaguejou o vizinho – eu não tinha pensado nisso!
-- Não é só o senhor – disse Veneta – que não pensa. A grande e extraordinária maioria dos brasileiros não pensa, mas quando o faz...
-- Senhor Veneta – gritou uma funcionária – consultório 05, pode entrar.
Zé pediu licença ao vizinho, devolveu a revista ao seu devido lugar e caminhou para o consultório 05. Foi recebido pelo médico com alegria. Feitos os cumprimentos, o médico ofereceu-lhe uma cadeira e fez alusão à boa aparência do cliente, ao tempo em que perguntou o que ele andava fazendo:
-- Tenho falado mal do senhor, que me receitou um colírio muito caro; tenho rogado praga aos Ministros do STF que permitiram que o governo enfie  a mão no meu bolso e dele retire 11% dos meus parcos proventos; tenho, todos os dias, com rara regularidade, xingado o governo federal e me deito bem tarde para ter mais tempo de rezar muito para que  apareça um candidato que tenha as mesmas idéias e qualidades do Neco, o da novela das seis.
-- Muito bem, Senhor Veneta, mas no que me toca, porque fala mal de mim ?
-- O colírio que o senhor me receitou é muito caro, muito caro mesmo, e eu não tenho condições econômico-financeiras para continuar usando-o. Espero que o senhor me receite algo mais barato.
-- Lamento, senhor Veneta, mas não posso. O senhor é portador de glaucoma de ângulo aberto e hipertensão ocular. O remédio adequado, portanto, é o que lhe receitei – falou o médico.
-- Eu não posso continuar comprando o remédio. Se minha mãe fosse viva, tenho certeza, daria um jeito. Um chá, de folha, de ervas, de raiz, um ungüento, um emplasto, sei lá o que, mas daria um jeito. Minha mãe era boa nisso. Utilizava-se da fitoterapia para curar doenças. Aliás, doutor, minha mãe, a exemplo da mãe do presidente Lula, nasceu analfabeta e, pior, desdentada. Não sei se se trata de caso único ou apenas raro. Mas, na verdade, sem ser médica, tratava das pessoas como se o fosse.
-- Senhor Veneta, acontece que...
-- Acontece, doutor, que eu, ao longo do tempo, refleti bastante e a conclusão é a de que me restam poucas alternativas. Por exemplo: usar o remédio só num olho; usar o remédio hoje num olho, amanhã no outro, e, assim sucessivamente; dividir uma gota em duas ou juntar uma gota do remédio a uma gota de água bem filtrada. Desta maneira, o vidro do remédio, que dá para 30 dias, daria para 60.
-- Não, senhor Veneta. Na primeira alternativa o senhor acabaria por perder as duas vistas; na segunda, também. Nas outras é impossível, já que a posologia não pode ser mudada. A dosagem recomendada é uma gota em cada olho uma vez ao dia. Quanto à ultima, não se pode, sob pretexto algum, adicionar água ao remédio.
  Uma funcionária da clínica, que entrou no consultório a chamado do médico, ali permaneceu algum tempo e percebeu que o doutor estava em apuros com o cliente-mala. Querendo ajudar, disse que tinha  a impressão de que o doutor Farah tinha amostra grátis do remédio. Antes que o médico dissesse qualquer coisa a funcionária retirou-se para, logo em seguida, voltar com um frasco do remédio nas mãos.
-- Pronto, senhor Veneta – disse o médico – pelo menos por um mês o problema está solucionado. Vá e pare de falar mal das pessoas.
-- Obrigado, doutor, mas não posso parar de falar. Os sete Ministros que votaram contra os inativos jogaram na Constituição aquilo que a canção do Chico Buarque sugere que se jogue na Geni
levy pereira de menezes
Enviado por levy pereira de menezes em 08/11/2006
Código do texto: T286057
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Sobre o autor
levy pereira de menezes
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 82 anos
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